CERCA de sete milhões de cidadãos malawianos estão convocados para voltarem, na próxima terça-feira, 21, às urnas a fim de votarem em eleições presidenciais, legislativas e locais.

Os dados divulgados apontam que um total de 10 candidatos disputa a chefia do Estado, num processo marcado pela retirada da antiga Presidente da República, Joyce Banda, que depois de vários anos de asilo regressou ao país com algum interesse de se candidatar, um interesse depois desfeito para apoiar Lazarus Chakwera.

Entre os restantes concorrentes à “cadeira mais quente” do Estado malawiano volta a pontificar o nome de Atupele Muluzi, filho do também antigo Presidente da República Bakili Muluzi.

Em 2015 tive o privilégio, enviado por este Jornal, de fazer a cobertura da eleição que devolveu o clã Mutharika ao poder, neste caso Peter, anos depois do seu falecido irmão, Bingu.

Peter Mutharika ocupava assim um trono deixado pela primeira mulher nessa posição, Joyce Banda, afastada sob acusação de envolvimento em actos de corrupção, conhecidos como “Cashgate”.

Um parênteses, no entanto, para deixar escrito que, fora essa questão do “Cashgate”, muitos malawianos eram na altura citados a defender que não podiam continuar a ser dirigidos por uma mulher! Que o lugar da mulher é na cozinha!   

Rebuscando, pois, alguns momentos que vivi na altura em Blantyre, encontrei alguns títulos de jornais locais como estes: “Caos e paciência”, “Eleitores zangados criam pânico”, “Postos de votação: tão longe, tão perto”, “Paciência e impaciência” e “Alguns tiros eleitorais”, tudo isto para ilustrar o que, consensualmente, mereceu a descrição de caos no dia da votação, 20 de Maio de 2015.

Nesse dia a desorganização foi tal que, de facto, alguns eleitores, jovens, principalmente, enveredaram pelo vandalismo para mostrarem o seu desagrado, rasgando e queimando material, com a Polícia a ter que intervir. Depois foram os adiamentos que levaram a que votação acontecesse em três dias.

Guardo igualmente na memória o facto de alguns prisioneiros terem sido  mobilizados no dia anterior à votação para ajudarem o pessoal da Comissão Eleitoral (MEC) a carregar os materiais para os postos de votação.

Contudo, o que me terá impressionado, realmente, foi um panfleto de propaganda que dizia taxativamente o seguinte: Respect yourself, please: vote UDF! (Respeite-se a si próprio, por favor: vote UDF!)

Achei interessante esta forma de sensibilizar as pessoas a votar num partido numa de que se não o fizeres estarás a faltar ao respeito a ti próprio!

Infelizmente, escrevo estas linhas enquanto me chegam informações veiculadas a partir do Malawi reportando actos de violência pré-eleitoral que já causaram feridos.

Caso, então, para voltarmos a falar dos tais “Tiros eleitorais”.

Sinto-me, por conseguinte, impelido a citar aquele mesmo panfleto para sugerir ao cidadão malawiano que se respeita a si próprio não enveredando pela violência que não vai resolver os seus problemas.

Ainda estamos na pré-votação. Depois virão a votação e a divulgação de resultados, altura em que os ânimos vão certamente voltar a subir.

Que o cidadão malawiano se respeite a si próprio votando na paz, na ordem e na tranquilidade porque só isso abrirá caminho para o desenvolvimento e prosperidade.

Eliseu Bento

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O NOSSO país só vai ficar bem no dia em que todos nós pararmos e pensarmos no desenvolvimento colectivo. Enquanto isso não acontecer, podemos ter a certeza que depois de morrermos ninguém se lembrará de que alguma vez passámos deste lugar.  Será como se nunca tivéssemos existido, por causa de todas as desfeitas que andamos a tecer em benefício dos nossos umbigos. Tornando-nos por isso mesmo pessoas mesquinhas.

 

 

A grandeza de um homem está na honestidade. No respeito pelo bem alheio, ou por aquilo que pertence a todos. Podemos fazer tudo ao mais alto nível, mas se isso for para escamotear as pequenas coisas pelas quais enveredamos na “calada da noite”, então estaremos a manchar a camisa branca que eventualmente trazemos no nosso corpo.

