Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Timbilando: A raposa que foi ao galinheiro  (Alfredo Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

NO início da década de 70, havia um texto, creio no livro de língua portuguesa da 2ª classe, que tinha como título “a raposa que foi ao galinheiro”.

E se davam as características da dita cuja. Ficávamos a saber do nosso professor Alfredo, que as raposas eram animais mamíferos e omnívoros pertencentes à família dos canidae e que eram vulpídeos, de porte médio, tendo um focinho comprido e uma cauda longa e peluda. Também, segundo nos dizia, apresentavam, como particularidades, as suas pupilas ovais, semelhantes às pupilas verticais dos carnívoros de molares.

Que possuem uma vida quase semelhante à dos caninos, pois podem viver entre 10 a 15 anos, mas a maioria sobrevive por apenas 2 ou 3 anos devido a vários factores.

Tal como os cães, elas também têm um faro para caçar, sendo por isso verdadeiras caçadoras, oportunistas, apanhando as suas presas vivas. A técnica de caça mais comum, aprimorada desde a juventude, é pular sobre a presa para matá-la rapidamente. Comem além de pequenos mamíferos, como roedores e coelhos, répteis, anfíbios, insectos, aves, peixes, ovos e frutas silvestres.

O excedente do alimento é armazenado pela raposa para consumo posterior, como o humano, geralmente enterrado no solo, sob folhas. Por caçarem apenas o suficiente para se alimentar, as raposas são predadoras solitárias e não se reúnem em grupos.

Estas suas características derivaram vários significados conotativos para si, por vezes atribuídos às acções do homem, quando dizemos você é uma “raposa”, quase todos nós sabemos. Por exemplo, a raposa é vista como esperta. Considera-se a esperteza como uma das características, aliando-se aqui também ao seu carácter de “rebeldia”. A raposadepende do seu intelecto para garantir a sua sobrevivência. Mas no sentido ainda conotativo, é muitas vezes vista como trapaceira, uma criatura que usa a inteligência para quebrar as regras ou ir contra o comportamento convencional. Muitas vezes, pode-se dizer que você é uma “raposa”, referindo-se a uma garota, por ela ser, safada, vagabunda, por ai em diante.

No fundo, em “a raposa que foi ao galinheiro” significa que foi para lá criar um grande alvoroço, balbúrdia, confusão e o “salve-se quem puder”, na capoeira.

Isso é o mesmo que estão a viver as doze instituições de ensino superior, que, esta semana, acabaram por ser encerradas no país devido à falta de alvará. Anda ali um grande alvoroço.

Avisadas há uns tempos sobre a sua situação de não possuírem condições para o exercício da actividade e sido até dadas moratórias para ultrapassar a situação, quiseram usar a táctica da raposa. Não valeu para nada. As regras e os prazos foram discutidos com todos e todos concordaram que o fariam.

Trata-se do ensino superior, meus senhores, não de qualquer outra coisa. Temos que deixar de ministrar aulas aos alunos sem as mínimas condições. Começamos a casa pelo tecto e não pela base. Será necessário começá-la do ponto certo.

Recordo-me, na década de 80, havia muita carência de bibliografia e nos safávamos com apontamentos do professor. Muitos deles eram docentes russos que falavam pouco o português. Agora sabemos que há muitas bibliotecas. E que se preparar para a fazer pode tê-la num ápice.

Recordo-me de um professor no BUSCEP, semestre básico, que escondia dos alunos o livro que usava. Mandava consultar outros livros ou manuais. Afinal ele extraía os exercícios e as perguntas para as provas num livro “oculto” para os alunos. Quando se faziam as provas, as notas variavam de 0 a cinco. Só dois ou três “iluminados” aprovavam.

Até que “uma aluno” (na linguagem da professora Genicheva), cansado de chumbar e prescrever de nível, (significava ficar dois anos lá fora sem estudar) e depois requerer voltar, um aluno dizia, foi vasculhar o que andavam a vender os alfarrabistas da altura. Descobriu lá um livro que o achou interessante e comprou-o. Custava “uma bagatela”. Ao vir para casa estudar, quase a prescrever de novo, descobriu também que afinal o seu professor usava aquele livro para ensinar e para avaliar. Viu que tinha feito uma grande compra.

