Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

A Lupa: O momento de colher o que cada um plantou - Lázaro Manhiça

 

Os exames no Ensino Médio Geral, 10ª e 12ª, iniciam próxima semana. Para os alunos e não só, trata-se de um momento de colher o que plantaram ao longo do ano lectivo. Os que se aplicaram, investindo o seu tempo nesta empreitada ao longo do ano, naturalmente que vão obter bons frutos, que é passar de classe, e os que não o tiverem feito vão colher frutos podres, ou seja, vão reprovar.

Não quero, entretanto, ser reducionista, referir-me apenas aos que se aplicaram e aos que não se aplicaram, pois há um terceiro grupo- aqueles que têm sido vítimas de atitudes de alguns professores de má-fé que parece não terem muito tempo para os seus alunos, privilegiando a distribuição de fichas. Isto acontece sobretudo em disciplinas como Matemática e Física. São casos que têm sido reportados pelos próprios alunos aos seus pais ou e por estes, mas ainda sem solução à vista, em muitos casos. Toda a gente sabe e muito bem do que estou a aqui a falar. Não é um assunto novo e que, por isso, a esta altura do ano, penso ser oportuno tratá-lo. Nalgumas situações, quando os pais levantam este assunto nos encontros com os directores de turma, parece haver até uma tendência de defesa da classe, fechando-se. Como resultado, os alunos nunca têm boas notas.

Compreendo o paradigma de que o aluno é que tem que produzir o conhecimento, cabendo ao professor o papel orientador, mas não me parece ser bem isso que este modelo preconiza. Os alunos precisam de explicação, sim, e em tempo útil, pois disciplinas como as que me referi antes têm as suas especificidades. Há matérias que se o aluno não entende hoje, terá problemas de entender outras a serem dadas mais adiante.

Por estas alturas do ano, em algumas escolas realiza-se reuniões de pais e encarregados de educação para a divulgação dos calendários dos exames e as regras a observar pelos educandos durante o período das avaliações.

Um dos recados que é dado aos alunos é que estes devem se preparar muito bem para não caírem na tentação de se envolver em esquemas fraudulentos, como a compra de exames, como tem acontecido.

Há um ano participei num encontro em que a mensagem principal foi a acima referida. Porém, este recado deveria ser mais dirigido também aos encarregados de educação, uma vez que o dinheiro pago, por hipótese, por um aluno da 10ª ou da 12ª classe, às redes de venda de exame, é disponibilizado pelos pais e/ou encarregados de educação, que provavelmente nem sequer fazem a mínima ideia do destino dos valores que desembolsam a esta altura do ano a pedido dos seus educandos. Por ai, uma chamada de atenção a estes para estarem mais atentos. Falo particularmente deste nível e tipo de ensino porque é nele em que se verifica cenários de fraude.

O que espero também que aconteça é que seja feito um trabalho interno de sensibilização aos funcionários e/ou até alguns professores para não se envolverem também nestes esquemas de venda de exames que, às vezes, têm origem nas Direcções Provinciais de Educação.

Acredito que não há nenhum aluno que pode tomar iniciativa de contactar algum funcionário ou professor de uma determinada escola para vendê-lo o exame. O contrário, sim.

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CONSONANCIAS - Quatrocentos mil por um molho de hortaliças: Sauzande Jeque

 

NÃO sei se é por ter aberto a minha conta bancária há mais de duas décadas. Esqueci-me completamente das burocracias que os bancos comerciais exigem aos clientes, quando estes pretendem abrir a conta pela primeira vez. Achei que ultimamente, as exigências para abertura duma conta, eram um pouco exageradas. Os abanões inesperados do sistema levaram a que o processo levasse quase uma semana para ser concluído. Mas vamos ao que interessa.

É apenas uma recordação da época em que a nossa empresa ferroviária, no âmbito do seu redimensionamento, decidiu indemnizar um grande número dos seus trabalhadores.

Um dos beneficiários foi um compatriota que ao longo das quatro décadas de serviço, nunca tivera uma conta bancária. Teve que receber o valor em numerário. De entre os filhos que tinha, havia receios em relação ao mais novo que, já era latagão e, apesar dos seus vinte anos, ainda se achava menor de idade e não queria trabalhar. Muito cedo fugira da escola sem concluir o ensino primário, e passava a vida cometendo pequenos crimes, com os quais alimentava os vícios, cujo número ele próprio desconhecia.