 

 

Ser dirigente público é um privilégio de poucos, que devem aproveitar para brilhar, trabalhando com afinco e  sacrifício para a maioria. Aliás, temos exemplos pelo mundo fora de deputados que andam de “chapa” ou de bicicleta, mas que se regozijam por estarem a desenvolver as suas actividades em prol do povo. Não se movem pela luxúria, nem pelo esbanjamento de recursos públicos.

 

 

Lembro-me agora que Nelson Mandela quando tomou o poder, em 1994, ordenou que baixassem o seu salário e dos seus ministros. Isso é o exemplo de que não pode ser o bem-estar individual o objectivo que nos leva a lutar pelos cargos políticos. Antes pelo contrário, o foco deve ser o povo. Esse povo que nos levou ao poder.

 

 

Infelizmente, no nosso país temos casos inúmeros em que os nossos compatriotas que conseguem chegar “lá”, por vezes à custa de jogos sujos, têm como foco o luxo e a abastança. Mergulham no pote de mel de tal sorte que se esquecem do povo que lhes suporta. Amealham ao máximo pisando as barrigas dos pobres trabalhadores, que assistem gritando sem poder fazer nada.

 

 

Salvador Maurício, um dos fundadores do grupo musical Eyuphuru, já cantava com revolta o tema “Os ratos roeram tudo”, referindo-se a alguns dirigentes que se refastelavam sem se lembrar que foram colocados no poder para resolver os problemas do povo. Infelizmente, isso ainda acontece muito. Mas eu, particularmente, alimento a esperança de que um dia as coisas vão mudar. E se isso acontecer, o povo vai agradecer. Vai esquecer tudo e olhar para frente. É tempo de mudarmos a imagem do nosso país. E essa tarefa cabe a todos nós.

 

 

A luta continua!

 

 

Alfredo Macaringue

 

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Retalhos e Farrapos:  Ontem foi o meu aniversário  (Hélio Nguane)

 

AINDA tem memória do dia que passou. Em casa, com calma, senhor Glória abre a caixa, canta parabéns para si mesmo. E adormece.

Ontem

“Acordei para alguns aspectos da minha vida, tenho de mudar. Tenho de mudar, tenho de mudar, tenho de mudar, tenho de mudar...”, repetia senhor Glória, enquanto sentia a brisa das 7.00 horas.

Organizou os papéis, cartolinas e caixas que usa como cama. Dobrou mais de quatro vezes e arquivou num canto escondido do muro que lhe protege contra os ventos que sopram a Sul. À leste do que vai fazer, colocou-se a andar.

Caminhou por aproximadamente uma hora, sem rumo. Tropeçou por duas ocasiões, pois o álcool que ontem consumiu ainda tem o mesmo efeito, a mesma força, a mesma raiva, que torna os caminhos tortos e o chão irregular.

Pausou, meteu as mãos nos calções rotos e nada encontrou, se não areia. Observou o sólido e uma certeza solidificou-se. Tentou lutar contra, mas os gritos do estômago obrigaram-lhe a tomar uma decisão: meter algo na boca para enganar a fome.

Come a areia do bolso, agacha e leva mais areia, engole sem sentir o sabor, mas que sabor tem a terra? O odor dos mortos, a saliva dos enjoados, os detritos dos animais e a impureza da morte.

Anda por mais cinco minutos. Pausa, a fome não se estanca, permanece, não quer calar, são necessários mais argumentos para vencer este animal pujante que morde o interior do ventre do senhor glória.

“Vai! Vai, engole o orgulho? Mate este sentimento e faz nascer coragem. Vai, Glória?”, dizia enquanto se aproxima de um contentor.

Procurar por fora não bastava, então, entra, procura por joias, pérolas entre o lixo. As moscas por vezes pairam e atrapalham a sua concentração, mas o homem tem um propósito, foco na sua missão.

