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Categoria: Caderno Cultural
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Cadeiras preenchidas, canetas em movimento no papel, ouvidos atentos. Por vezes olhos arregalados. Sinais de espanto e de emoção. Satisfação. Foi neste clima que decorreu o 27.° curso de literatura em língua portuguesa.

O evento juntou escritores, académicos, cineastas, estudantes e amantes das letras no Centro Cultural Português (CCP), para responder a questão: quais são as novas tendência da literatura?

O exercício (prazeiroso) de ler e escrever não tem barreiras. Através da escrita, mundos são construídos. Quem lê percorre de pé descalço os caminhos que as letras traçam. Numa viagem de avião, o cineasta moçambicano João Ribeiro dispensou os serviços de bordo e deixou-se embalar pelas rotas traçadas por Mia Couto na obra “O último Voo do Flamingo”. Ele não precisou ler pela segunda vez, pois, aquela viagem que ele fez já lhe bastava. Encontrou as condições necessárias e transformou as percepções que tive do livro em filme. És o poder da escrita.  

 

Os voos de João Ribeiro

e as tendências do cinema

João Ribeiro não tem dúvidas: Em Moçambique a adaptação de obras literárias para o cinema é uma nova tendência. Por exemplo, o realizador de “O Último Voo do Flamingo”, adaptação do livro de Mia Couto, descreveu os caminhos para o surgimento da ideia. “Fiz a leitura do livro numa viagem de avião. Tive a ideia de transformar aquela estória em filme. Falei com o escritor Mia Couto e ele aceitou a proposta. Mas tinha de arranjar os processos burocráticos, os direitos da obra, entre outros aspectos”.

No processo de adaptação, o realizador fez várias concessões. Segundo Ribeiro, no cinema o dinheiro fala mais alto. Quem patrocina tem mais poder. O filme é uma co-produção de seis países. A escolha do actor principal, “que acabou por ser um italiano”, baseou-se no poderio financeiro e não na lógica do livro”.

Na literatura, o escritor tem mais autonomia sobre a estória. Ele escolhe todas as variáveis. Enquanto o cinema “é sinónimo de conjunto. Existe uma equipa que trabalha para a materialização da estória num produto fílmico (audiovisual)”.

No processo de adaptação, o autor do livro que deu origem ao filme pode não ficar satisfeito. “Meu professor de faculdade, o escritor colombiano Gabriel Garcia Marques, ficava frustrado com algumas adaptações, pois, no filme não eram retratadas todas as realidades de suas estórias”.

Com o filme “O Último Voo do Flamingo”, Mia Couto teve uma reacção diferente. “Ele apoiou todo o processo. Ficou feliz com o filme”.  

A película adaptada e a obra são produtos diferentes. “É frustrante qualquer tipo de comparação. Um não supera o outro”, anota João Ribeiro. 

Tanto no filme, como no livro são narradas estórias. No cinema reina o audiovisual, na literatura o escritor constrói imagens e narra através de palavras.

Sem avançar datas para o lançamento, João Ribeiro revelou estar a trabalhar para a materialização de uma outra adaptação.

 

Novas tendências da narrativa

Na visão do Professor de Literatura e actual director do Fundo Bibliográfico, Nataniel Ngomane, no processo de estudo, particularmente na marcação do início da literatura moçambicana, deixou-se de lado dois factores: “Foram excluídos os manuscritos árabes, escritos antes da chegada dos portugueses e a literatura oral”.

Nataniel Ngomane apontou ainda que, para uma melhor compreensão das origens da nossa literatura, é preciso ter em conta estes dois factores.

A literatura moçambicana é um processo em construção. “A formação da literatura é constante totalmente inacabado”, disse.

Na visão do académico, existem três tendências: “Uso normativo do Português”; “Uso normativo do Português com incertos das nossas línguas bantus”; e “Uso desviante do Português”. 

O uso normativo do Português com incertos de línguas bantus é, sem dúvidas, a tendência mais usada.

Autores como Aníbal Aleluia, Lilia Momple e Calane da Silva exploram esta tendência com mestria. “Na obra “Mbelele e outros contos”, na qual Aníbal Aleluia descreve as suas viagens pelas regiões sul, centro e norte do país, o escritor trouxe o universo tradicional moçambicano com as suas peculiaridades e dinâmicas”, diz Nataniel Ngomane.

No uso desviante do Português, Mia Couto é uma referência incontornável. “Depois de ‘Vozes Anoitecidas’, o autor fez uma revolução”, salienta Ngomane, acrescentando que “começou a dar o seu toque, que é forma particular de escrever e de reinventar a língua”.