Então passou a estudar só com base nele e fazer os exercícios só nessa base. Teve 20 valores no primeiro teste e 20 no segundo, e queria sempre saber do docente se havia ali na prova algum erro. O seu professor estava aflito, por não saber como havia de chumbar o aluno. Quando dispensou, entregou o livro aos colegas para passar a estudar com base nele. Assim tinha acabado com a tirania do livro escondido. O professor só usava um livro e não queria partilhá-lo com os alunos. Agora não é assim. Há muita literatura para consultar. Há muitos bons livros para todas as áreas e os discentes querem várias fontes de saber. O que é excelente.

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NUM'VAL PENA: São coisas de tradição! (Leonel Abranches)

 

Diz-se que a senhora despenhou quando voava a bordo de uma peneira. Segundo se conta, a senhora, que afinal é dotada de efeitos do submundo e da bruxaria, voava com a missão última de sabotar uma casa habitada por um casal jovem. Felizmente o jovem casal tinha a sua casa fortificada contra espíritos do mal, vai daí que a peneira voadora não conseguiu fazer-se dentro da residência. A história era contada numa longa fila para a ATM de um banco comercial. Quem a contava fazia-o com um requinte extraordinário, como se fosse ele um dos personagens principais. Ilustrava cada etapa com detalhes sórdidos e nalgumas vezes com piadas que nos faziam arrepiar o cabelo:

- Aquela senhora derrapou no ar, os olhos dela, vermelhos como o fogo, estavam enterrados dentro da cara, o cabelo, verde, mais parecia a pele de uma hiena velha sem vida….

E a plateia, eu incluso, estava ali escutando com atenção e espanto. Estávamos todos siderados, fulminados pelo relato. O tipo não se cansava:

- De repente o céu ficou cinzento, mas era um cinzento localizado. A peneira continuava a descer perigosamente a pique e se ouvia um grito lancinante, era como se alguém estivesse a riscar o céu com uma lâmina. Eis então que a esteira caiu com estrondo, a única ocupante do “aparelho”, seminua, numa pequena poça de água enlameada, inicia um discurso estranho entremeado com risos metálicos, rasgando o chão com unhas negras e exageradamente grandes. Falava um idioma que ninguém percebia….idioma do além mundo…..

O arrepio começou a dar cabo de cada um de nós. Um homem de meia-idade, com ares de alguém que frequentou muito recentemente as carteiras de uma universidade, ajeitou a “James Bond” entre os cotovelos, tossicou duas vezes e atirou:

- Vocês acreditam numa bazófia dessas? Palavra de honra pá……quanta ignorância. Isso é uma treta de história, vê mazé se a fila está a andar….

Sob olhares reprovadores, o recém-graduado não se deixou intimidar e iniciou um desfile de argumentos para contrariar a tese de existência de vida espírita do além.

- É por causa disso que assistimos todos os dias a nascerem igrejas suspeitas, de pastores e gajos que se intitulam profetas e se dedicam a fazer-nos acreditar que curam pessoas e resolvem problemas complicados. Ficamos ainda mais pobres por acreditarmos macumbeiros, profetas, bandos de charlatões e ….

- O senhor dr. não acredita? – interrompeu o palestrante de circunstância, preocupado por ter a sua plateia dividida.

- A ciência, meu caro amigo, a ciência é que nos traz respostas – e, de repente, um coro de gargalhadas irrompeu pela pequena multidão que se foi juntando, seguramente convocado pelos argumentos filosóficos sobre os valores da racionalidade e dos rituais da feitiçaria e do culto da magia africana. Confesso que fiquei com a cara à banda pelo pouco ou quase nulo conhecimento que detinha…

- Caro amigo, eu também não acreditava na magia ou bruxedo até viver isso na pele pessoalmente pelo menos em duas situações que me fizeram repensar sobre os valores da cultura espírita africana….mas só te conto uma – intrometeu-se uma senhora idosa, dirigindo-se directamente ao só dr.

- Manda daí mãe – desafiou!

-Passam muitos anos, quando uma noite dessas, durante a noite sofremos um roubo em casa. De manhã as pegadas do larápio eram visíveis, falamos com um curandeiro que veio fazer uma sessão a partir dos sinais visíveis no chão. Dia seguinte o ladrão veio sozinho e com tudo o que roubou.