Alimenta a coragem, continua firme na incursão. Mete alguns sólidos na boca, mata a fome, agora quer uma sobremesa, algo especial para complementar a sua procura. Encontra uma caixa, abre e vê alguns retalhos de bolo e duas fatias completas. Agradece a falta de apetite de uns e celebra a sobremesa.

Limpa o dedo indicador nos calções sujos e começa a lamber o creme que cobre o papelão. Come uma fatia com gosto, pega na grande caixa e leva para casa. No caminho recebe alguns líquidos alcoólicos, fica tonto, embriaga-se, mas a caixa mantém-se firme.

Recolhe mais lixo, vende algumas latas de cerveja e refrigerantes e ganha alguns trocados, que reforçam a dose alcoólicas que vai consumir.

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Timbilando: Menores como “esposas” é aceitar a pedofilia dentro das comunidades (Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. Normal 0 false false false EN-US X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Table Normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-priority:99; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0in 5.4pt 0in 5.4pt; mso-para-margin:0in; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Calibri","sans-serif"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}

 

 

OS casos de pais que interrompem os estudos das suas filhas menores para entregá-las como esposas a homens mais velhos continuam, apesar do avolumar das condenações de tais actos pela sociedade mais esclarecida. Em algumas províncias até funcionam organizações não-governamentais que trabalham nessas situações, resgatando meninas e devolvendo-as às casas dos progenitores, onde isso é possível, e reintegrando-as também na escola, onde é o seu lugar para estar e formarem-se.

Damos força a essas organizações, por estarem a fazer o que é certo. Por erguerem a sua voz, nestes casos, voz que precisa de ser engrossada por todos, condenando, veementemente, todos os casos, seja onde for, em qualquer canto do país.

Vem este intróito por mais uma intervenção duma destas organizações que sabem que lugar da criança é na escola, primeiro, e em casa dos pais, que cuidam dela com amor, mas que os progenitores esquecem disso, e metem os menores em uniões prematuras.

Essa organização conseguiu resgatar uma menor de nove anos de idade, entregue pelo pai a um adulto como esposa como forma de pagar uma dívida por consumo de bebida alcoólica.

Quando a organização soube desta história começou uma luta na justiça para desfazer aquela união. Assim conseguiu ter de volta a menor e conseguiu colocá-la também de novo na escola, onde retomou os seus estudos, depois desta situação traumática para a criança.

Estes casos têm que começar a ser vistos como intoleráveis pela própria comunidade, que não pode continuar a alhear-se deles, qualquer que seja a situação envolvendo crianças.

Este, por exemplo, acontecido em Sussundenga, Manica, foi pior, porque o pai vendeu a filha menor por uns copos de uma bebida alcoólica qualquer, que não tinha conseguido pagar na altura do consumo. Mas tantos outros casos ocorrem, como levar a criança à casa do curandeiro por dívida com este. Naquela província há casos de religiosos que combinam com os pais a entrega de crianças de sexo feminino quando estas nascem como suas futuras esposas. Isto é, quando nascem já estão comprometidas e nem chegam sequer a ser inscritas em escolas para estudarem. Levam-nas logo em tenra idade. Os pais aceitam estas situações, com uma passividade de espantar, que podem ser descritas como “do outro mundo”.

Sabemos que esta organização ainda no presente ano já resgatou outras quatro raparigas também em uniões desta natureza, que voltaram depois à escola. Também já salvou desta “escravatura” sexual mais de 250 raparigas.

Normalmente as crianças são entregues a homens com idades quatro ou cinco vezes maiores do que elas. E estes senhores tornam-se assim pedófilos, por relacionarem-se com menores e são assim duplamente culpados. Os pais também são culpados por passarem a responsabilidade das menores a esta gente, despreocupados sobre o que vai acontecer com elas.

É tempo de os pais começarem a ver estas uniões prematuras em que submetem as suas filhas como “indecentes” e que violam os direitos das crianças, de estudar e de se tornarem adultos livres para escolher também livremente o seu futuro.

