Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Conversamos com Carlos Paradona Rufino Roque numa das salas da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Ele é o novo secretário-geral desta agremiação. A conversa foi sobre livros, leitura e os desafios da associação, que agora dirige. Mas também, isso não podia faltar, falamos sobre o seu processo de escrita. Defende uma maior aproximação entre o escritor e a sociedade, bem como advoga a criação de uma comissão nacional de leitura, composta por personalidades de reconhecido mérito, que iriam propor livros de leitura obrigatória para  cada uma das classes. No campo do exercício criativo, assumiríamos que “Carota N’tchakatcha, Feitiços e Mitos” (Chill Editora, 2018), seu último livro, podia significar o fecho de uma trilogia, depois dos dois primeiros romances: “Tchanaze, a Donzela de Sena” e “N’tsai Tchassassa, a Virgem das Missangas”.

Talvez fosse melhor que, sob este rótulo, tivessem sido apresentados os três romances de Carlos Paradona, nos quais temos, outra vez, o enredo, num ambiente rural, onde se movem donzelas, que vêem a felicidade adiada pelos vivos e pelos mortos. A dinâmica da realidade africana, moçambicana incluída, está patente na sua verve literária. Os romances chegam depois de um livro de poesia publicado na alvorada da década noventa: “Gestação do Luar”. Não mais se propôs a escrever poesia, pelo menos, não da forma convencionalmente estabelecida. Paradona não fala de fuga, prefere olhar o romance como uma extensão da poesia, uma outra forma de escrevê-la.

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A resposta à violência baseada no género, assim como o combate aos casamentos prematuros poderão registar uma nova dinâmica no país, com a implementação, nos princípios de 2019, da Iniciativa Spotlight. Leia mais

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As instituições dos ensinos superior e técnico-profissional, que funcionam no Niassa, devem contribuir para a melhoria constante da economia da província, pelo aumento sustentável da produção e produtividade agrícolas, a partir da campanha em curso, através da produção de estudos e disseminação de novas tecnologias agrárias.

A recomendação foi feita, recentemente, pelo secretário permanente provincial, Rodrigues Ussene, no âmbito da segunda reunião de coordenação do sector da Ciência, Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, realizada na cidade de Lichinga.

Frisou que a população olha para os académicos e os estudantes do Ensino Superior e Técnico-Profissional como parte principal, entre os vários sectores dedicados ao desenvolvimento integrado da sua província.

"Como a maior parte da população dedica-se à actividade de produção agrícola confia nos cérebros formados e em formação, para a busca de soluções, de modo a remover os obstáculos, que enfrentam para aumentar os níveis de produção e produtividade, sobretudo das culturas que praticam", acrescentou o governante.

Cerca de 2,1 milhões de toneladas de culturas diversas constitui a meta fixada pelas autoridades governamentais provinciais para serem alcançadas na safra 2018/19, lançada no mês de Outubro passado. O alcance da meta desafia os investigadores a produzir e disseminar tecnologias agrárias a favor dos produtores agrícolas, sublinhou Ussene.

A província do Niassa conta com quatro instituições do ensino superior, nomeadamente, a Universidade Pedagógica, UniLúrio, Universidade Católica de Moçambique, Instituto de Gestão, Comércio e Finanças, Instituto Superior de Ciências de Educação e Ensino à Distância (ISCED).

No domínio do ensino técnico-profissional funcionam no Niassa os institutos Agrário e Comercial e Industrial, ambos na cidade de Lichinga. Os distritos de Majune e Ngaúma contam, cada um, com um instituto agrário.

Na óptica daquele dirigente, os centros digitais existentes nos 16 distritos do Niassa devem servir para, entre outras actividades, investigar os melhores modelos de produção agrícola, atendendo as condições agroecológicas da província.

É responsabilidade do sector de Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional promover a inovação. Com efeito, Ussene recomendou para que se faça um mapeamento dos inovadores existentes na província, de modo a facilitar o processo de assistência, que aquele grupo, maioritariamente, de jovens, necessita para reforçar as suas actividades.