Inspirando-se nas nossas línguas, ele cria um produto final com fragrâncias de Moçambique. 

Na ocasião, Nataniel Ngomane chamou atenção para a solidificação de leituras obrigatórias no Ensino Geral. “Há uma necessidade de consolidação, escolha dos livros que devem constar nos manuais do Ensino Geral”, disse.

Para o académico, tem de se definir quais são os clássicos moçambicanos, dos PALOP’s (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) que devem constar nos manuais das escolas primárias e secundárias.

 

Cruzamento de gerações

Duas gerações de escritores estiveram reunidas no dia 24 de Setembro para partilhar o seu percurso. Representando a “Charrua” (Revista literária criada em 1984) estiveram os escritores Pedro Chissano, Juvenal Bucuane e Marcelo Panguana. Para representar o Movimento Literário Kuphaluxa (criado em 2009) de outro, Amosse Mucavele, Nelson Lineu e Agostinho Inguana.

A AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) foi criada no dia 31 de Agosto de 1982. A revista “Charrua” foi criada no dia 23 Junho de 1984. O escritor e então secretário-geral da AEMO, Rui Nogar, foi predominante para o surgimento da revista.

“Ele aconselhou-nos a fazer a leitura e crítica dos nossos escritos”, afirma Pedro Chissano.

Juvenal Bucuane prossegue, “foram convocados amantes da leitura. Éramos cerca de 50 divididos em dois grupos. Depois de um tempo ficamos 10 ou 15. Seis destes formaram a revista “Charrua”, fui o primeiro coordenador”.

Marcelo Panguana fez parte da revista mais tarde. “Trabalhava em outros movimentos, como o Diálogo. Na revista, tinha a espinhosa missão de escrever sobre o que os outros escreviam”.

A revista ganhou magnitude. “Nela pensávamos os rumos do país”, afirma Panguana. A revista sobreviveu até a oitava edição. “Foi uma morte natural”, sentencia Pedro Chissano.

Num outro contexto, com o objectivo de mobilizar a sociedade para o gosto pela leitura, ergue-se, em 2009, o movimento literário Kuphaluxa. “Surgimos num curso como este no então Centro de Estudos Brasileiros (CEB), actual Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM).

Silaide Mutemba e Amosse Mucavele deram o nome ao Movimento: Kuphaluxa (Divulgação, discriminação em changana, língua do sul de Moçambique).

“Tivemos o apoio do ex-director desta instituição, Calane da Silva. Passamos por vários obstáculos, mas hoje já somo uma referência no cenário literário nacional”, afirma Nelson Lineu.

Para além dos encontros para a leitura dos seus textos, que acontece todas as sextas-feiras no CCBM, o Movimento Literário Kuphaluxa está a investir no lançamento de obras.

Eduardo Quive foi o primeiro a lançar, depois seguiu-se Amosse Mucavele e a lista foi crescendo. Agostinho Inguane será o próximo a lançar. Amosse aponta que o Movimento tem de trabalhar para a consolidação de um mesmo ideal e a existência de uma temática que identifique o grupo.

A 27.ª edição do curso de literaturas em língua portuguesa, evento organizado pelo CCP em parceria com a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, contou com a participação de 164 participantes, tendo sido uma das mais concorridas dos últimos anos.

A participação média por dia foi de 103 participantes. Pelo menos 100 participantes, cuja maioria era proveniente da UEM e da UP, tiveram direito a um diploma de participação.

Os inscritos no evento congratularam a iniciativa. “Foi uma oportunidade de aprender e cultivarmo-nos como pessoas”, disseram.

Alguns não esconderam a sua frustração: “Esperávamos mais sobre as novas tendências. Não houve debate entre os mais velhos e os mais novos”.

Além do programa principal, decorreu uma Oficina de Escrita, orientada pelo escritor português José Luís Peixoto.

A actividade paralela contou com 21 participantes provenientes das universidades Eduardo Mondlane e Pedagógica, Escola de Comunicação e Artes (ECA-UEM), Associação dos Escritores Moçambicanos e Movimento Literário Kuphaluxa.

Teve ainda uma frequência diária de 18 participantes. Em Maputo, José Luís Peixoto realizou também uma sessão na Escola Portuguesa de Moçambique, onde participaram 150 alunos.

Entretanto, pela primeira vez o curso de literatura teve uma itinerância para as zonas centro e norte do país, nomeadamente Quelimane, Beira e Nampula.

HÉLIO NGUANE