- Ahh! Mero golpe de sorte minha senhora – desdramatizou o académico, ante o olhar triunfante de quase todos….

- Não meu senhor…não é sorte. São coisas de tradição – ironizou a idosa.

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Limpopo: Benfica, George Dimitrov e KaMubukwana  (César Langa-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

QUISo destino que a minha chegada a este mundo tivesse acontecido no período em que os ostentadores do gentílico deste pedaço do Índico que dá pelo nome de Moçambique não tinham o controlo do seu próprio destino, mas nas garras do colono português, facto que forçou a busca da paz, para a qual a guerra foi preparada e organizada pelo arquitecto da Unidade Nacional, Eduardo Chivambo Mondlane, cujo corpo completará, dentro de pouco mais de uma semana, 50 anos jazendo no local mais sagrado para os heróis desta pátria.

Chegados à independência, já sob a direcção do saudoso presidente Samora Moisés Machel, os moçambicanos recuperaram a legitimidade de eles serem verdadeiros moçambicanos e não “portugueses”, através da política de assimilação, que tornou grande parte dos nossos compatriotas uns simples desenraizados, pois “não mais sendo moçambicanos”, também nunca foram “totalmente portugueses”, permanecendo na humilhante condição de portugueses de segundo ou de outros níveis.

Já com o país na gestão dos seus verdadeiros filhos, muitas mudanças tinham de ser operadas, com o objectivo único de formarmos a nossa identidade própria, bem longe de nomes e símbolos que nos mantivessem ligados ao carrasco da história da nossa existência por cerca de cinco séculos. Novos nomes foram introduzidos para as províncias, bairros, avenidas, estabelecimentos de ensino e outras instituições.

Nesta empreitada, o recurso foi a nomes que nos identificassem com a nossa própria história ou com os nossos parceiros, que nos ajudaram a fazer frente à diversas necessidades durante o período da luta armada de libertação nacional. Por esta via, a cidade de Lourenço Marques passou a chamar-se Maputo e, na mesma urbe, o bairro Choupal passou para 25 de Junho, enquanto Benfica se tornava bairro George Dimitrov.

Foi assim que estes dois bairros passaram a ser conhecidos durante muitos anos, à semelhança de outros que não foram, aqui, mencionados. Entretanto, por razões por mim desconhecidas, mas que prefiro considera-las saudosistas, por parte de alguns moçambicanos contrários ao processo de construção de um Moçambique verdadeiramente de moçambicanos, alguns nomes do passado colonial foram resgatados, a partir de uma determinada altura do processo da construção da nossa história como país soberano. “25 de Junho”, de novo, é Choupal, George Dimitrov retornou a Benfica.

Neste saudosismo, a minha vénia para a empresa Transportes Públicos de Maputo (TPM) que sempre manteve o nome de bairro George Dimitrov, na indicação das suas rotas, o mesmo em relação a “25 de Junho”. E assim percebo que o Estado moçambicano mantém a coerência, através das suas instituições

Entretanto, com o surgimento dos serviços de transporte semicolectivo de passageiro, o nome de Benfica voltou com toda a força como se movido por alguma praga! Curioso é que as instituições reguladoras destes serviços, como são os casos das direcções dos municípios, com a introdução da obrigatoriedade da colocação de faixas indicativas dos destinos de cada unidade circulante, também autorizam a inscrição “Benfica/Museu”. Mas entendo ainda que os conselhos municipais são o “Estado moçambicano em miniatura”, no âmbito de descentralização na gestão da “coisa pública”.

Tendo este poder legítimo, qual é a razão dos municípios ou as entidades que lidam directamednte com os operadores semicolectivos, em representação do Estado moçambicano admitirem que use nomes como Benfica e outros que foram trocados, com a implantação da nossa própria moçambicanidade? Escrevo estas linhas, porque ainda não li, em nenhum lugar, com respectivos argumentos, algo que revogue os bairros George Dimitrov, 25 de Junho e passar-se para os anteriores Benfica e Choupal, respectivamente.

Senhores representantes do Estado na gestão dos serviços semicolectivos de passageiros, por favor, defendam os interesses supremos da nossa soberania, ensinando e mostrando aos motoristas e cobradores que os bairros se chamam George Dimitrov, 25 de Junho, Luís Cabral e não Benfica, Choupal ou Chinhambanine, como forma de jogar limpo(po).

