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Categoria: Caderno Cultural
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Era manhã de Domingo e a cidade de Quelimane estava deserta. Américo Gonçalves, sentado no terraço do bar, meditava sobre a sua condição de solteiro. Ele já não vivia em busca da mulher dos seus sonhos, já se cansara de ser garimpeiro do amor. Agora esperava ansioso.

Esperava que um dia acontecesse, que um dia ela aparecesse, que um dia o destino lhe mostrasse a mulher predestinada a fazer-lhe companhia, pelo resto da sua vida. Embrenhado nestes pensamentos, Américo mirou o fundo da sua xícara de café, uma xícara vazia como a sua vida sentimental. Adorava dominar as artes premonitórias dos adivinhos, para ser capaz de ler, no fundo da xícara enegrecida pelos restos do líquido preto, o seu próprio futuro.

Levantou a cabeça e riu-se dos seus próprios pensamentos. Foi então que viu no alto do Hotel Chuabo a imagem de uma mulher de chapéu! Américo sentiu-se como que perdido num deserto a ver a imagem irreal de um oásis. Fechou os olhos, por um instante. Ao reabri-los, veio a confirmação: era de facto uma mulher, uma mulher de verdade, e quando ela chegou mais perto, embora a caminhar no sentido oposto, Américo ficou por uns instantes a observar o seu andar gracioso! Andar? Não, na realidade, ela não andava, ela bailava, porque o seu caminhar era, efectivamente, uma dança, e os seus cabelos soltos ao vento gritavam liberdade. E assim, Américo sentiu despertar-se-lhe na alma a urgência de conhecê-la! Ela não podia ser de Quelimane, pensou, dado que ali todos se conheciam. Estava pronto para se levantar a fim de segui-la e prontamente se apresentar, porém um estranho sentimento de candura associado a uma espécie de pudor se impôs sobre o seu instinto. Movido por esse súbito acanhamento, permaneceu sentado vendo-a passar: o corpo bailarino balançava, rítmico, na cadência dos passos, o seu traseiro era a soma das duas metades de uma melancia delicada, madura e polposa. Nesse instante decidiu: terei de percorrer com atenção redobrada todas as zonas turísticas da cidade para a encontrar!

Ao entardecer, dirigiu-se à marginal a fim de contemplar o espectáculo natural do Sol pendurado no espaço, como um imenso glóbulo vermelho prestes a explodir sobre as árvores verdes da outra margem do rio, em Inhassunge. As canoas deslizavam nas águas fluviais, impelidas pelos remadores de braços negros, suados, levando a bordo passageiros que cismavam ao contemplar os breves fulgores dos aros metálicos das rodas das bicicletas transportadas. Os barcos pesqueiros, imóveis, repousavam da faina diária e os velhos barcos encalhados exibiam, escandalosamente, seus esqueletos como ossadas de baleias enterradas na lama. E para dar o retoque final a fim de tornar o quadro perfeito, Américo deu com o olhar tombado sobre o corpo imóvel da mulher do chapéu a contemplar as mesmas imagens. Sem hesitações, decidido, aproximou-se dela e disparou:

– Que coisa mais estúpida é o entardecer.

A jovem virou-se bruscamente, os olhos espantados exibindo o verde das retinas e as narinas dilatadas. Em seus lábios gordos despontou um sorriso sardónico ao responder-lhe:

– Estúpido deve ser você, que não sabe apreciar as maravilhas do universo!

– Obrigado, mas, no fundo, eu apenas queria dizer que só um estúpido não se detém para contemplar um entardecer.

A moça olhou-o fixamente e depois soltou uma gargalhada:

– Eu tenho sido conquistada de várias formas, já ouvi alguém dizer que os meus olhos são diamantes, que sou linda de verde, que estaria melhor se fosse uma fruta madura, que o meu dedo gordo do pé é sexy, porém nunca ninguém me disse “é estúpido o entardecer” como estratégia de engate. Você é o primeiro! Pensa que não me apercebi dos seus olhares, esta manhã, a partir do bar? Pensa que não notei o seu rosto quase sobre o meu ombro a olhar para o rio?

Ele não conseguiu conter o sorriso que se abriu na sua boca, e estendeu-lhe o braço. Ambos estreitaram as mãos e trocaram nomes - sou Renata - disse ela.