A produção de pesquisas para uso nos diferentes sectores que impulsionam o desenvolvimento social e económico deve conhecer uma dinâmica assinalável, na província, de acordo com o secretário permanente provincial.

Frisou que o uso dos resultados das pesquisas em curso, no domínio agrário por parte das instituições competentes ao nível da província, vai impulsionar o incremento da produção e produtividade nos campos agrícolas dos institutos técnico-profissionais existentes.

Saide Sandar

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MAFALALA tem o seu perfume, que o distingue de outros bairros. Cada beco tem a sua identidade, cada pessoa tem um rosto, um sorriso, um andar e uma alma, que mesmo distante não esconde as suas origens.

 

 

A terra do bairro é húmida, nela brotam diversas culturas e capim por rebeldia. O chão deste subúrbio viu nascer e foi pisado por personalidades que mudaram o curso da história do país. Cada casa narra um tempo, conta histórias de alegrias e tristezas.

 

 

Parte da memória deste local estava relegado ao esquecimento, mas um evento veio para exaltar a memória do bairro e da sua gente. O Festival da Mafalala, que já vai na sua 11.ª edição, mostrou outras formas de valorizar o lugar.

 

 

Ivan Laranjeira, presidente da Iverca, associação promotora da iniciativa, disse que o festival tem o intuito de trazer, a debate, a valorização do património cultural e a redefinição dos espaços urbanos. “Estamos a trabalhar para a construção duma narrativa urbana assente na memória e nas migrações, que caracterizaram os 131 anos de elevação de Maputo à categoria de cidade”, apontou.

 

 

O evento é uma oportunidade de convergir com outras culturas um manancial de hábitos e costumes de todo o país. O presidente da Iverca referiu que outra das preocupações da iniciativa é criar bases de intercâmbio e trocas de experiência com artistas de outros quadrantes, com particular enfoque para os países da região.

 

 

O festival decorreu em paralelo com a construção do Museu Comunitário da Mafalala, com a abertura prevista para o primeiro trimestre do próximo ano. Podemos dizer que o evento foi uma antevisão da curadoria deste importante equipamento cultural para o bairro e para a capital do país”, detalhou.

 

 

O lema escolhido neste ano foi: “Matrimónio, Subúrbio e Museologia”. A edição deste ano teve uma abordagem mais intimista, mas manteve a tradição dos festivais anteriores. A sua programação foi marcada por uma série de concertos multidisciplinares de música, poesia e teatro.

 

 

Das actividades previstas no programa, destacou-se a realização de dois concertos musicais, “workshop” de artistas nacionais e estrangeiros, para além de um programa virado para as crianças.

 

 

 

 

 

Museu revive passado e perspectiva futuro

 

 

EM 2013, no decurso da sexta edição do Festival da Mafalala, anunciou-se a construção do Museu Comunitário. Era um sonho. Mas quem visita o bairro hoje percebe que já é realidade. O edifício está no coração do bairro. É um dos únicos prédios de dois andares que aquele subúrbio possui.

 

 

No topo da infra-estrutura contempla-se a cidade de pedra, os prédios altos de Maputo. Ainda é possível visualizar o subúrbio, os tectos das casas de madeira e zinco e as pessoas nas suas diversas actividades diária.

 

 

O empreendimento é construído com material convencional e madeira e zinco, para não fugir à estrutura do bairro, que é maioritariamente composto por residências deste tipo. “A arquitetura do edifício tem marcas do bairro. Por exemplo, nas divisórias existem becos, como os existentes na zona”, disse Ivan Laranjeira, apontando que o local é espaçoso, criado para albergar mais de uma centena de pessoas.

 

 

Pretende-se discutir, prosseguiu, uma museologia diferente da que é proposta, de um modo geral, no país. “Primeiro, porque se trata de um Museu Comunitário, propriedade de uma organização comunitária, quando, por regra, os museus em Moçambique são detidos por instituições estatais”, apontou.

