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O OBJECTIVO de nosso estudo é analisar os poemas “Se me quiseres conhecer”, “Poema”, “Mulher que ri à vida e à morte” da escritora moçambicana Noêmia de Sousa. Para isso, vamos organizar a nossa reflexão em três partes: tradição e contradição em Moçambique (momento em que se expõe aspectos culturais, geográficos e religiosos deste país); Noêmia de Sousa, uma militante em Moçambique (trazendo informações sobre o perfil da escritora e sua condição social em seu país); e, por último, a análise dos três poemas acima citados para percebermos os sinais da poesia combate moçambicana nos versos de então precursora da escrita em autoria feminina. 

Podemos dizer sem medo que a literatura nos leva a grandes aventuras e, acatando esta condição, vamos viajar para o território africano através da voz da escritora moçambicana Noêmia de Sousa, aterrizando em sua coletânea de versos “Sangue Negro” (1990), obra da primeira mulher que se aventura na literatura no momento em que o seu país se encontrava em estado de guerra por conta de lutas em prol da independência.

Tal facto contextualiza a literatura de Noêmia de Sousa como poesia combate, pois seus versos traziam uma linguagem engajada com os ideais militantes da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique).

Adentrar na poesia de Noêmia de Sousa é descobrir um outro povo, uma outra cultura, cheia de credos, de mitos, de ritos, enfim de aspectos múltiplos que compõem um imaginário excêntrico em relação ao que já está escrito nas páginas de tantas literaturas.

Tradição e contradição em Moçambique

A nossa proposta em trazer um pouco de informações sobre Moçambique é mais uma forma de entender a literatura que é escrita nesse país, pois entendemos que a literatura é um texto, que no plano de suas múltiplas tessituras, necessita de algumas linhas precisas dos vários contextos (históricos, sociais, religiosos, entre outros..) para construir um idéia literária que permita ao leitor se deslocar do plano real e aceitar o plano ficcional.  Ler a cultura africana, através da escrita de Noêmia de Sousa, é um caminho para se perceber uma tradição cultural que ainda permanece na modernidade, enfim, é possuir a permissão para viajar por um território cultural multifacetado de uma nação que, colônia de Portugal até 1974, acumulou valores sociais díspares, como: a monogamia e a poligamia, o politeísmo e o monoteísmo; a escravidão e a liberdade; o cultivo e a indústria; ou seja, situações políticas, religiosas e econômicas que beiram a guerra e a miséria.

O vocábulo português moçambique data do século XVI. Do século XI a XV, este país foi explorado pelos árabes, persas e suailis (africanos bantos arabizados ou islamizados, que prolongaram as feitorias muçulmanas da costa da Somália: Melinde, Mombaça, Zanzibar, Quíloa, Moçambique, Sofala). Essa região da África Oriental fazia parte do complexo mercantil do Oceano Índico, com relações a longa distância com o Oriente Médio, a Índia e a China. As relações atingiam também os povos bantos do interior. Moçambique foi colônia de Portugal por muito tempo. O domínio português se dá quando Vasco da Gama atinge o solo moçambicano em 1498 e faz aliança como rei Melinde. Em 1506, os portugueses apoderam-se de Sofala e em 1507 da ilha de Moçambique que se constituiu desde então em um porto de escala de para os portugueses no comércio e na conquista da Índia. Em 1697, após frustradas tentativas de exploração do ouro e marfim, o comércio de escravos tornou-se a principal atividade dos portugueses em Moçambique. Uma grande quantidade de negros foram levados do solo moçambicano e vendidos, como escravos, na América do Norte e, principalmente, no Brasil. Assim, por exemplo, até 1800, o número de escravos era em média de 10.000 por ano, cifra que passa, a partir de 1800 para 15 e 25 mil escravos por ano, decaindo a partir de 1850. A posição dos colonizadores portugueses em relação ao povo moçambicano passa a ser ameaçada quando os poderes europeus decidem a partilha da África. Uma nação pretendente foi a Inglaterra, que, em 1823, alegando encontrar o território abandonado, reivindicou sua soberania. Mas, com a Conferência de Berlim, em 1885, a soberania lusitana é legitimada. Como toda colônia portuguesa, Moçambique tenta se libertar das garras deste ambicioso e sangrento colonizador. Surgem os movimentos nacionalistas. A Liga Africana, fundada em Lisboa no ano de 1920, é a primeira organização favorável aos nativos africanos. Depois desta, surgiram o Instituo Negrófilo, a Associação dos Naturais de Moçambique, a União Democrática Nacional de Moçambique, a União Nacional Africana de Moçambique, além de outras. Essas organizações se uniram e, em 1962, formaram a Frente Liberal de Moçambique (FRELIMO), presidida pelo Dr. Eduardo de Mondlane, o qual morreu assassinado por uma bomba postal, em 1969. A FRELIMO começou a atacar as forças militares portuguesas, em 1964. O governo socialista português derruba, em 25 de Abril de 1974, a ditadura de Salazar, e concede a independência a Moçambique, em 1975.

