Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

Vejo-o todos os dias à mesma hora e cedo, por volta das 6 horas. É irrequieto e muito esperto, mas também astuto. Não deve ter mais do que 14 anos. Baixinho. O uniforme denuncia a sua “estudância” em espaços onde se finge que a ciência é privada. Que tem dono.

Atina com uma facilidade e é dono de um falar fino, mas às vezes enrolado em função do tema. De cabelos grisalhos e olhos em bico. Dir-se-ia que tem uma ascendência japonesa ou chinoca. Embrenha-se sempre por entre uma malta crescida. Fala com propriedade de gente grande e às vezes como grande gente. Uma vez já o ouvi a falar de política: “aquele gajo não tem juízo, pensa que este país é dele?!”. “Aquele gajo” referia-se ao político Venâncio Mondlane. Ontem dei com ele subindo a íngreme Avenida Vladimir Lenine, ali mesmo junto ao Tribunal Supremo. Seguia apressado e sempre com a sacola azul a tiracolo. Ia à escola. Estuguei o passo e alcancei o rapaz, logo meti conversa.

“Tudo bem rapaz?” – Olhou para mim e sorriu.

“Tudo bem. Hoje não te vi ali na esquina” - respondeu ofegante e com o passo acelerado.

“Vim mais cedo”, retorqui, acelerando ainda mais o passo e arfando ruidosa e caninamente.

O rapaz andava rápido “pra caramba” e eu não aguentava com a pedalada. O passo acelerado e a sacola soberbamente inchada, uma garrafita de água “esquinada” num dos bolsos laterais, o nosso rapaz parecia um “marine” prestes a desembarcar num cenário de guerra.

“O que queres ser depois da universidade?” - perguntei ao “marine”, ainda que com consciência de que esta é daquelas perguntas de chacha, construídas mesmo para meter conversa. O puto parou de repente, fitou-me e com uma seriedade assustadora e inquietante, respondeu peremptoriamente:

“Polícia de trânsito ou alfandegário!”

Fiquei boquiaberto. Estupidificado e literalmente siderado. Estava à espera de respostas mais consentâneas com a idade do meu interlocutor.

“Polícia de Trânsito?! Porquê menino?”

Olhou-me de soslaio, assim como um “roubador de espantos”. Sorriu.

“Mola amigo, não quero ser pobre. Sou merecedor de riquezas. O tio quer morrer pobre?!”

Fiquei assim entre o amarelo de espanto e o vermelho de raiva. Estava em estado de semáforo e o tráfego de emoções era intenso. Não estava a perceber aquele rapaz. Como um imberbe daquele tamanho vai à escola com o fito último de se treinar para a corrupção? Por que é que o rapaz estava a treinar-se para “ganguesterizar” a sua consciência?!

E fiquei a pensar assim, se calhar o rapaz não tem culpa alguma de contrariar as lógicas sociais. Na verdade, a corrupção virou cultura numa sociedade “amalandrada” e com a moral desvirtuada. Eis então que aquele inocente “menino-marine” não é mais do que a síntese da degradação e deformação social.

Tentei ainda aligeirar o meu espanto e perscrutei o rapaz:

“Rapaz, podes ser um bom polícia de trânsito, é uma profissão de muita responsabilidade. Repare que um alfandegário tem o dever de….”

Interrompeu-me, bruscamente.

“Tio, deixe de conversa. Quero um emprego que me garanta dinheiro. Muito dinheiro, o resto é brincadeira.”

Definitivamente transitei do verde para o vermelho. Incrédulo! Com a consciência retalhada.

E pensei, cabisbaixo, no percurso moral, na estranha velocidade meteórica à marcha trás que o país vai tomando. Em passo “caranguejado”. E depois olhei para o rapaz que “desalfandegou” um sorriso matreiro e atirou: Tchau!

E ainda o ouvi, já de costas para mim, a ranger entre dentes:

“Matreco…”

 

Leonel Abranches

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AINDA estava no espectáculo que é ir a São Petersburgo, a antiga Leninegrado soviética, nas noites claras, curtir o fenómeno em que o Sol quase parece não se pôr e fica tudo claro como o dia. O caso que impressiona, sobretudo gente como nós, habituados a descansar, quando o Sol se põe e a acordar quando o Sol nasce, não ocorre ali nesses dias de intensa claridade.

