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Era início de noite de quarta-feira, 4 de Dezembro, na estação dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM). O barrulho dos vagões em movimento e a agitação dos passageiros, que soltavam gritos e outros sons para serem notados pelos visitantes da Galeria Kulungwana, não atrapalhava o momento. Num só evento era lançado o livro e a exposição, patente até semana passada, “Preto no Branco”, numa homenagem póstuma ao heroico fotojornalista Kok Nam.

Porque Preto no Branco?

“Preto no Branco parece um título sarcástico, que zomba com o homem de origem asiática que está por detrás da máquina prodigiosa. Mas não o é. Com está expressão idiomática pretende-se alcançar o linear significado da mesma, sem ironia nem estultícia”, esclarece Nelson Saúte num documento sobre a exposição, também reproduzido na capa (última página do livro).

A exposição traz a preto e branco de uma realidade que fere. A brutalidade das fotografias dispostas na exposição Preto no Branco dá medo. “Essas fotografias denunciam a miséria humana, a indigência material, o infortúnio e a sordidez que fomos capazes de experimentar”, descreve Nelson Saúte na capa (última página do livro).

Os rastos da Guerra Civil são visíveis nas imagens. “A exposição traz imagens de um tempo complicado. As fotografias esteticamente são belas, mas retractam uma realidade dura, que nós dia de hoje é difícil imaginar que ela (realidade) foi vivida aqui”, relata Saúte no dia do lançamento.

“Apesar da brutalidade, as fotografias foram bem elaboradas, são óptimas fotos”, explica Alves Gomes, coordenador do livro Preto no Branco.

Calane da Silva, amigo e antigo colega de profissão, acrescenta, “Kok Nam foi um grande fotógrafo. Um dos melhores que Moçambique viu nascer”.  

Fucho (João Costa), fotógrafo de profissão, fez a curadoria da exposição e foi editor fotográfico do livro. Amigo próximo de Kok Nam, presenciou a “clicks” da maioria das fotografias presentes na exposição e no livro.

Para ele o trabalho de curadoria foi fácil e prazeroso. “É um gratificante participar desta homenagem. Kok foi um amigo e companheiro presente. Foi fácil a selecção das fotografias, tanto para a exposição como para o livro. Conheço boa parte das fotos, pois na sua maioria ele tirou na minha presença, algumas no Kucha Kanema, onde trabalhei como Câmera Man, e em outras ocasiões.”.

Calane não poupa adjectivo e exprimiu: “Kok Nam foi um Homem corajoso. Um fotojornalista de guerra reconhecido internacionalmente. Recordo-me de ter participado de uma exposição dos melhores fotojornalistas de guerra do mundo e deparei com duas fotos de Nam”.

Fucho desvenda a técnica usada por KoK. “ Ele era paciente, podia esperar minutos para tirar uma foto. Parado com a máquina na mão procurava o melhor angulo para a foto. Kok quebrava as regras do jornalismo que exige rapidez na fotografia de modo a captar o momento exacto do acontecimento”, afirma Fucho pra depois satirizar, “mas com seu jeito “oriental de fotografar” conseguiu impor-se”.

Livro

O trabalho de Kok Nam foi eternizado em um livro. A obra foi publicada pela editora Marimbique. As imagens contam o percurso histórico deste fotojornalista. Mas não é só de fotografias que o livro Preto no Branco é preenchido, existem nele relatos de individualidades que directas ou indirectamente estão ligadas ao percurso do nosso fotógrafo. Delas destacamos Alves Gomes, Calane da Silva, Graça Machel, Luís Cabaço, Luís Bernardo Honwana, Mota Lopes, Nelma Saúte, Patrícia Haye entre outros.

Com cerca de 88 páginas, o livro traz a interpretação do trabalho deste fotógrafo que marcou pelo seu trabalho e jeito característico de ser. 

“De trato fácil, incrivelmente jovial, cultivando sempre a modéstia e a humildade, os seus colegas e amigos guardam dele um grande sentido de profissionalismo e rigor, a defesa tenaz da integridade e dos princípios”, descreve um comunicado enviado pelo mediacoop no dia da morte de Nam.

A herança de Kok Nam 

O seu acervo fotográfico, espalhado pelos quatro continentes, é um dos mais importantes bancos de imagem disponíveis sobre Moçambique. Gomes é o coordenador do livro, além desta função, a família de Kok lhe deu função: “Sou responsável por preservar o espólio (arquivo de fotografias) de Kok Nam”. Alves Gomes têm de classificar as fotografias e fazer o registo na SOMAS, mas as recordações retardam o seu trabalho. “Sempre que vejo as fotografias, é complicado ele foi para mim um amigo, vem-me recordações, fico horas a reviver aqueles momentos”.

Para que este espolia existisse, foi vital o papel da Arquivista Narcézia Massango. “Trabalhei na Revista Tempo como Arquivista. Ajudei a conservar boa parte das fotografias de Kok Nom, mas algumas perderam-se com as transformações, mudanças de edifício, que a revista passou”.

Percurso de Kok Nam a preto e Branco?

Kok Nam é filho de imigrantes camponeses da província chinesa de Cantão. Nasceu em 1939 em Lourenço Marques, actual Maputo. Aos 17 anos iniciou-se como jornalista. Nos anos 1960 passou de órgãos (Diário de Moçambique e Voz Africana) tentavam furar o muro de silêncio colonial. Na década 1970 esteve na fundação da revista Tempo o berço de uma geração de jornalistas inconformistas. Com um currículo invejável, já publicou no Expresso (Portugal) e no "The New York Times" (Estados Unidos da América).

Durante o período revolucionário, «dominado pelo partido único, a Frelimo», permaneceu na “Tempo”. Em 1990, sua casa, foi redigido o manuscrito do documento "O direito do povo à Informação", exigindo a liberdade de imprensa como um direito constitucional.

Em 1991 com os seus colegas Naita Ussene, Fernando Manuel e António Elias (já falecido) criou a Mediacoop, então uma cooperativa, que lançou o diário por fax Mediafax e o semanário Savana, de que era director desde 1994 até a sua morte em 11 de Agosto 2012. Em reconhecimento a sua verticalidade Kok Nam é até hoje director emérito do Semanário Savana.

Outra face

Para além da facilidade em manejar a máquina fotográfica, Kok Nam tinha outro talento. “O panela, como era chamado, comia que era uma maravilha. Bom cozinheiro, os seus dotes culinário eram uma da sua marca” recorda Calane num tom sorridente.

Kok Nam deixa dois filhos, a Ana Michelle e o Nuno Miguel e um legado no fotojornalismo nacional.

 

Hélio Nguane

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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