 

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Sigarowane:  E ali havíamos de voltar - (Djenguenyenye Ndlovu)

NÃO tinham sido marcadas novas horas desse novo dia. Passavam apenas vinte minutos da hora zero, quando os pés calcaram o alcatrão e sobre ele caminharam até ao local onde estava estacionado um Kia, moderníssimo, como nunca antes visto, naquele aeroporto com dignidade para ostentar o nome de Nelson Mandela: cidade da Praia, que igualmente faz a capital do país, de capital da morna. Depois daquelas cenas de estilo. Aliás, não houve cena nenhuma de estilo. Houve, sim, a espera necessária para em fila à indiana alcançarmos o oásis, de governação de nossos cansaços, de nossos sonos, de nossas fomes. E o sono não se fez de rogado que a carne já há muito se queixava. Não foi preocupação a hora em que achou o corpo descansado e fez saltar da cama. Bastou abrir a cortina e reparar que o sol ainda não perdera o seu governo sobre a terra. Era a hora de iniciar com a exploração de pequenina parte da Ilha de Santiago. Sobretudo na componente gastronómica, embora neste aspecto não me possa gabar. Fraquérrimo.

Bom, da varanda do quarto tinha a linda Quebra Canela, com gente em mergulhos e barcaças regressando de mais uma actividade produtiva; da salinha, que dá para duas pessoas (só existem dois sofás, uma mesa para duas cadeiras), está a sedutora Prainha, com as suas mansas e tépidas águas do Atlântico. Escolho ser este o lugar primeiro a escalar. Abandono o quarto e com a minha Nikon, que de quase nada serve, atravesso a rua e já estou lá. Desço a escadaria de betão e me deixo sentado numa mesa do restaurante Linha de Água, que está mesmo plantado na linha de água. É gente de todas as idades no gozo das oferendas da natureza. Contemplo. Contemplo. E dou por mim sorrindo e sentindo a alma mais leve. Sorrindo porque não podia fazer o mergulho, mas fazia minha a alegria, a felicidade daqueles que podiam tirar esse gozo. E então um jovem, colaborador do Linha de Água, abeira-se de mim. Boas maneiras, saúda-me seguro de que sou um viente, estende-me o cardápio, mas antes que o pudesse abrir o meu celular toca. Tenho de abandonar o Linha e tornar ao Oásis. É do outro lado da rua.

Num dos sumptuosos sofás da recepção, me esperando, está um neto que por lá vive vai para mais de dois anitos. Ele, a mulher e os filhos. E entramos na conversa bem a fundo, mas sobre o quê mesmo? Depois eu queria fazer umas comprinhas, do tipo umas bebidas e sugeriu o lugar. Plateou, creio que é assim esse sítio. Mas também se não é assim que se grafa, a zona é a chamada área pedonal. E lá o Kia nos levou e em lugar que já não podia ir mais nos despejou. Calcorreámos a área, que não é nada monstra. A pedonal é de espaços amplos com as tasquinhas sempre com lugar para mais um grupo que se queira entregar ao lazer com uma loirinha na mão, que as temperaturas, por aqueles dias, recomendavam. Aliás, recomendam por longo período do ano. E um prato de catchupa então! E tudo vira sonhos, quando é mesmo viver naquele grão de areia semeado no Atlântico.

Queríamos comprar umas bebidas e procurávamos lojas especializadas. O tanas.

Em qualquer mercearia encontra-se um pouco de tudo. E encontramos. Não conhecíamos as marcas dos vinhos expostos: uns portugueses, outros cabo-verdianos. Precisávamos de provar uns tantos. Levamos quatro garrafas e pagamos trinta euros. Bom, não sei se compraria tal quantidade com igual valor em tão poucos lugares como aquele… e depois notamos que o vinho tinha qualidade e era do nível servido a altos galões em momentos de homenagens, em momentos de celebrações.

O euro está para 100$00 (cem escudos). E o metical é lá moeda de troca. Com cem tens trezentos escudos.

O Hélder enfiou as garrafas em dois plásticos sobrepostos de cor azul e abandonamos a mercearia com sorrisos e até outra vez aos poucos que ali estavam e que nos souberam, desde a nossa entrada, estrangeiros. Gente de que tanto gostam porque lhes ajuda a viver com os seus pequenos nadas que lá deixam na vivência.