É que fosse sempre assim e não somente naquelas três noites claras, seria difícil nós dormirmos, sem o nosso crepúsculo ao anoitecer e a aurora ao amanhecer, com aquela luminosidadede intensidade crescente ou descrescente conforme os casos.

O caso que nos deixou impressionado então nesses dias, foi não ver nenhum desses crepúsculos, mas como se vivessemos com o Sol a toda hora e não nos apetecesse ir dormir, porque no nosso enteder, era ainda dia, mas já passava da meia-noite. Quando, por fim, fomos à cama, apetecia-nos cobrir a cabeça com uma manta, para ficar mais escuro e podermos apanhar sono.

Dissemos na última edição que por causa dessas noites claras, aquela cidade era muito procurada por turistas, gente que queria viver o impressionante fenómeno europeu.

Agora, fora os habituais fusos horários, que existem e temos que respeitá-los, porque marcam o nosso tempo, os europeus querem deixar a dança do relógio, que faziam, sempre que a estação mudava para o verão e sempre que ia para o inverno. Isto é, em 2019, querem deixar de adiantá-lo uma hora em Março e atrasá-lo em Outubro.

Segundo eles, avançar e recuar os relógios traz efeitos negativos para a saúde e também aumenta o índice de acidentes rodoviários. A poupança de energia, que era a motivação inicial do sistema, não se verifica. Contrariamente, o corpo humano tem sempre de se adaptar às mudanças.

A Comissão Europeia indica que a última mudança obrigatória para a hora de verão ocorrerá no domingo, 31 de Março de 2019, após o que os Estados-Membros que pretendam passar de forma permanente para a hora de inverno possam fazer uma última alteração sazonal no domingo, 27 de Outubro de 2019. Após essa data, as mudanças sazonais deixam de ser possíveis. Bruxelas quer evitar a descoordenação dos países e problemas como custos mais elevados do comércio transfronteiriço e a menor produtividade na prestação de bens e serviços.

Os três fusos horários em vigor na União Europeia são a hora da Europa Ocidental, para a Irlanda, Portugal, Reino Unido, a hora da Europa Central, seguida por 17 Estados-Membros, e a hora da Europa Oriental, aplicada na Bulgária, Chipre, Estónia, Finlândia, Grécia, Letónia, Lituânia e Roménia. Aqueles que escolherem a hora de verão mudam automaticamente para o fuso horário seguinte, ou seja, de mais uma hora.

Nós, como africanos, aqui no sul de Sahara, só nos podemos dar como tendo alguma sorte, por não estarmos nesta balbúrdia, nem agora nem depois. Continuamos com o relógio no mesmo ponto, o mesmo só muda quando está atrasado, pois, aí, somos obrigados a acertar com o relógio do vizinho.

Alfredo Dacala- Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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Aproxima-se a passos galopantes o 25 de Setembro, data que, para além de se tratar de um feriado nacional, porque Dia das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), também está projectada para o arranque da campanha eleitoral para as eleições autárquicas que terão lugar a 10 de Outubro próximo.

Os dias que correm são de azáfama total. Os candidatos vão polindo seus discursos, procurando pontos fracos de cada autarquia, para sustentarem seus argumentos e, por via disso, convencerem o eleitorado a votar no respectivo projecto. Usando pretexto de apresentação dos cabeças-de-lista nas autarquias, a verdade é que os partidos políticos, grupos de cidadãos e outras designações afins, já começaram a fazer discursos eleitorais. Falam dos seus projectos, ainda que a Comissão Nacional de Eleições não tenha tocado o apito inicial. É o tal período de pré-campanha.

Seja como for e nem vou discutir a eventual matreirice dos candidatos e respectivas organizações que suportam suas candidaturas na subtileza discursiva nos encontros que têm organizado com os seus correligionários para estes eventos, encaro o momento como de verdadeira festa democrática. Como de pleno exercício de cidadania. Como de exaltação da moçambicanidade. Mas, acima de tudo, como momento de demonstração da preocupação de fazer de Moçambique um país onde vale a pena estar, porque bem governado.

Dentro do calendário estabelecido pela CNE, muitas acções estão sendo desenvolvidas, incluindo a verificação da autenticidade de toda a documentação exigida para a lisura dos processos. E é neste ponto que eu torço o nariz.

Alguns candidatos e grupos que submeteram seus processos para concorrer na maratona eleitoral de 10 de Outubro, viram seus expedientes devolvidos, alegadamente por apresentarem irregularidades. Não vou fazer referência de que candidatos e partidos ou organizações se trata, esperando que a carapuça sirva, mas dentro da matriz pré-estabelecida pela CNE, alguns processos são acusados de se terem eximido de seguir alguns preceitos, resultando disso a sua rejeição.

