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Categoria: Recreio e Divulgação
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As ruínas da cidade de Pedra e Cal, parte norte da Ilha de Moçambique, vão ganhando um novo alento com as obras de reestruturação em curso. Entretanto, as intervenções estão a ser feitas por estrangeiros.

Ao largo das estreitas ruas da urbe, que para a semana celebra 200 anos de elevação à categoria de cidade, o martelo e o berbequim, durante o dia, para além do roncar das motorizadas, fazem a trilha sonora.

Trata-se de obras de restauração em andamento, nos diversos pontos da Ilha de Moçambique. Devido à condição de pobreza a que muitos dos antigos proprietários nacionais estão voltados, os edifícios foram (e continuam) sendo vendidos a estrangeiros.

Aos pedaços, gradualmente, o Património Mundial da Humanidade, eleito em 1991 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), vai deixando de pertencer ao país em termos práticos.

Naturalmente, não é do agrado das estruturas locais que temem pelo futuro, pois desconhecem os interesses de quem tem estado a apropriar-se daquele espaço. Até porque, embora se apele a investimentos, de modo a tornar a Ilha de Moçambique um atractivo turístico mais lucrativo, a expectativa é a de que tal seja feito pelo capital nacional.

Neste contexto, estando nas mãos de empresários moçambicanos, garantiria que, de facto, as mais-valias e os dividendos, assim como o acesso tivessem como ponto privilegiado a economia nacional. Aliás, o Governo definiu o turismo como uma das quatro áreas prioritárias do seu Programa Quinquenal (2015-2019). 

 “Os nacionais estão a vender os seus imóveis”, lamentou Celestino Gerimula, director do Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique, a contextualizar que a maioria dos antigos proprietários adquiriu os imóveis a preços baixos.

Consta que a compra foi feita através da Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE). Os antigos inquilinos, quando o Estado decidiu desfazer-se dos edifícios, num processo de alienação, pagaram valores simbólicos para que passassem a ser os donos. 

Os preços baixos, no caso da Ilha de Moçambique, foram feitos à luz da sua idade e elevado estado de degradação em que se encontravam, em conformidade com a Lei 5/9 de Janeiro de 1991.

Não tendo condições para mantê-las e aliciados, os nacionais, com valores chorudos, há já alguns anos que vão vendendo a estrangeiros, o que, repara Celestino Gerimula, poderá empurrar os nativos para fora do circuito urbano e deixar em mãos alheias um importante património cultural da história do país.

“É necessário que haja um crédito para garantir a permanência dos nacionais”, sugeriu o director, tendo como referência os extintos sete milhões de meticais que eram emprestados pelo Estado para investimentos nos distritos.

Tal apelo não dista da proposta de criação de um fundo, por parte do Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, que, de acordo com o Programa de Desenvolvimento Humano Sustentável e Conservação Integral da Ilha de Moçambique, proposto à UNESCO pelo consultor e jurista Guido Carducci, em Novembro de 1998, deveria tutelar a primeira capital do país.

O argumento do especialista sustenta-se no facto de na qualidade de património mundial necessitar de um tratamento diferenciado, que obedece a determinadas especificidades.

Conforme o referido documento, embora pela sua natureza a cidade mais antiga do país atraia o turismo internacional, há limitações que se deve impor, de forma a impedir que se torne de massas.

“O tamanho pequeno da Ilha de Moçambique e a sua densidade em termos de património cultural não permitem a construção de hotéis grandes (com pelo menos 250 quartos) no território”, lê-se no capítulo referente ao turismo.

No que diz respeito às actuais reabilitações, conforme Celestino Gerimula, as mesmas estão a responder a um apelo das autoridades municipais no sentido de dar vida a alguns edifícios que o tempo ia corroendo.

Os registos oficiais indicam que, em andamento, estão intervenções em 54 casas que já se encontravam em avançado estado de degradação, comprometendo sobremaneira a estética da cidade que se vale da história que os edifícios a testemunham.

De um discurso arquitectónico manuelino em pedra e cal, que confirmam marcas de um passado que teve nos bantus – nativos -, árabes persas, até pertencer ao sultão de Zanzibar e, a posterior, aos portugueses, é composta a Ilha de Moçambique, na sua parte norte.

Os edifícios ali implantados são a prova física de que outrora ali existiu uma história, uma vida, acontecimentos por desvendar, que ficaram no passado e que o tempo desgastou a pedra, a madeira, e todos os materiais, sem, no entanto matar a sua beleza e poesia.

É nesse sentido que as mesmas valem-se não pelo seu significado valor funcional, mas pelo valor histórico e estético. À medida que os edifícios que marcaram de algum modo o rumo da História do país e, por outro lado, demarcam uma identidade cultural.

“Explicamos que podem adquirir cal em Mossuril para, para além das casas, reabilitarem as principais calçadas da cidade, de modo a acolher de forma condigna quem vier às celebrações dos 200 anos da ilha”, disse o governante.

Tendo em conta a Carta de Veneza, que as intervenções em edifícios de natureza histórica, chamou atenção que algumas das obras, no seu interior, tem construções de bloco e cimento, que, moldam novas estruturas, destoando a arquitetura de outrora.

Celestino Gerimula refere tratarem-se de desvios à norma, sendo que, alguns já receberam ordens para interditar as intervenções, havendo casos, inclusive, que tiveram que recorrer a tribunais para embargar a destruição de um dos mais significativo património que o país possui.

 

Consciência moral e estética

na intervenção nas obras

O director do GACIM defende a necessidade de uma consciência colectiva na hora da intervenção nos edifícios. Mesmo porque tais obras são necessárias, na medida em que algumas datam do século XVI.

Conforme explicou, foi a compreensão do valor de tais imóveis que motivou a criação do seu gabinete, em 2006, com a função de garantir que se obedeça a conservação e que a reestruturação das ruínas siga os padrões definidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Depois de em 1991 a ter elevado à categoria de Património Mundial da Humanidade, a entidade, durante vários anos, contou Celestino Gerimula, enviou especialistas para averiguar se as exigências estavam a ser seguidas ao pé da letra.

A partir de “2009, deixaram de vir anualmente por terem percebido que estamos a preservar o património, isso deixa-nos satisfeitos”, comentou, a reconhecer que há ainda vários desafios pela frente, pois, na sua opinião, a consciência da necessidade de acarinhar a cidade, para muitos, ainda vai levar o seu tempo.

Celestino Gerimula recordou ainda que a Ilha de Moçambique transcende as fronteiras nacionais, porém, frisou, cabe aos moçambicanos cuidarem dela, pois é parte da sua história.

 

Inventário da cidade de Macuti

A cidade da Ilha está dividida em duas: a de pedra e cal e a de macuti. A segunda, onde sempre viveram os mais pobres, tem os seus parágrafos nos registos que se fazem sobre o lugar.

As roupas da casa grande – como chamariam os brasileiros aquele tipo de divisão – eram lavadas naquela parte da cidade, pelo que não se pode pensar que tenha sido passiva aos acontecimentos que elevam o significado da Ilha de Moçambique.

É nesse contexto que, em parceria com a Universidade Lúrio, foi realizado um inventário sobre o tipo de construção, de modo a manter a tipologia e a preservar o seu valor.

“As casas eram cobertas de macuti – folhas de coqueiro – e suportadas por estacas que já não existem, o que torna o trabalho de preservação mais difícil”, disse Celestino Gerimula.

Há, assegurou, uma oficina que está a estudar alternativas para a inclusão da cidade de macuti na preservação da primeira capital do país, que, inclusive, deu nome a nação.

 Leonel Matusse Jr.