No dia da indemnização, o pai só se lembrava do filho delinquente, que gostava de vasculhar os bolsos do pai e carteiras da mãe. Daquela vez, o velho não queria correr o risco de ver toda aquela fortuna nas mãos do filho malandrão. Percorreu todos os cantos da casa e viu que não havia esconderijo algum para guardar tanto dinheiro. De facto, a casota era pequena demais para albergar os quatrocentos mil meticais. Permaneceu mais algum tempo esperando que a esposa voltasse da machamba. Para fazer tempo, decidiu dar uma voltinha pelo quarteirão, ou tomar uns copitos com um grupo de amigos.

Mas onde iria esconder o dinheiro que trazia, se em casa nunca teve cofre nem mala bordada?! Foi quando tomou a decisão de ir à cozinha. Na pequena despensa, o homem descobriu um cesto velho feito de bambu, quase cheio de farelo. Pareceu-lhe a única alternativa. Embrulhando as notas num saco plástico e colocando-as no fundo do cesto, ninguém desconfiaria. Feito isso, ausentou-se para se encontrar com os amigos, fazendo tempo até que a mulher regressasse.

Na conversa puxa conversa, várias horas foram passando. E quando se lembrou de voltar à casa, os líquidos que tomara já faziam os seus efeitos colaterais. Todo empolgado, abraçou a esposa, coisa que não fazia havia anos, e começou logo a anunciar que a famigerada pobreza absoluta, tinha chegado ao fim. “Minha querida mulher, o teu sofrimento acabou. O nosso sofrimento, aqui em casa, acabou!”. 

A mulher, numa mistura de alegria e incredulidade, quis saber do que se tratava. “É a minha, ou a nossa, indemnização mulher. Já estamos ricos. Agora, com toda a calma, sem pressa, vamos planificar juntos o que iremos fazer com este dinheiro. São quatrocentos mil meticais.”

A mulher cheia de entusiasmo, comentou: “Se eu soubesse que vinhas cedo, eu ficaria aqui a tua espera para que fossemos juntos ao mercado comprar caril. Quando voltei da machamba e notei que não tínhamos nada aqui em casa, tive que me socorrer de um pouco de farelo que estava naquele cesto velho, vendi por vinte meticais para poder comprar um molho de hortaliça que vamos comer agora.”

O marido incrédulo, ouvindo aquela revelação inocentíssima da mulher, olhou para o cesto vazio, onde tinha escondido todo o dinheiro da indemnização, sentiu-se totalmente destruído, incapaz de suportar o embate da notícia dolorosa. Como se fosse uma bomba atómica a explodir nos seus ouvidos, o velho operário viu tudo a girar à sua volta numa velocidade supersónica! A cabeça estava em estilhaços. Era o início de um fulminante ataque cardíaco e o final de toda uma vida entregue ao trabalho duro, cuja remuneração merecida acabava de ser perdida sem qualquer hipótese de recuperação. Numa fracção de segundos, o homem, desprovido de todo o equilíbrio mental e físico, tombou pesadamente no soalho da cozinha. Os quatrocentos mil meticais tinham sido trocados por um molho de hortaliça!

Forte abraço

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PERCEPÇÕES: Cortar o mal pela raiz - Salomão Muiambo - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

A LIÇÃO “cortar o mal pela raiz” ensina-nos que devemos eliminar qualquer que seja o problema antes que ele piore. E para eliminá-lo é preciso ir à raiz, ou seja, à essência desse mesmo problema, tal como fazemos quando pretendemos, por exemplo, aniquilar uma árvore.

Só que, infelizmente, não é o que acontece entre nós. Quando identificamos um problema, ao invés de eliminá-lo a partir da sua essência, vamos às folhas e aos galhos e deixamos a raiz. Mais tarde, tomamos a consciência de que tal mal prevalece e, talvez, com raízes muito profundas tornando-se difícil eliminá-lo, mesmo usando catanas, machados e toda a força de que dispomos.