 

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ACENTO TÓNICO:  Confidências da lixeira de Malhampsne (Concl.)  (Júlio Manjate-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

RECONHECI o meu amigo da lixeira de Malhampsne pela camiseta que vestia. Na verdade, primeiro reconheci, de longe, aquela camiseta que durante alguns meses foi minha, e que só deixei de usar porque a achava antiga: Tem estampadas escritas relacionadas com o 1.º de Maio de 2008, publicitando uma empresa que se tornou irrelevante para a economia.

De facto, só no corpo daquele jovem é que descobri que, além de bonita, aquela camiseta não era tão velha assim, pois funcionava como uma espécie de “facto histórico”.

Pessoalmente, sempre incomodou-me ver compatriotas feitos “banners” ou “out doors” ambulantes, vestindo roupas estampadas com figuras ou discursos cujo significado por vezes desconhecem! E não preciso de entrar em detalhes para elucidar sobre isto… Mas voltemos ao que interessa:

desta vez decidi descer da viatura para tentar me aproximar mais daquela malta…  De facto, aquele é um ambiente permanentemente tenso, com índices muito baixos de tolerância. Sempre pensei que uma palavra mal pronunciada ou algum gesto que revele alguma forma de desprezo para com aquela comunidade, pode merecer uma retaliação drástica.

Enquanto uns se preocupavam em recolher os plásticos da bagageira, reparei que o meu amigo da camiseta não parava de tentar “dar nas vistas”, ora puxando a camiseta para baixo pelos lados, à frente e à trás, ora passando a mão para barriga abaixo, como que a sacudir alguma coisa.

- Fica-te muito bem essa camiseta – disse-lhe em meio a um sorriso tímido. Não reagiu ao meu comentário mas logo a seguir “veio com tudo” sobre mim:

- Mais velho continua a ser matrecado? Está claro que continua! Já escreveste lá no teu Jornal que eu quero reunir como todos utentes desta lixeira? – questionou.

- Tenho estado a escrever textos a contar sobre estas nossas conversas. Só não sei se as pessoas me levam a sério quando digo que tu queres falar com os matolenses que usam a lixeira … - tentei explicar-me.

- Pois é! Já imaginava que não me levariam a sério! É por isso que continuam a trazer para aqui coisas que não são lixo. Sabes? A gente olha para vocês e julga que são exemplo, mas nada! Se soubesses o que vem nos plásticos que esses bosses todos trazem para aqui, cairias de costas… - disse apontando para o horizonte povoado de fumaça… Sem esperar pela minha reacção prosseguiu:

- … Garrafas! Muitas garrafas! Agora é raro encontrares lixo de verdade! Garrafa não é lixo, é dinheiro! Ainda por cima num país que não fabrica vidro… O verdadeiro lixo fica nas casas das pessoas porque o que trazem para aqui, são coisas que eles só já não querem usar, mas que nós recolhemos e reaproveitamos. É por isso que há cada vez mais gente a vir trabalhar aqui. Lixo mesmo, é aquele do hospital mas o que vem nesses carros todos que entram e saem daqui a todos o momento, não é lixo… - disse.

- Mas é uma vida difícil, esta vossa… - lá tentei alimentar a conversa.

- Mais difícil é a vossa, terem que vir todos os dias trazer o vosso lixo… Para nós a vida é mesmo assim. Não tem lado “B”.

Entrei no carro e fechei a porta, mas mantive o vidro aberto. Deviam ser às dezenas as moscas no interior. Fingi que aquilo já não me incomodava. Tinha medo de ser desagradável com aquele “comando”.

- Ok amigo, vou andando. Ainda bem que gostaste da camiseta… Até a próxima! – disse-lhe tentando gracejar.

- … Já vi que nenhuma reunião vai trazer-vos à linha. O melhor é deixar-vos continuar a viver como vivem. Mas pelo menos ajude-nos a pedir as pessoas para separar o lixo: vidro, papel e plástico. Sobre o resto, esperem por mim porque nas próximas eleições eu também vou concorrer. Tenho certeza que faria melhor. Pelo menos nesta coisa de lixo! – disse.

Sorri levemente, acenei para o jovem e arranquei a viatura. Até agora estou a pensar se ele estava mesmo a falar a sério…

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