Combinaram encontrar-se à noite na esplanada do ‘Tchapo Tchapo’. Américo, convertido em guia turístico, explicou-lhe que o nome da esplanada queria dizer “rápido rápido”, pois nesse local da boémia quelimanense não existiam diferenças étnicas nem raciais, misturavam-se os chuabos, macuas, rongas, espanhóis, italianos, era a babel da cidade, o único lugar do mundo onde se estava bem com Deus e com o diabo: no lado esquerdo, o bar, e no lado direito, a velha igreja católica! Era ali onde se iniciavam as grandes noitadas da sexta-feira quelimanense. Ela ficou surpresa ao verificar que o Tchapo-tchapo estava repleto de mestiços. Ele explicou-lhe citando o seu amigo Ismael, que Deus criou os negros e os brancos e o amor teceu os mulatos.

Em seguida, dirigiram-se ao Refeba, a discoteca a céu aberto com um muro de lona. A música remexia os corpos ao ritmo da passada. Ao amanhecer, saíram do local e foram sentar-se no muro da marginal. Américo, a pulsar de emoção, lançou-se ao ataque:

– Desculpa a tolice desta tarde, foram palavras não premeditadas. Soltaram-se sozinhas dos meus lábios, mas eram a expressão da urgência de te conhecer. Eu fiquei apaixonado por ti desde a primeira vez que te vi.

Renata esboçou um sorriso triste.

– Obrigada, eu também gosto de si, porém todos as pessoas – ainda que desconhecidas – têm a sua própria história. Eu também tenho a minha...

– Eu sou todo ouvidos.

– O meu trabalho foi sempre em Madrid, como executante de dança contemporânea! Como qualquer jovem, comecei num grupo pequeno, apresentando-me em espectáculos locais, até integrar-me numa companhia de dimensão nacional. Foi nesse grupo que tive a oportunidade de ser a dançarina principal de um bailado. Durante um dos ensaios, de repente, tive uma queda e fiquei inconsciente. No hospital fizeram-me uma série de exames que culminaram com a revelação do diagnóstico: eu sofria de uma doença incurável. Entretanto, um dia, caminhando, deparei-me com um anúncio na vitrina de uma agência de viagens, que falava de Moçambique. Como fora sempre meu desejo conhecer África, comprei a passagem aérea e assim cheguei à Quelimane. Quem sabe se a minha partida não constituiria uma forma de espantar a sombra da morte?

Os dois guardaram silêncio, entretanto o sol já emergia timidamente por entre a cacimba do rio, anunciando a promessa de um dia radiante.

Ele maravilhou-se por ouvir as impressões de Renata sobre a cidade. Intrigava-lhe a sua curiosidade, quase infantil, a respeito dos detalhes urbanos. Renata dizia que Quelimane era uma pequena China. Confessou-lhe que despertava cedo, para ver o trânsito das pessoas nas ruas pedalando as suas bicicletas. O seu fascínio era de tal ordem, que até havia elaborado uma tabela classificativa, muito pessoal, dos diversos tipos de bicicleta: bicicletas de luxo com um só condutor, bicicletas-táxi com um condutor e um ou dois ocupante(s) na cadeira traseira, bicicletas-ambulância transportando pessoas com aspecto doentio, bicicletas-familiares com o marido a conduzir, transportando toda a família: a filha pequena na barra dianteira e atrás a mulher com o bebé seguro por uma capulana e por fim as bicicletas-camião com cinco sacos de carvão e longos molhos de caniço na parte lateral.

– Costumo escutar, pela noite dentro, sons fortes de tambor. Aqui, as pessoas estão sempre em festa? – Perguntou-lhe Renata.

– O mais provável é que sejam os curandeiros a fazer tratamentos tradicionais, um médico italiano do hospital provincial explicou-me que nessas situações o doente dança até entrar em transe.

– E que enfermidades tratam?

– Tratam maus espíritos, mau-olhado e doenças que não se tratam no hospital.

Renata mergulhou num silêncio longo e profundo. Depois, sem dizer palavra, rumou em direcção ao Hotel onde estava hospedada.

À tarde desse dia, Américo estava envolvido num animado diálogo com Carlos, um arquitecto argentino que vivia há muitos anos na Zambézia, quando de repente alguém bate a porta. Para a sua surpresa, ali estava a mulher de chapéu que sem muitas cerimónias falou:

– Américo, eu estou decidida a efectuar o tratamento tradicional, para a minha doença. Como vamos fazer para encontrar o melhor curandeiro?

Carlos interveio dizendo que uma conhecida sua fazia consultas no Bairro de Vila Pita e para lá se dirigiam indivíduos de origem indiana e portugueses à procura de tratamento tradicional. Américo perguntou se não seria perigoso para Renata penetrar nos mistérios dos tratamentos espirituais. Ela retorquiu:

– Muitas pessoas vão a missa tratar de seus problemas espirituais, mas existem outras formas de cura como a acupunctura chinesa e a meditação... Pessoas como eu, diagnosticadas com uma doença incurável, estão sempre à espera de um milagre de última hora. E a empatia de Carlos os fez sair juntos em direcção a Vila Pita.