Vem o longo e complicado introito a propósito de um mal, ainda em embrião, que germina nas zonas adjacentes à recém inaugurada Ponte Maputo-Katembe e ao longo da estrada que liga Katembe à Ponta de Ouro e Bela Vista-Boane: a ocupação destes espaços por vendedores informais. Se nada se fizer para “cortar o mal pela raiz”, não tardará o surgimento de barracas para a venda de “comes e bebes” e bebidas alcoólicas, o que, vergonhosamente, tiraria a beleza arquitectónica da majestosa Ponte Maputo-Katembe e estradas adjacentes e, como se tal não bastasse, colocaria em permanente estado de insegurança os principais utentes desta infra-estrutura socioeconómica e turística.

Ao longo dos primeiros dias da abertura da via, vimos actos de arrepiar os cabelos: indivíduos desfilando ao longo da ponte, umas comendo e bebendo, outras dançando ao som de música diversa e, muitas outras, fazendo fotografias, mesmo sabendo-se de antemão que é vedada a circulação de peões ao longo da obra. Os mais atrevidos, depois de consumirem tanto álcool, livravam-se de certas necessidades biológicas em qualquer lugar, num gesto atentatório à beleza da ponte e, se calhar, mais do que isso, à saúde pública.

Ora, inspirei-me na lição “cortar o mal pela raiz” para chamar atenção aos “donos” da estrada para a necessidade de não deixarem o mal enraizar-se porque, se tal acontecer, nem com machadadas, nem com catanadas conseguirão exterminá-lo. Os vendedores informais que procuram tomar de assalto as zonas adjacentes à ponte devem ser afastados, nem que isso implique o destacamento permanente de uma unidade policial canina para evitar, mais tarde, o que aconteceu, por exemplo, quando se construía a ponte em que os vendedores informais do “Nwankakana” recusavam-se a abandonar a zona pedindo indemnizações. Aliás, uma recusa que, acredito, acabou tendo a sua influência nos prazos da conclusão e consequente entrega da infra-estrutura.

Aos demais prevaricadores, refiro-me concretamente aos que violam as regras estabelecidas, abrigando-se debaixo da ponte, urinando ou atravessando-a de uma margem para a outra, baixando os níveis de segurança no que tange à circulação rodoviária, esses devem ser chamados à razão através de medidas punitivas.

 

Repito que se estes males não forem cortados pela raiz corremos o risco de a Ponte Maputo-Katembe e a reserva das estradas para a Ponta de Ouro, Bela Vista e Boane, inseridas no mesmo projecto, virarem corredor da morte, com prejuízos incalculáveis daí decorrentes.

 

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De vez em quando: “Diogo” da Katembe - Alfredo Macaringue

 

HÁ quem diga que o “Diogo” faz parte do passado. Que foi esmagado pelas rodas do tempo. Isso é mentira. “Diogo” é um vulto presente, mesmo estando hoje limitado nos seus movimentos por conta de uma doença que pode ser de origem cardiovascular. É uma figura cuja estatura cresceu há anos à dimensão da própria Katembe.

No passado sábado estava eu sentado em casa a assistir a todas as movimentações inerentes à inauguração da Ponte Maputo-Katembe, muito longe de pensar que nas imagens transmitidas pela televisão iria ser focada uma figura pertencente à história. À história da Katembe e, por via disso, de Maputo também. Porque em tempos, de Maputo faziam-se travessias intermináveis com o propósito de ir degustar de um bom camarão no Restaurante Diogo.

“Diogo” estava ali sentado entre várias personalidades, não sei bem se numa cadeira de rodas ou numa normal, já que na perspectiva do “câmera-man” só podíamos vê-lo dos ombros para cima. Mas via-se perfeitamente que era o “Diogo”. E imediatamente renovaram-se as memórias do camarão e da cerveja, consumidos à fartura no lugar emblemático da Katembe. Naquele tempo bom.

Para mim, Katembe tem que partir daqui: do “Diogo”. É a partir do “Diogo” que vou à busca do antes e do depois. A ponte é de agora. Agora que este homem já não consegue suster-se sobre as suas pernas. Os repórteres deviam ter-se aproximado dele, mas não o fizeram. Não para lhe ouvir falar das possibilidades que a ponte oferece para o desenvolvimento económico, mas para ouvir os “contos de fada”, que são muitas naquela cabeça de origem goesa.