 

 

O Museu Comunitário vai resgatar a memória e documentar a história deste o mais emblemático bairro da capital do país.

 

 

Com o tempo, fomos vendo a necessidade de mostrar como era a Mafalala de antigamente, que materiais se usavam na altura, que instrumentos, que vestimentas caracterizavam o bairro ao longo das épocas. Assim, tivemos que criar um lugar (o Museu Comunitário), onde se pudesse encontrá-los e, de forma mais detalhada, pudéssemos explicar como era o bairro ontem”, explicou.

 

 

A “casa de memórias” não vai focar apenas no passado, vai espelhar o contexto actual e pespectivar o futuro da comunidade que habita Mafalala. O presidente da Associação Iverca disse que pretende-se ainda que o museu se torne um activo importante para o bairro na dinamização da economia local através da cultura, do património e das artes.

 

 

O empreendimento será um espaço de convergência de inúmeros artistas e grupos culturais locais sem equipamentos e instalações, sem lugar para ensaiar ou apresentar o seu trabalho. “O museu virá colmatar essa lacuna no bairro, dando visibilidade aos produtos culturais da Mafalala”, indicou, acrescentando que serão combinadas actividades infantis, exposições, cinema e concertos.

 

 

 

 

 

O bairro ontem e hoje

 

 

APESAR da maioria ver no bairro somente pontos negativos, como o crime, consumo de drogas, delinquência juvenil, entre outros males, que nublam a imagem da Mafalala.

 

 

Quando começámos não tínhamos escritórios, trabalhávamos debaixo de uma sombra. Hoje, estamos aqui debaixo de um tecto. Começámos com zero turista, mas hoje o nosso trabalho é mensurável e conseguimos avaliar a evolução”, narra Laranjeira.

 

 

O lado positivo da Mafalala ficou mais saliente. Os becos, as ruas, as casas de madeira e zinco enferrujado viraram atracção turística. Os visitantes querem conhecer os locais onde viveram as figuras que nasceram e/ou habitaram o bairro, como o lendário futebolista Eusébio, os poetas José Craveirinha e Noémia de Sousa, o antigo ministro, Pascoal Mucumbe, Samora Machel e Joaquim Chissano.

 

 

Ivan laranjeira aponta que nunca se falou tanto, nem se despertou tanto interesse pela Mafalala como se tem verificado. A intervenção da agremiação não é nostálgica ou romantizada, é uma acção consciente que discute questões ligadas ao bairro. “Observamos na forma espontânea e orgânica como os artistas se vão envolvendo, decorrente do trabalho que temos desenvolvido”, disse.

 

 

Além de trabalhar em projectos individuais, a associação inspira e dá impulso a iniciativas que têm como foco o bairro. Das outras destaca-se o da artista Camila de Sousa, intitulado “Mafalala Blues”, e do fotógrafo Mauro Pinto, “Dá Licença”. Recentemente, Amilton Neves apresentou “Madrinhas de Guerra”.  “Quando olhamos para estas acções vemos que estão, de forma indirecta, muitos associados a este trabalho que temos vindo a fazer e que procura, cada vez mais, trazer ao de cima o lado positivo da Mafalala”, disse.

 

 

A agremiação já conta com 12 membros, com expectativa de empregar mais. Actualmente, Mafalala tem uma média de 15 visitantes diários, “o que também representa um salto significativo na importância e no reconhecimento pelo bairro. Estamos a produzir receita e postos de trabalho e, obviamente, isso alegra-nos”, realçou.

 

 

 

 

 

Concerto no bar do Tio Lima

 

 

PARA quem não pôde acompanhar o Festival Mafalala, que aconteceu recentemente, trazemos alguns recortes do evento:

 

 

Sexta-feira. O céu estava inquieto, nuvens negras rebelaram-se e precipitaram a queda de gotas de água. Isso, chuvisca sem parar. As minúsculas gotas conseguiram fazer das suas, em alguns dos becos do bairro era difícil circular.