Américo, à noite, não conseguia conciliar o sono escutando o ritmo dos batuques. Quando deu por si já estava prestes a amanhecer. Foi nessa altura que bateram à sua porta e era Carlos. A face do recém-chegado estava cheia de sulcos e rugas de preocupação. De imediato, pediu-lhe algo forte, um whisky, e de um só trago engoliu metade do copo e pediu outro. Depois, mais tranquilo, já sentado no sofá, contou-lhe:

– Chegámos à palhota do curandeiro e ele ouviu atentamente o meu problema. Depois preparou tudo para o ritual. Eu estava sentado numa esteira a observar a jovem moça ibérica, que dançava e dançava mas não conseguia entrar em transe. Entretanto, o meu próprio corpo, livre de mim, levantou-se e repentinamente começou a dançar. Não obedecia ao meu comando, executando movimentos acelerados e rítmicos desconhecidos. Surgiram em minha mente imagens de espanhóis com roupas do século XIX, à beira do Rio da Prata, que ao se depararem comigo gritavam chamando-me de índio, disparando as suas armas de fogo, na direcção do meu ser em fuga. Depois troquei de mundo e cheguei à cidade de Rosário na Argentina, onde vi os meus avós há muitos anos atrás. E, confesso-te, senti medo... muito medo. Quando parei de dançar, apercebi-me que havia entrado em transe. Isto de espíritos é verdadeiro, meu amigo. É como se existissem mundos paralelos que se comunicassem através de passadiços possibilitando que os mortos comuniquem com o nosso mundo.

Carlos engoliu outro gole de whisky e foi-se embora rapidamente. Passados alguns minutos, Renata bateu à porta, e Américo automaticamente serviu-lhe uma bebida, iniciando, prontamente, a narração da sua experiência:

– Eu não consegui entrar em transe, mesmo com todo o esforço empregue e dançando quase freneticamente, não cheguei lá. O curandeiro considera que isso não aconteceu porque sou branca. Por isso, esta noite vamos fazer o tratamento na Igreja Católica abandonada... estás a ver? Tu mesmo é que me apresentaste esse templo, ao lado do Tchapo Tchapo, pois ele diz que ali existem espíritos de brancos, que me vão ajudar! Eu venho pedir para me acompanhares, pois o Carlos saiu a correr apavorado por umas visões que teve.

Ela não esperou a resposta e foi-se embora, pois estava exausta e só lhe apetecia dormir. À noite, no mesmo local, a fogueira projectava as sombras do curandeiro e seus ajudantes que dançavam. Nas paredes da velha igreja, reflectiam-se imagens de fantasmas e o ritmo do batuque acelerava o coração de Américo. Ao seu lado, Renata esperava ser chamada para iniciar o ritual. Acenando com uma das mãos, o curandeiro chamou a jovem. A sua imagem esbelta projectou-se na parede. A sombra de seu chapéu era a maior de todas. Ela iniciou a dança com muita calma e foi adquirindo mais intensidade ao ritmo do batuque. Os sons foram-se tornando progressivamente movimentos frenéticos, descendo em alguns momentos ao ritmo inicial. O curandeiro ia falando palavras que ela não compreendia. Era impressionante que, apesar do ritmo frenético dos batuques e do corpo de Renata nos requebros da dança, milagrosamente, ela conseguia manter o chapéu na sua cabeça. E foi nesse momento que ela saltou uns cinco metros no ar, deu um salto mortal como os atletas nas provas olímpicas de natação, e caiu com a cabeça voltada para baixo. Os batuqueiros cessaram a percussão. O curandeiro aproximou-se da jovem e ajoelhou-se. Américo tentou correr ao encontro da jovem estatelada, mas os ajudantes do curandeiro não o permitiram. Falaram uns com os outros na sua língua nativa e subitamente rumaram para outras paragens. Ele aproximou-se do corpo dela e à luz da fogueira viu os olhos verdes vidrados, o olhar fixo no tecto da velha igreja. Renata estava morta, provavelmente, vítima de uma fractura nas vértebras cervicais.

No Domingo seguinte, pela manhã, no mesmo bar, tomando outro café, Américo viu chegar viva em seu universo imaginário, a mulher de chapéu, cujos cabelos desordenados, soltos ao vento, gritavam liberdade. Essa mulher que, na realidade, não caminhava, bailava, porque o seu andar era na verdade uma dança.

JORGE ANEZ