Todo este traçado histórico é oportuno por conta da ligação dos intelectuais moçambicanos com seu contexto histórico, social, cultural e religioso. Em Moçambique, a primeira literatura é a do colonizador, com todas as características, na temática e na forma, da pior que se produzia em Portugal. A medida em que aumenta a fixação dos portugueses em Moçambique, aparece uma literatura em que eles, os colonos, assumem os seus problemas específicos, criando a ilusão de uma interação cultural pacífica entre colonizadores e colonizados. Começam a surgir, de forma isolada, as primeiras vozes, ainda confusamente, que darão conta, através da literatura, dos conflitos e tensões, injustiças e momentos de revolta que, realmente, categorizam a relação colonial. Por outro lado, acompanhando o desenvolvimento do sentimento nacionalista, o escritor moçambicano afirma a terra ocupada como Pátria cuja identidade é algo a construir.  

Somos um país de ambiguidade, de interrogação, de construção identitária. Somos um país que fermenta na busca de um nós simbólico comum, virusidado, porém por um nós real-social imponentemente assimetrizado. (SERRA: 1998, p.11)  

Assim, toda a luta anti-colonial passa a ter um forte reflexo na produção literária que nasce do discurso dos combatentes da FRELIMO, expressando o próprio cotidiano da luta em todas as suas frentes. A arte literária, nesse sentido, não é utilizada como aparência por diferença na realidade, pois as vozes africanas que ecoam nas narrativas transcritas da oralidade tomam a realidade como um objeto que legitima a sua literatura, o que Aristóteles chama de verossimilhança.  Noêmia de Sousa é muito pontual em relação a este perfil de escrita que traz um discurso marcado pela tradição oral.  

“Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara  sobre o branco egoísmo dos homens  sobre a indiferença assina de todos.  Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão  nossa voz ardente como o sol das malangas  nossa voz atabaque chamando  nossa voz lança de Maguiguana  nossa voz, irmão,  nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade  e revolucionou-a  arrastou-a como um ciclone de conhecimento.” (SOUSA: 1988, p.33)  

Este é um fragmento do poema Nossa Voz , encontrado na coletânea Sangue Negro(1988) desta escritora. Como afirmávamos anteriormente, o discurso é construído sobre bases que marcam a tradição oral, ou seja, uma escrita para um leitor que tem a sensibilidade de ouvir os ecos de um eu-poético que muito se assemelha aos contadores de estórias em volta da fogueira, encostados em uma grande árvore como o Imbondeiro. O próprio título do poema já nos dimensiona para o plano da oralidade. Vários verbos deste fragmento nos remetem à idéia de militância, de conscientização de valores em relação à condição do negro frente ao seu estado de escravidão: Nossa voz consciente e bárbara ergueu-se/ sobre o branco egoísmo dos homens/ sobre a indiferença assassina de todos. Estes três primeiros versos dizem muito da condição do escritor moçambicano frente ao seu trabalho de chamar a atenção de seus leitores, até porque este poema é assinado por mulher em 1949 que tem plena consciência de quem quer atingir. O branco é utilizado para colorir a atitude animalesca tanto do colonizador como dos negros que se rendem aos ideias colonialistas matando seu próprio povo, e, concomitantemente, toda a sua história, cultura, identidade, etc.  Há também muitas alegorias que compõem uma metáfora de ataque: nossa voz ardente.../ nossa voz atabaque.../ nossa voz lança.... Pode-se dizer que a opção da autora por este tipo de linguagem é uma forma de a mesma driblar um meio social e colonialista. A autora se insere no mesmo contexto cultural de sua literatura, então reavivar as formas tradicionais apagadas pelo discurso do colonizador e esquecidas pelos homens colonizados é uma estratégia de manutenção de uma cultura autóctene e de tentativa de legitimar a identidade cultural em processo. 

Noêmia de Sousa é a autora que escolhemos nesse estudo para entender a literatura africana feita em Moçambique. Poderíamos escolher outros intelectuais como Mia Couto, Paulina Chiziane e Lília Momplé, e, com certeza, encontraríamos na escrita destes, linhas de semelhança no que diz respeito ao processo identitário, pois sejam de expressão portuguesa, inglesa ou francesa, ou intelectuais africanos se escrevem e se descobrem a partir da literatura que fazem. A literatura destes escritores é marcada pelo autoreflexo de suas sensibilidades.  No caso de Moçambique, a língua portuguesa é algo que ficou da colonização, um elemento que serviu de arma para o africano divulgar sua cultura, pois já foi dito que os negros africanos 2 foram resistentes em relação à imposição cultural de seus colonizadores.  Na antiga Lourenço Marques, há, ainda hoje, várias línguas indígenas de família banto correlacionadas com o português já adaptado ao meio moçambicano, o que se chama de língua crioula ou português crioulizado. Em época de sua independência, ano de 1975, poucos habitantes falavam a língua portuguesa. Agora, a flor do Lácio é popular nos jardins da diversidade africana.  Moçambique é um país que nos permite entender um pouco das riquezas múltiplas da África, principalmente no que concerne ao entendimento das ações humanas em um cenário montado no palco da vida. Mitos, ritos, costumes, tradições, ancestralidade, deuses, homens e mulheres são elementos que migram do contexto cultural moçambicano como objetos mimetizados no espaço textual da literatura que é escrita neste país. Por isso, é inevitável ler esta literatura e não perceber a imagem do sofrimento, da luta, de fome, de miséria, de analfabetismo. Fatos que se tornam presentes ainda hoje no país por conta de sua situação econômica.  

