PASSAM cinco anos após a morte de Malangatana Valente Ngwenya, um dos pilares das artes em Moçambique. A herança deste multifacetado personagem está espalhada pelo país e pelo mundo. O seu corpo foi recebido pela terra que o viu nascer, Matalana, mas os seus sonhos não morreram com ele. Estão vivos no íntimo dos seus familiares e precisam de apoios para se materializar.

Estivemos em Matalana, semana passada, e vimos uma terra a clamar por água. A terra era ornamentada por folhas secas e estrume de animais. O cruzamento de cheiros e a pureza do oxigénio brindavam o nosso olfacto. Insectos circulavam, e quem não conhece a natureza ficaria horrorizado com os movimentos. O cântico dos pássaros intercalava com agitação dos movimentos da folhagem das árvores, produzindo um som único e particular. O silêncio da zona é característico. O número de árvores é maior que o de pessoas. A nossa Reportagem viu poucos jovens, mais mulheres idosas e crianças. E sentiu que aquele coquetel de características era uma espécie de soneto com uma quadra de um terceto a menos. E essa quadra ou terceto é Malangatana.

No meio da vegetação, o mármore da campa de Malangatana destaca-se. Antes de visitarmos a sua casa, trocámos, em silêncio, algumas palavras com o artista plástico. Depois de dezenas de passos, visualizámos a casa do multifacetado artista. As paredes ainda guardam a sua arte. O arquitecto José Forjaz projectou a casa e o ateliê, e Malangatana deu um traço artístico aos edifícios. Da casa, é possível visualizar um mar de árvores ordenadas pela força da natureza.

Responsabilidade é a palavra que segue o filho mais velho do artista, Mutxhini. Sua tarefa e da família é manter os sonhos de Malangatana vivos. Mas a obrigação não é só deles, pois as obras do mestre são para a sociedade.

A Fundação Malangatana Ngwenya é um dos sonhos do artista plástico. Em Julho de 2006 foi lançada a primeira pedra, e hoje já é uma realidade. Segundo Mutxhini, falta um edifício próprio e apoios para que as actividades decorram sem sobressaltos. “Estamos instalados em edifícios de terceiros, seria mais confortável para nós se a Fundação tivesse instalações próprias”, declarou.

Além desse obstáculo, a família debate-se com insuficiência de recursos materiais e financeiros para dar vida aos projectos de Malangatana. “Precisamos de recursos humanos, pessoas para trabalhar na Fundação, para a preservação das obras e em outras actividades. Dinheiro para pagar as pessoas e dar andamento às actividades”.

Na sua última entrevista publicada a título póstumo pelo semanário “Domingo”, Malangatana explica que a sua fundação foi criada para apoiar a Antropologia, Psicologia, investigação e criar uma pequena escola de artes em Matalana.

A casa do mestre ainda não está totalmente concluída, falta a instalação de energia e sistema de canalização. O primogénito do mestre avançou que a pretensão da família é transformar a residência em museu.  

O Centro Cultural de Matalana, de que Malangatana é co-fundador, acolhe vários eventos culturais. Deles, podemos destacar o Festival Marrabenta, que anualmente passa por esse local. No entanto, o centro não está em pleno funcionamento. De acordo com Mutxhini, deveriam ser integradas mais actividades para que o local sirva na plenitude para o engrandecimento das artes naquela localidade e no país.

“Pretendíamos formar crianças. Até o fizemos, mas não de forma regular como pretendíamos. As pessoas que executam as actividades vivem longe de Matalana e a deslocação para aqui acarreta custos, e as actividades também”.

Mutxhini constata que existe muita vontade de ajudar. “Mas faltam acções concretas por parte de instituições, inclusive do Ministério da Cultura e Turismo. Muitas das obras de Malangatana precisam ser restauradas. Precisamos de meios para catalogar e preservar a herança de Malangatana”.

A família já denunciou vários casos de falsificação, plágio, roubos e uso indevido das obras do artista plástico. “Não recebemos uma resposta, uma reacção, contundente por parte das instituições responsáveis, como a Procuradoria-Geral da Republica”, rematou.

UM ARTISTA MULTIFACETADO

“O Crocodilo de Matalana”, como foi carinhosamente tratado, manifestou a sua arte em diversas formas, através do desenho, da pintura, da escultura, cerâmica, murais, poesia, dança e música.

