Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

Enquadramento Teórico

A presente reflexão avalia as modalidades, funções e estatuto do narrador na narrativa colonial em Moçambique. O narrador é considerado como agente, integrado no texto, que é responsável pela narração dos acontecimentos do mundo ficcional, sendo, por este motivo, distinto do autor empírico e mesmo das personagens desse mundo ficcional, pela amplitude narrativa. Na narrativa colonial o estatuto do narrador confunde-se, muitas vezes, com a voz do autor implícito, entidade intermediária e ficcional posta entre o autor real e o narrador, a sua narração comporta, como qualquer discurso literário, ausência de objectividade e de imparcialidade, interferindo na história e tomando até juízos de valor com certos fins ideológicos.

Deste modo, analisamos sucintamente as obras acima destacadas, buscamos identificar, nelas, elementos ideológicos e exóticos a partir da enunciação discursiva do narrador e, dali, discutimos o seu ponto de vista e presença na narrativa.

O estudo destas duas obras oferece-se, tanto pela sua temática específica, quer pela amplitude da argumentação aqui utilizada, como um espaço de reflexão e de análise das relações de alteridade entre o colonizador e colonizado na narrativa. Essas relações acabam resvalando numa construção e desconstrução exótica do colonizado, o que concorre, incontornavelmente, a um comprometimento ideológico quer dos personagens quer da configuração do narrador na diegese.

Neste âmbito, o narrador, enquanto instância autonomizada que produz intratextualmente o discurso narrativo, terá um papel imprescindível na representação da África e do africano segundo a visão eurocêntrica, através de técnicas diversas, tal é o caso da adopção, na narrativa, da focalização interna omnisciente que propicia intrusões e interferências dentro da narrativa.

Iremos dar primazia aos elementos exóticos e ideológicos inseridos na estrutura discursiva, pois através destes, identificamos, por conseguinte, as visões do mundo expressas pelo narrador e a ligação dos mesmos à colonialidade.

Ocorpus que constitui o objecto do presente ensaio, Zambeziana e Muende, de Emílio de San Bruno e de Rodrigues Júnior, respectivamente, teve como tempo e espaço privilegiados nos seus conteúdos narrativos, o Moçambique colonial. Moçambique era, na altura, uma província ultramarina, posto que o continente africano estava sob a administração e a jurisdição portuguesa.

A selecção do corpus não fugiu dos critérios alvitrados por Greimas (1976)[1]: representatividade, exaustão e homogeneidade. As obras em referência enquadram-se, consequentemente no mesmo contexto espácio-temporal e, em algum momento, acabam partilhando os mesmos valores temáticos, pese embora se distem por algumas décadas. Pelo que se - nos impõem, por conseguinte, uma análise cuidadosamente específica. A Zambeziana (publicada em 1927) e Muende (de 1960).

 

Uma análise sucinta dos romances

De um modo geral, as duas obras retractam o contexto social e cultural da época colonial. No que diz respeitoaZambeziana, particularmente e, tal como faz menção José Capela, [2] a acção em “Zambeziana” tem lugar na vila de Quelimane, capital do antigo distrito e actual província da Zambézia, sendo, efectivamente, evidentes, no romance, sinais que nos remetem a uma acção baseada no período de transição do sistema dominial para o do capitalismo das companhias de plantação.A obra é marcada pelo deslumbramento da paisagem, da fauna, enfim de todo ambiente que se torna num polo de contacto entre dois povos de culturas e civilizações diferentes, o povo europeu e o povo africano, representado por personagens de cor negra.

Entretanto, na obra Muende ressaltam ainda as diferenças culturais dos dois povos em referência. Ficam mais nítidos os choques civilizacionais, os complexos de superioridade, a segregação racial, etc., visto que os personagens vêm carregados de um códigos de valores éticos e civilizacionais marcados. Portanto, o discurso neste último romance é claramente ideológico.

Enquadramento dos romances em análise

Das três fases que compõe a literatura colonial em Moçambique, nomeadamente a fase Exótica, Doutrinária ou Ideológica e a fase Cosmopolita, a obraZambeziana enquadra-se na primeira fase, a exótica.

A fase exótica, primeira, “prolonga-se até meados da década de 50. Condicionada pelas viagens de exploração, projecta representações paisagísticas ou humanas dominadas pelo culto do desconhecido, do surpreendente. São claramente expressos por parte do narrador, cruzamentos judicativos de ordem estética onde a incompreensão antropológica acaba por reger, de modo decisivo, a forma como vê o mundo diferente que representa”. Noa (2002: 56 ss).

Por sua vez, a obra Muende insere-se na segunda fase, adoutrinária, na qual “se produz uma escrita identificada com a ideologia colonialista instituída e propagandeada pelo Estado Novo. É uma fase fortemente condicionada pela ordem histórico-política de revitalização da presença colonial europeia”. Noa (Op cit: 61 ss).