 

 

Na noite, contra a corrente, as pessoas circulavam sem medo dos chuviscos. No Lima’s Bar, o percussionista Samito Tembe tomou o palco e controlou os seus instrumentos musicais. A actriz sul-africana Zanele Siko entrou entoando canções de lamentações. Descalça, com um avental amarado, o seu rosto exprimia tristeza e desalento.

 

 

A sua performance retrava a subjugação que os negros foram vítimas por mais de cinco séculos e os dramas vividos até hoje. Os dois artistas questionavam se ainda somos livres e os limites da nossa liberdade.

 

 

Em movimento, o corpo de Zanele Siko narrava factos. Sofria, rebolava no chão, deixava a areia ser parte da sua carne. Sem forças, perguntava, o que eles queres? Depois de lutas interiores, libertou-se. Mas faltava algo.

 

 

Depois veio a poetisa Ntsiki Mazwai, que é sensação do “spoken word”, ao nível da África do Sul. Com palavras cruas, ditas em Inglês e sua língua materna, a mulher transpirava energia. Em cada estrofe, emitia mensagens de revolta e lutava pela emancipação espiritual dos pretos. Num dos poemas afirmou que acreditava no retorno de Jesus Cristo para a resolução dos problemas que enfermam África. Não só de reivindicação era feitos os poemas de Ntsiki, o amor também foi invocado.

 

 

Do bairro, o músico Kalinka e sua banda trouxeram uma salada de ritmos musicais, da marrabenta, passando pelo fado, morna, kwasa-kwasa, entre outros ritmos. Apesar dos anos, o vocalista ainda possui o mesmo ânimo de há quatro décadas.

 

 

Nativo da Mafalala, tinha a fórmula para fazer o público vibrar. A plateia acompanhava o artista, entoando as suas músicas e dançando, mesmo sem coreografia. O tempo regulamentar do concerto acabou, chegaram as compensações com uma “Jams session”, que levou para o palco artistas do bairro e visitantes.   

 

 

 

 

 

 

 

 

Na esquina do campinho

 

 

O PALCO foi montado atrás do campinho da Mafalala, em frente de duas casas de madeira e zinco. De pé, o público prestou homenagem a expressão genuína da música. O espetáculo foi aberto pelo grupo Tufo da Mafalala.

 

 

O som da percussão acompanhava o movimento dos corpos destas mulheres, que sentem na carne o ritmo. Na sua performance não faltou o salto à corda. Seguindo a melodia das canções, aos pulos, elas dançavam, levavam o público a passear pela Ilha de Moçambique, para conhecer as origens do tufo.

 

 

Depois das senhoras abandonarem o palco, uma banda se apoderou. No teste do som, a melodia que os instrumentos tiravam já antevia os próximos momentos. O vocalista preencheu o local que lhe pertence. Arrogante, Nery Pires imperou “vocês devem conhecer boa música” e em cada tema que entoava a plateia acatava as ordens.

 

 

O repertório de Nery era composto por músicas de sua autoria, como “Women” e “dreaming”, e de outros artistas, como Michel Jackson, Bob Marley, George Michel, entre outros. Inspirado na “black music”, quem lhe ouvia cantar recordava de Marvy Gaye. O estilo musical do artista está na fronteira entre o neo soul, jazz e o pop rock.

 

 

O público acompanhava atento actuação da banda, com gritos e assobios. Com celulares na mão, uns davam costas ao palco e faziam “selfs” e outros fotografavam a actuação dos artistas.

 

 

Instantes depois, Wandile Bubz, de Durban, trouxe o seu jazz. Sua voz penetrante e profunda transmitiu vibrações positivas. Alguns não entendiam o que ela dizia, mas a música une alma pelo sentimento transmitido.

 

 

Dos convidados sul-africanos, há quem apostou nos ritmos tradicionais, caso de Bubbles. Trajando calças feitas com pele de animais, o músico levou o público a uma incursão pela tradição zulu.

 

 

Tabisso Tabete acompanhou com a guitarra a performance dos seus compatriotas. No entanto, arrancou os aplausos da plateia quando mostrou que também pode cantar. Nos seus temas exaltava o amor, em todas as suas formas.