Mas também há inconformismos. Ou melhor, inconformados, facto que resulta em recursos interpostos a devidos e diferentes níveis. Há os que já foram definitivamente respondidos, referindo-me aos também definitivamente impedidos de avançar para a maratona. Outros há ainda que, com alguma réstia de esperança, vão esfregando as mãos, esperando que os órgãos competentes julguem procedentes as suas reclamações.

Entretanto, no meio de todo este processo, intriga-me o facto de algumas razões de rejeição de candidaturas serem de índole elementar, como o preenchimento do número mínimo de assinaturas, incluindo suplentes. Não vou fazer referência a outros tipos de irregularidades detectadas no momento de se “pentear” os processos, mas confesso que tem havido casos que deviam ser, simplesmente, “não casos”.   

É claro que não é em vão que se criaram instituições para ajuizarem os processos, mas não deixo de pensar que as irregularidades não deviam se situar ao nível elementar, principalmente atendendo e considerando a possibilidade da existência de muitos “Judas” em situações similares. Mas não é ao Vigário que se ensina o “Pai Nosso”.

Vamos lá jogar limpo(po)...

César Langa - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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NAQUELE dia, como cristão devoto, tinha de cumprir com um dever que tal condição lhe incumbe: enterrar os mortos. Acordou, o tempo já fugia e não pôde fazer mais nada, tão pouco medicar-se para a acalmia das suas crónicas doenças, que não ir ao banheiro, passar pelo vestiário e sair disparado para o lugar do velório, que não ficava perto da casa. Chegou, ainda não começou a missa de corpo presente e deu-se por feliz, porque nisto, como em tudo, governa-o a tempestividade. Trazia flores. Colocou-as diante do caixão contendo os restos mortais da senhora que só viu o seu rosto, pela primeira e última vez, durante o velório. Tomou o lugar e abraçou o canto que enchia o espaço da Sagrada Família, até que o oficiante e o seu acolitado deu entrada pela ala esquerda, tomando depois as suas posições no presbitério. Foram aqueles rituais, aquelas coisas de estilo, próprios da Igreja Católica, que as vive ainda dava chutos dentro da barriga da mãe.

A paróquia estava a abarrotar de gente, de individualidades, de crentes, mas todos eles filhos dos homens. Todos eles gozando de um mesmo privilégio: têm uma mãe. Essa poesia, que é a mulher. Era uma mulher, que se tornara mãe dos seus filhos biológicos, mãe de muitos outros filhos de outras mães, mãe de comunidades que habitou durante os pouco mais de oitenta anitos. Todos para render a última homenagem a essa poesia que nesse dia ia a enterrar.

Dela ficariam apenas recordações.

Ele já não se aguentava, tomava-o até um certo desfalecimento, uma sonolência malandra, o que fazia com que já não efectuasse certos rituais. Sabia das razões de tal estado. Orou para que as forças não lhe abandonassem tão rapidamente e de facto ainda escutou algumas leituras de mensagem, como sempre acontece em ocasiões similares. Tinha as mãos bem ferradas no banco e com a cabeça inclinada para baixo. Orava. Orava.

Anunciou-se o início do velório. Estava entre os primeiros. Reuniu forças para o fazer. E fê-lo. Passavam cinco minutos da uma da tarde. Examinou a sua situação/condição e concluiu que não aguentaria até o fim do velório para depois ir-se ao cemitério onde se procederia ao enterro. Foi para casa, não totalmente com o sentimento de dever cumprido, mas de certa forma tranquilo de ter participado do consolo da família da finada.

Chegado á casa, cuidou de comer imediatamente e só quase a meio da refeição se deu conta de que ainda não tomara os medicamentos. Fê-lo de imediato e continuou a comer, de maneira algo gulosa. Ele, que é sempre pela observância dos limites que lhe impõem, já lá vão décadas.

Sentia-se já algo energizado. Tomou uma taça de vinho depois de uma chávena de chá e sentiu-se bem. Ficou a comentar sobre a cerimónia por uns trinta minutos antes de ir sentar-se no sofá, o que é raro, por um tempo contabilizado pela soneca que veio célere. Quando acordou ainda dispunha de quarenta minutos para um encontro a menos de dois quilómetros da sua casa. Tomou mais um chá e depois se pôs a caminho do local.