No entanto, vale a pena recordar que a literatura colonial em Moçambique tem suscitado vários e não raras vezes controversos debates por parte da crítica, posto que há percepções que apontam que esta literatura não pode ser moçambicana, na medida em que os seus cultores não fazem parte do território nacional. Por outro lado, perspectivas há que defendem que esta literatura é moçambicana pelo simples facto de ser produzida no território moçambicano.

Na verdade, só a expressão colonial já é em si versátil, pois “não é meramente político, mas sim, civilizacional. A dimensão colonial interfere na organização política, jurídica, económica e social; condiciona e plasma toda a mundividência do povo colonizado, forjando uma ideologia colonial: a sua filosofia, as suas manifestações, estéticas, o seu imaginário, o seu código moral e ético, enfim, o seu sistema civilizacional”. Mata (1993: 92/3).

Distinguindo o conceito de literatura colonial da sua expressão brasileira, Laranjeira (1995: 26) explica que “em África significa uma literatura escrita e publicada na maioria esmagadora por portugueses numa perspectiva de exotismo, evasionismo, preconceito racial e reiteração colonial e colonialista”.

Por seu turno Brookshaw (2000: 36) identifica um dos traços característicos da literatura colonial como, por exemplo, o facto de os seus heróis terem que conciliar o seu desejo de aventura, o que implica também um certo fascínio pela nova realidade cultural em que se encontravam e a sua capacidade de preservar a sua própria identidade cultural, a sua autoridade como representantes do poder imperial.

Note-se que, pelo alto grau de problematicidade, a literatura colonial encerra muitos aspectos éticos, morais, sociológicos, políticos causadores de uma miopia intelectual na análise mais isenta e absolutamente crítico-científica do assunto. Todavia, adverte-nos Salvato Trigo (1987) Apud Noa (1999: 60),

Há, pois, que ler a literatura colonial não com um sentido permanente de destruição, de terrorismo leitural, que só denotam insegurança e intolerância do leitor/crítico, tão contrárias ao espírito científico, mas com um sentido de pesquisa e de aprendizagem, buscando nela elementos e factores causativos e germinativos para a consciência literária nacional […].

Diante do exposto, não restam dúvidas de que o alto grau de problematicidade da literatura colonial constitui um empreendimento verdadeiramente delicado e temerário, sobre o qual muitos se vêem indispostos a desenvolvê-lo. Noa (2002).

Na generalidade, a literatura colonial implica considerar a representação do Outro, a partir de um discurso legitimador colonial, Eu, isto é, estamos diante de uma literatura que é produzida no âmbito da presença das potências imperialistas em África, traduzindo-se, de certa forma, a valorização de uma cultura e de uma civilização em detrimento da outra.

Importa-nos referir que não é nosso interesse discutir a questão inerente à problemática da literatura colonial, muito menos a de nacionalidade literária, pois não constituem objecto da nossa análise específica, pelo que não iremos aprofundar o conteúdo.[3]

 

Do exotismo estético ao compromisso ideológico do narrador

Dissecando sobre as tendências estéticas do romantismo, Aguiar e Silva (2010: 549), considera que o exotismo revelara-se já na literatura pré-romântica, mas desenvolveu-se grandemente com os românticos, satisfazendo ao mesmo tempo os seus anseios de evasão e a exigência da verdade na pintura do homem e dos seus costumes.

Em seu ensaio de crítica etnológica – intitulado precisamente Exotisme et Altérité, Affergan (1987: 225), afirma que o processo de apreensão da alteridade dá origem a uma nova dimensão da consciência, que denomina, no rastro de Segalen, exotique. “Mas é em última instância a forma literária propriamente dita, uma forma de escritura do Outro”, considera Todorov (1989: 298), em Nous et les Autres a “L’Exotique”.

É interessante constatar, só pelas definições acima, como os conceitos exotismo e alteridade são intrínsecos. Este fenómeno fez com que “a maior parte dos autores que, durante o século XIX, se debruçaram sobre o assunto, não desligassem o fenómeno do exotismo, da literatura colonial. Assim, seria a dimensão exótica do discurso e dos temas que caracterizaria a ficção colonial. Contudo, alguns estudos mais recentes contribuíram para que hoje se admita a existência de dois campos: o exótico e o colonial”. Bernard Mouralis (1982) Apud Mendonça (2011: 24).

A realidade apresentada pelo narrador nas narrativas exóticas aparece estranha, ou seja, mais insolente, pelo que adere pela consciência de uma relação de alteridade que o impele a reconhecer e representar o Outro, tendo como elementos a paisagem,as culturas, o homem.

SALOMÃO MASSINGUE[4]

 


[1]Em “Elementos para uma Teoria da Interpretação da Narrativa Mítica”. In: Análise Estrutural da Narrativa. Trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. 4 Ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 1976.

[2]Cf. CAPELA, José. “Introdução Histórica”. In BRUNO, Emílio de San. Zambeziana-Cenas da

Vida Colonial. Maputo: Arquivo Histórico de Moçambique. 1999.

[3]Porque, na verdade, são questões que estão longe de reunir consenso no seio dos estudiosos da literatura.

[4]Estudante de Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na FCLCA - UP

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