Se os pilares da nova ponte fossem as pessoas, uma dessas pessoas seria o “Diogo”, pela sua existência discreta. Pela sua afabilidade e disponibilidade para servir o próximo. Pela sua solicitude. E mais do que isso, pela sua entrega ao trabalho. Ele é, por assim dizer, um dos ícones vivos da Katembe.

A ponte Maputo-Katembe, sem dúvida, é o orgulho de todos os moçambicanos. Quem construiu aquela obra, segundo as palavras do Presidente Nyusi, é o povo moçambicano. Essas palavras, aliás, vieram dissipar de uma vez por todas quaisquer eventuais equívocos. “Quem construiu esta ponte é o povo moçambicano”. Incluindo o “Diogo”.

Hoje, o tempo mudou as coisas na Katembe, como mudou em todo o lado. Em todo o mundo. Mas há coisas que o tempo nunca vai mudar, uma dessas coisas é o passado do “Diogo”. Sinto-me privilegiado de ter sido uma das pessoas que estiveram perto dele algumas vezes, quando ainda tinha o peito aberto. Vigoroso. Quando ainda tinha a capacidade de descer à praia e controlar as redes do camarão.

Deu para matar saudades de um tempo, quando vi o “Diogo” na televisão. Quase sem iniciativa. Quase sem poder manter o ritmo. A vida é assim mesmo. Há coisas que superam os nossos desejos e as nossas capacidades.

Um abraço forte para o “Diogo”.

A luta continua!

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Entre Aspas: As eleições autárquicas e as “certezas” das de sempre… (2) - Marcelino Silva

 

É uma situação caricata de ver indivíduos que se vestem de títulos académicos ignorarem a linguagem dos números ao ponto de em manchetes de jornais, em espaços nobres nas televisões, afirmarem afanosamente que o que os números dizem não é a verdade. Se o que dizem estes ilustres fosse dito por um qualquer não surpreenderia, porque viria de um indivíduo incapaz de fazer a análise de um facto por todos assimilados.

O que é bom em países como o nosso, onde existe a liberdade de expressão - base para que os cidadãos tenham acesso a vários e diversificados menus de informação, é que é fácil saber, através deste ou daquele jornal, daquela ou doutra televisão ou estação de rádio, qual a realidade em termos de números do processo eleitoral.

É uma situação deveras esquisita que deve ser enquadrada num plano mais alargado, mas de realização no curto prazo. Sim, porque como se sabe, as próximas eleições, presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais, são “daqui a nada”. Outubro do próximo ano. Dito isto, gostaria de partilhar a minha percepção sobre as possíveis razões da batalha pela “vitória” da Renamo nas últimas eleições.

Creio que estamos a assistir a uma estratégia deliberada de desinformação visando confundir a opinião pública. Isto numa primeira fase. A segunda fase dessa mesma estratégia integrará dois componentes: 1) a continuação da tentativa de descredibilização dos órgãos eleitorais e do Conselho Constitucional; 2) aprofundar a campanha de descredibilização da Frelimo e seu Governo; e 3) aprofundar a glorificação e endeusamento à Renamo apresentando-a como salvadora que faltava em Moçambique.

A estratégia inclui ainda as seguintes acções, que poderão preencher os próximos episódios de uma novela que não é na verdade nova:

  • aculturação dos eleitores para a desacreditação das estruturas de administração eleitoral;
  • aumento das doses de propaganda visando vilipendiar e desacreditar o peso legal das decisões do Conselho Constitucional;
  • aumento das doses de propaganda visando a “perpetuação” da ideia de que a Frelimo não ganha justamente as eleições;
  • preparação dos eleitores para virarem “as costas” à Frelimo;
  • criar dúvidas no eleitor, levando-o, primeiro, à indecisão e depois a “inclinar-se” para o candidato preferido dos promotores da “vitória” da Renamo;
  • continuação da propagação da ideia de que no país não se pratica a democracia, levando a que potenciais investidores desistam de investir no país;
  • finalmente, instalar no país uma situação de caos que propicie actos que conduzam à ingovernabilidade, oportunidade que pode ser aproveitada para clamar por “socorro) - de quem? Dos mesmos financiadores e promotores das organizações protestantes…

 

Poderão, alguns leitores, perguntarem-se: com que bases o autor deste texto chega a essas conclusões. A tentativa de resposta segue no próximo capítulo.

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