 

 

De volta a Moçambique, a Banda Unida mostrou o seu potencial. No prefácio da sua actuação fizeram o público mover o corpo ao som dos temas de Jimmy Dludlu, Banda Kassav e Mr. Bow. Mas não terminou por aí, a cantora Sizaquel tinha algo a dizer. A artista entrou com uma balada de amor “Ni kazalile”, mas foi no ritmo marrabenta que levou alguns membros da plateia ao palco para vibrarem consigo.

 

 

Um dos momentos mais altos do concerto foi a entrada da filha do bairro, Safira José. Com a voz e aparência de uma jovem de 30 anos, a artista revisitou os temas que lhe tornaram célebre nos anos 90. “Colete”, “Mate”, entre outros temas fizeram a sua performance.

 

 

O sábado deu lugar ao domingo e a música ainda estava a ser tocada. Nos últimos momentos do concerto ainda houve espaço para Kalinga mostrar a sua veia artística. O repertório foi o mesmo do primeiro dia do festival, mas a vibração do público foi ainda maior.

 

 

Para fechar o concerto entrou o agrupamento Unsi Mafalala. A banda revisitou clássicos da marrabenta, mostrou com quantas notas se faz um espetáculo. O agrupamento saiu do palco, mas a música continuou a tocar na mente do público que queria mais e mais.

 

 

                                          Hélio Nguane

 

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O MUSEU Arqueológico de Manyikeni, no interior de Vilankulo, norte de Inhambane, também conhecido por Museu ao Ar Livre, está quase em estado de abandono, situação que o coloca fora do mapa do turismo do interior da província de Inhambane.

A utilização do centro de interpretação como residência do único funcionário afecto ao local; a retirada para cidade de Maputo das relíquias que ilustram as rotas comerciais do Grande Zimbabwe à estação arqueológica de Chibuene, em Vilankulo; a ausência de plano de construção de infra-estruturas para atrair admiradores do turismo do interior, além da fraca publicitação do local, fazem com que Manyikeni continue no anonimato.

Para contornar a situação, o governador de Inhambane, Daniel Chapo, no âmbito da consolidação da província como destino turístico por excelência, visitou o local semana passada e falou da necessidade de se estabelecer uma ligação com o Parque Nacional de Zinave (PNZ), no distrito de Mabote, para impulsionar o turismo do interior.

Actualmente, Zinave tem projectos avaliados em mais de 25 milhões de dólares norte-americanos, investidos para o repovoamento animal, construção de novas infra-estruturas, equipamentos, recursos humanos, meios circulantes e reforço da fiscalização, de modo a que volte a atrair turistas.

Para o aproveitamento das potencialidades turísticas existentes no interior da província e também fazer um contraste com o turismo de costa, segundo defende Daniel Chapo, Manyikeni precisa de mudar o actual quadro negro e fazer uma exploração sustentável e racional dos recursos naturais existentes.

O que Manyikeni precisa de fazer

CHAPO identificou, como acções urgentes, a colocação de chapas indicativas da localização do Museu de Manyikeni, no cruzamento entre a Estrada Nacional Número 1 (EN1) e estrada Mapinhane/Mabote, e ainda ao longo da estrada Mapinhane/Mabote; formação de guias turísticos fluentes em xitsua, português, inglês e francês, com grande domínio da história do comércio de ouro e especiarias desenvolvido naquele local, ligando o Museu Arqueológico de Chibuene e o Grande Zimbabwe.

Para complementar estas acções, segundo Daniel Chapo, é preciso que haja coordenação de diferentes sectores estatais, nomeadamente Governo do distrito de Vilankulo, Universidade Eduardo Mondlane, Ministério da Cultura e Turismo e ARPAC, com o objectivo de desenharem um novo plano de reutilização e valorização daquele local histórico e cultural do país e de África, para que conste do roteio turístico.