O encontro, que era de consulta, teve dois momentos: o primeiro para dar uma opinião, que foi acolhida; o segundo, para lhe informarem que tudo havia corrido a contento. Que por isso podia se fazer um brinde. O aconselhado, todo eufórico, pediu dois whisky’s e uma tábua média de tapas. Ele voltava a sentir-se cansado e tratou de se despedir quando já levava três whisky’s desde que saíra de casa, o que não era nada de anormal.

Em tão pouco tempo e com trânsito nenhum, chegou á casa. Andou em conversa com as pessoas que estavam no quintal em muitos afazeres. Foi mesmo por bons minutos. Era apenas por agrado, pois, ele começara com a conversa e interromper do nada não lhe parecia educado, ou então roçaria à arrogância, mas sentia a necessidade da cama. Começou a caminhar para o quarto e ouviu-se um som triste da queda de um corpo. Era o corpo dele.

Viria a recuperar os sentidos mais de trinta minutos depois.

E foram seis dias a ouvir o Evangelho da dor.

E, por conta disso, agradecê-lo pelo dom da vida.

Ele esteve lá!

 

Djenguenyenye Ndlovu

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Já vinha percebendo que alguma coisa não estava bem com a miúda. Por vezes percebia que ela ensaiava dizer alguma coisa que logo a seguir “engolia“.

Mas naquele dia parecia decidida a “botar boca no trombone…”. Abeirou-se de mim com o seu minúsculo  telefone celular que recebeu de presente pelo seu décimo aniversário. Trazia o pequeno aparelho bem seguro na mão, como se não quisesse que alguém  o visse….

- Pai, compra-me outro telefone porque com este “mbawene” no posso entrar no Facebook.

- E para que é que precisas de entrar no Facebook? Tu só tens onze anos, menina!

- Quero conversar com minhas amigas. Fazer como a mana que tem muitas amigas. Quero fazer muitas fotografias e colocar lá… Pai, vai comprar?

- Não, não vou comprar. Tu não precisas nada disso, nem de amigas virtuais como tem a tua irmã.

- Amigas virtuais?

- Sim. Amigas virtuais são aquelas pessoas que tu vais encontrar lá no Facebook. Pessoas que tu não podes ver, dar um abraço, ir com elas à escola ou à piscina, gente sobre a qual, muitas vezes, não vais poder saber mais nada delas além das fotografias e dos textos que colocam lá no Facebook. Na tua idade precisas conhecer amigas de verdade, pessoas que saibas onde vivem, onde estudam, que possas visitar quando estiverem doentes, que possas convidar para a tua festa, etc. Precisas é de amigos verdadeiros,  não  virtuais...

- Então aquelas amigas todas que a mana tem no facebook não existem?

- Algumas existem e são aquilo que dizem que são, mas outras nem sequer usam as próprias fotos para mostrarem as caras. Usam fotos dos outros, até de crianças recém-nascidas. Dizem que são aquilo que, na verdade, não são… Só para impressionar.

- Há pessoas assim?

- Muitas! Infelizmente há muitas. É por isso que as pessoas são cada vez menos amigas umas das horas. Por exemplo, disseste que a tua irmã tem muitas amigas lá no Facebook, mas viste alguma delas vir visitar-lhe agora que estava doente? Não! Não vieram porque não são amigas dela de verdade, são virtuais…

- Huummmm. Eish!! Então não vale a pena entrar no Facebook...

- Por enquanto não, menina. Primeiro tens que aprender a conhecer as pessoas. Ter amigas verdadeiras. Depois de perceberes isso, poderás ir procurar amigos virtuais.

- Está bem pai. Vou fazer isso. Mas não será por isso que terei de continuar com este telefone mbawene, não é? Compra me outro e tranca o facebook. Assim não vou entrar lá porque sei que não preciso de amigos virtuais. Mas não pode ser por não ter um telefone…

Simulei  que estava a entrar uma chamada no meu telefone, só  para poder afastar-me daquela conversa que me estava a encostar às cordas...

Quando voltei à  sala, a miúda já estava entretida com um desses programas virtualizantes que passam nas nossas televisões… mas sei que aquela conversa sobre o upgrade do telefone, há-de voltar a qualquer momento.

Por isso preciso estar preparado para dar uma explicação  convincente. Esta malta está sempre com um argumento na ponta da língua…

Júlio Manjate - (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

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