Decidimos entrar numa tasca e pedimos das bebidas da terra e como fossem muitas em exposição, escolhemos Sã Fogo. É um vinho. A senhora do outro lado do balcão disse que nos dava a provar como uma cortesia da casa. Veio o tinto, para mim e para o Hélder. O neto não se mete nestas coisas. Sã Fogo é mesmo fogo. O meu companheiro das circunstâncias desditas ainda sorveu o branco e não o achou mal. Igualmente como cortesia da casa.

E ali havíamos de voltar. Ali e noutros muitos lugares de trato igual.

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Consonâncias: A GARRAFA DE WHISKY  (Sauzande Jeque)

 

FOI na época em que havia falta de tudo em Moçambique. O nosso oásis em Tete era Songo, onde a Hidroeléctrica da Cahora Bassa possuía dois supermercados, que eram conhecidos por Super Velho e Super Novo. Estavam sempre recheados de produtos que já não existiam no mercado nacional. Eram, quase réplicas da Interfranca que havia em Maputo, embora as mercearias do Songo fossem exclusivas da HCB.

Para lá se deslocavam pessoas de todos os cantos da província e doutros pontos do país. Mas as compras eram condicionadas a uma autorização especial, designada por FITA. A fita era concedida apenas aos funcionários da hidroeléctrica e estes, por sua vez, ofereciam ou vendiam a fita aos necessitados que os assediavam com frequência.

Certo dia, um camionista valentão foi deixar mercadorias no Songo e de regresso teve a oportunidade de comprar, entre outras coisas, duas garrafas de Whisky velho. No controlo da Malowera havia proibição: Ninguém devia sair do Songo com mais de uma garrafa ou garrafão de bebida alcoólica.

Os polícias disseram ao homem que não devia levar duas garrafas de Whisky. Tinha que levar apenas uma e a outra ficaria retida no controlo. O homem tentou justificar que aquela era uma das pouquíssimas vezes que vinha ao Songo e não sabia quando é que seria a próxima visita, pelo que pedia indulgência. Fez saber que tinha uma vida muito penosa, coberta de perigos e aventuras, pois era o principal rebenta-minas nas viagens de Irão-Iraque (nome que se dava às colunas mensais militarizadas que faziam Tete-Beira e vice-versa). Com efeito, a coluna de camionetas escoltadas por militares era um verdadeiro tubo respiratório para aquela província do “hinterland”.

Mas, de nada serviu todo aquele arrazoado de valentia e heroísmo que o camionista tentava expor aos polícias de Malowera. Vendo que estava tudo perdido, o homem pegou na garrafa retida no controlo e sentenciou: “Está bem senhor polícia. Estou a ver que o problema aqui é a vossa garrafa. Eu vou beber o meu Whisky e deixo-vos a garrafa vazia”.

E tendo dito aquilo, o camionista abriu a garrafa e esvaziou o líquido nela contido e com a mesma genica que lhe era peculiar, desceu para o asfalto, meteu-se no camião e abalou em direcção à cidade de Tete.

Naquele mesmo instante a polícia telefonou para os colegas da cidade, alertando que estava a caminho um automobilista que acabava de ingerir uma garrafa inteira de Whisky velho. Prontamente, um agente de trânsito foi destacado para ir ao encontro do consumidor solitário. A meio do percurso, o homem teve o acompanhamento da Polícia até chegar à sua casa na capital da província.

O agente esperava que o motorista conduzisse o camião aos “zigue-zagues”; ou fizesse ultrapassagens perigosas. Mas nada disso aconteceu. E por falta de razões concretas, pois naquela época, bafómetro,aindaera um bicho desconhecido em Moçambique, o automobilista não sofreu quaisquer sanções.

Quando aquele engenho que contabiliza as quantidades de álcool no corpo foi inventado, começou a circular nas mãos dos agentes da lei e ordem, muitos pensavam que seria o fim da prevaricação dos embriagados na via pública. Mas os factos parecem indicar que muitas outras máquinas terão que ser inventadas, desta feita, para ajudar-nos a ter maior respeito para com as nossas próprias vidas.

Forte abraço.

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