Com a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), o governador pretende discutir a reposição dos achados do museu transferidos durante o conflito armado. Do conjunto das peças e achados, além de missangas, porcelana, ouro e outras especiarias, está o esqueleto humano pertencente a um membro da classe dominante que viveu no local.

“Com a concretização da construção da estrada Mapinhane/Pafúri, o chamado Corredor do Limpopo, os turistas da região norte da África do Sul que quererão visitar o norte de Inhambane não vão perder a oportunidade de contemplar o Museu de Manyikeni, quando bem publicitado através dos meios que sugerimos aqui”, aposta Daniel Chapo.

O governador acrescentou que só assim Manyikeni fará a ponte entre o turismo do interior e da costa e, desta forma, Inhambane vai consolidar o estatuto de destino turístico internacional.

Dados disponíveis indicam que apenas 35 turistas, entre nacionais e estrangeiros, visitaram o local este ano. Este número é muito reduzido para a grandeza histórica do local, daí que o Governo de Inhambane pretende fazer algumas reformas para que o local figure no roteiro do turismo da província.

Estes dados foram confirmados por Mateus Mamule, funcionário e inquilino do centro de interpretação do Museu de Manyikeni.

CA// Recolocar os achados

Mateus Mafai Mamule, guia turístico em serviço em Manyikeni, defende a devolução com urgência dos achados do museu levados para cidade de Maputo, para salvá-los da pilhagem durante o conflito armado.

“Manyikeni voltará a atrair turistas nacionais e estrangeiros quando tiver o seu ouro, as missangas, porcelana, carapaças de tartaruga, marfim, os primeiros pratos de vidro, entre outras coisas que ilustram o comércio no Grande Zimbabwe com o Museu de Chibuene”, disse Mateus Mamule.

“O Governo deve aumentar os incentivos para este local atrair mais turistas. Neste momento, quando chegam os turistas, só vão visitar os restos do amuralhado. Portanto, é necessário construir mais infra-estruturas, electrificar a zona, além da recolocação dos achados, para de facto isto transformar-se num verdadeiro pólo turístico”, sugere Mamule.

Mamule acrescenta que também é importante a instalação de um verdadeiro centro de interpretação de Manyikeni, colocando aí uma placa a referir que “aquilo é do museu”.

“Ou se constrói aqui uma casa para funcionário ou continua museu, ou então se amplia o actual centro. Para de facto Manyikeni transformar-se num pólo turístico, precisamos de trabalhar a sério, valorizando esta rica história de Moçambique e de África”, disse Mamule.

Encravado na floresta de Muabsa

MANYIKENI está encravado na floresta da localidade Muabsa, posto administrativo de Mapinhane, distrito de Vilankulo, norte de Inhambane, a 440 quilómetros a sudoeste do Grande Zimbabwe, a oeste de Vilankulo, e a 50 quilómetros do Oceano Índico. A estação é um centro regional da tradição Zimbabwe do segundo milénio. O conjunto arqueológico é constituído por uma muralha e povoamento circunvizinhos.

Durante o tempo colonial, o antropólogo R. dos Santos Júnior fez o primeiro relato sobre Manyikeni, depois da visita realizada em 1935. Em 1961, Lereno Barradas, membro da Comissão Nacional de Monumentos e Relíquias de Moçambique, considerou as ruínas como sendo os vestígios de um entreposto do comércio ligado ao Grande Zimbabwe. Durante muitos anos, pensou-se que o Grande Zimbabwe tinha sido construído por estrangeiros. Esta tese foi contrariada pelos achados no local, dando conta que foi uma obra da população local: os antepassados dos shonas.

Após a independência, João Morais, arqueólogo da Universidade Eduardo Mondlane, iniciou um projecto de escavações sistemáticas de Manyikeni, com a participação dos arqueólogos Peter Garlake e Graeme Bar-Ker, do British Institute para África Oriental.

O guia turístico Mateus Mamule explicou que, em 1977, Paul JJ Sinclair introduziu no projecto os métodos que permitiram a computorização dos dados e testar novas ideias sobre a ocupação espacial e a arqueologia “behaviouristica” comportamental, como também providenciar elementos para fins educativos.