Noêmia de Sousa: uma militante em Moçambique

As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa já ocupam um vasto território de leitura, tanto no Brasil quanto em Portugal e na própria África Lusófona. Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau são países onde vivem intelectuais preocupados com uma escrita literária que mantêm um fecundo diálogo com questões temáticas que se voltam para o colonialismo, pós-colonialismo, identidade cultural, exílio, e principalmente, a inscrição dos modos literários africanos de fazer literatura.  

Os estudos das literaturas produzidas em África impõem-se como um verdadeiro canto de sirena que desperta as nossas ancestrais raízes, convocando-nos à comunhão com um mundo antigo que se apresenta, para nós, com uma epifania em que se celebra o encontro tantas vezes adiado, mas nem por isso menos desejado. (DUARTE: 2004, p.7)  

A escrita literária africana de expressão portuguesa se coloca em uma situação sui generis pelo fato de nos fazer refletir sobre assuntos que se voltam para uma questão místico-cultural que migra do plano da realidade para o plano da ficcionalidade por conta de uma percepção ideológica pagã de se ver o mundo africano. Uma prática de escrita que revela um re-escritura do que foi aprendido por meio da prática da oralidade. A presença dos mitos e ritos, como temáticas recorrentes nas narrativas africanas, legitimam as lições deixadas pelos povos mais velhos que voltam ao contexto atual, assumindo a condição de ancestrais ou de defuntos protetores. Vamos observar melhor a relação com a ancestralidade quando analisarmos o poema “Mulher que ri à vida e à morte”.

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu a 20 de Setembro de 1926, em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique. Apesar da publicação da coletânea “Sangue Negro” em 1998 pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), seus versos circulam em vários meios: jornais, revistas especializadas e sites da internet.

Poetisa que, numa espécie de postura predestinada, desembaraçando-se das normas tradicionais europeias, de 1949 a 1952 escreve dezenas de poemas, estando muitos deles dispersos pela imprensa moçambicana e estrangeira.

Com apenas 22 anos de idade, surgiu na senda literária moçambicana num impulso encantador, gritando o seu verbo impetuoso, objetivo e generoso, vincado (bem fundo) na alma do seu povo, da sua cultura, da sua consciência social, revelando um talento invulgar e uma coragem impressionante.

Como afirma Craveirinha (2000, p.100), podemos sentir o hálito ardente da fogueira, quando lemos os versos desta escritora, o que mostra em sua literatura a evidência da moçambicanidade, ou seja, a valorização da sua nação em seus poemas.

Ler Noêmia de Sousa é ler Moçambique. Como mestiça, pois seu pai era originário de uma família luso-afro-goesa e sua mãe afro-germânica, revela ser marcada por uma profunda experiência, em grande parte por via dessa mesma circunstância de ser mestiça.

A sua poesia, desde logo, se mostrou “cheia” da “certeza radiosa” de uma esperança, a esperança dos humilhados, que é sempre a da sua libertação. Toda a sua produção é marcada pela presença constante das raízes profundamente africanas, abrindo os caminhos da exaltação da “Mãe-África”, da glorificação dos valores africanos, do protesto e da denúncia.

“Eu quero conhecer-te melhor, Minha África profunda e imortal...  Quero descobrir-te para além Do mero estafado azul  Do teu céu transparente e tropical,  para além dos lugares comuns...”  (SOUSA, 1988 , p.145)

Poesia de forte impacto social, acusatória, a sua linguagem recorre estilisticamente à ressonância verbal, ao encadeamento de significantes sonoros ásperos, à utilização de palavras que transportam o "grito inchado" de esperança.

Noémia de Sousa, como autêntica pioneira da Literatura Moçambicana (como assim sempre foi considerada) preconiza - no seu percurso literário - a revolução como único meio de modificar as estruturas sociais que assolam a terra moçambicana. Sempre, e desde muito cedo, pretendeu que o seu povo avançasse uno, em coletivo, em direção a um futuro que alterasse os eixos em que se fundamentava a atitude do homem, mas sem nunca fazer a apologia da desumanização. Afirma-se, acima de tudo, africana e aposta fortemente na divulgação dos valores culturais moçambicanos.  

Sávio Roberto Fonseca de Freitas

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