Além de fazer, o Mestre cultivou o gosto pelas artes em outros. Na sua residência no bairro do Aeroporto, cidade de Maputo, recebia vários aspirantes a artistas. Também executou actividades ligadas ao ensino, por 11 anos, na Escolinha Vamos Brincar, criada por Ivone Mahumana.

“Para mim, o importante não é ensinar a pintar ou desenhar, mas sim fazer com que a pessoa se assuma e tenha ideias próprias sobre o que vai fazer com que se sinta segura.”, dizia em vida o artista.  

Noel Langa fez saber, numa reportagem publicada neste Jornal, um dia após a morte de Malangatana, que o Mestre era como um pai e amigo. “Graças a ele, tornei-me no artista plástico que sou. Conheci-o em 1955, na então cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi o meu mestre e conselheiro, não havia nada que fizesse sem o consultar”, revelou.

Passam cinco anos. E a obra de Malangatana preenche galerias de Moçambique e do mundo. O seu trajecto artístico é exemplar para muitos, inspiração para as futuras gerações. O legado deste pilar das artes nacionais mantém-se na nossa consciência. Os seus sonhos, projectos correm risco. É nosso papel, como sociedade, mantê-los acesos. 

PERCURSO ÚNICO

MALANGATANA nasceu a 6 de Junho de 1936 em Matalana. Com 11 anos de idade, viu-se na contingência de ser aprendiz de “nyamussoro” (médico tradicional) para ajudar a sua mãe doente. Muda-se para Lourenço Marques – actual Maputo – à procura de trabalho. Foi doméstico, apanhador de bolas num clube de ténis, local onde se relacionou com indivíduos ligados às artes. Trabalhava durante o dia e estudava à noite.

Augusto Cabral, sócio e frequentador do clube de ténis, ofereceu-lhe material de pintura, ajudando-o também a vender os primeiros trabalhos.

Em 1958 ingressou no Núcleo de Artes, onde conhece e mantém contacto com outros nomes da área. Aí, o arquitecto português Amâncio de Alpoim de Miranda Guedes, ou simplesmente Pancho Guedes, encontra-o e leva-o para a sua garagem, que passa a ser o ateliê do pintor – tornado-se naquela altura o único pintor de Moçambique, vivendo só da pintura - porque o quadro que Pancho lhe comprava por mês lhe dava mais do que o seu vencimento como empregado indígena.

As suas primeiras aparições em público dão-se em 1959, quando participa em três exposições colectivas em Lourenço Marques, actual Maputo. Em 1961 realiza a sua primeira individual e participa numa colectiva na Cidade do Cabo, na África do Sul.

A partir dessa data, as suas participações em colectivas e a realização de individuais sucedem-se por várias partes do mundo. África do Sul, Alemanha, Angola, Áustria, Bulgária, Checoslováquia, Chile, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Holanda, Índia, Itália, Nigéria, Noruega, Paquistão, Portugal, Zimbabwe, entre outros países, tiveram a oportunidade de apreciar a sua obra.

Nos anos 1960 publica alguns poemas até ser indiciado como membro Frelimo. É preso, mas acaba absolvido. Volta a ser detido por motivos políticos, em 1971, numa altura em que assegurara uma bolsa da Fundação Gulbenkian para estudar cerâmica.

Participa em diversas acções de alfabetização, tornando-se um dos fundadores do Movimento Moçambicano para a Paz. Fez parte dos Artistas do Mundo contra o Apartheid, movimento de segregação racial que prevaleceu na África do Sul até 1994.

Ao longo da sua vida, Malangatana ganhou diversos prémios, dos quais se destacam a Medalha Nachingwea, pela contribuição para a cultura moçambicana, e investidura, a 16 de Fevereiro de 1995, como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 1997, a UNESCO nomeou-o Artista pela Paz e recebeu o prémio Príncipe Claus.

Recebeu o título de Doutor Honores Causa pela Universidade de Évora em 2010 e foi condecorado pelo governo francês como Comendador das Artes e Letras. Malangatana foi também um dos poucos estrangeiros a ser nomeado membro honorário da Academia de Artes da República Democrática Alemã. Morre a 5 de Janeiro de 2011, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, Portugal.

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