MUSEU AO AR LIVRE

O primeiro museu ao ar livre em Manyikeni foi fundado em 1979. Os seus propósitos educacionais já estavam patentes durante as pesquisas e actividades científicas. Mais de 450 pessoas residentes das zonas abrangidas pelas pesquisas participaram voluntariamente apoiando nas escavações e participaram nas palestras e visitas à estação. Foram inauguradas sete placas informativas sobre a história da estação e foi aberta uma exposição da autoria do pintor J. Libombo que ilustra achados arqueológicos e a vida dos seus habitantes. O primeiro objectivo da exposição e do museu arqueológico ao ar livre foi divulgar a história pré-colonial de Moçambique.

No início de 1980, com a intensificação da guerra dos 16 anos, as pesquisas museológicas foram abandonadas. O pavilhão de exposições foi destruído. Depois da guerra, os achados foram guardados no laboratório arqueológico da UEM. Após o restabelecimento da paz, foi construído um museu, no seguimento do projecto regional das origens urbanas na África Oriental, Projecto Regional da Constituição, patrocinado pelo ASDI da Suécia, entre 1997 e 2000.

Muralha de plano elíptico

MATEUS Mamule explica que Manyikeni era constituído por uma muralha de plano elíptico, com cerca de 50 a 65 metros, cercada pelo povoamento. Originalmente, as muralhas feitas de blocos de calcário tinham 1,50 metro de altura e 1.50 metro de espessura. Estima-se que o número de casas se situava entre 100 e 137. Provavelmente, eram ocupadas por uma população de entre 150 e 200 pessoas. A organização espacial testemunha as diferenças sociais entre aqueles que viviam dentro do amuralhado e fora dele.

Manyikeni estava também ligado à cultura e economia, aos povoamentos costeiros de Moçambique como Chibuene, fundado ainda no primeiro milénio, e ao Grande Zimbabwe, no interior do continente.

Foi construído para encurtar a distância entre Chibuene e o Grande Zimbabwe, porque, daquele local para Chibuene, os comerciantes faziam oito dias de viagem a pé e/ou de cavalos. São 490 quilómetros do Grande Zimbabwe para Chibuene, 440 quilómetros do Grande Zimbabwe para Manyikenei e 50 quilómetros de Manyikene a Chibuene.

Chibuene é originário da palavra “tsibo”, um resto de caule de uma árvore. Tsibo ficou uma referência na costa de Vilankulo de onde as especiarias eram escoadas de barcos para outros países. O local ficou famoso como Tsibuene e os portugueses, durante a sua penetração mercantil através da Ilha de Moçambique, ao descobrir esta rota do comércio de especiarias, denominaram o local de Chibuene.

Manyikene tem esta designação pois era um local onde as pessoas trocavam produtos, ou seja, local de entrega de produtos. “Munhique”, ou seja, entrega, daí Manyikene, local da entrega.

A criação de bois e ovinos deve ter constituído uma actividade principal. Os utensílios dos camponeses de Manyikeni da primeira metade do segundo milénio são muito similares aos usados pelos camponeses nos dias de hoje, particularmente para a actividade agrícola.

Os cereais plantados eram também os mesmos, como sejam o sorgo, mapira e painço africano. A pesca de água doce, a caça de animais de pequeno porte, bem como a colheita de ervas e frutos selvagens forneciam uma contribuição importante para a alimentação dos camponeses. A cultura de Manyikeni apresenta-se tanto como a de uma comunidade de caçadores e criadores de gado, como de agricultores. O que surpreende nos resultados da pesquisa arqueológica é a grande variedade de recursos e o carácter diversificado da economia. Por volta do ano 1700, o centro de Manyikeni foi abandonado.

A vegetação típica do local, principalmente o capim que nesta época chuvosa forma um lindo tapete verde, foi trazida de fora de Moçambique. Alimentava geralmente os cavalos que eram usados para o escoamento de produtos de Manyikeni para Chibuene.

Victorino Xavier

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