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Categoria: Opinião & Análise
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ERAM dezanove e cinquenta e tal, quando saía do lançamento de “Asas Quebradas” do cirurgião e renomado escritor moçambicano, Aldino Muianga. Satisfeito e na maior tranquilidade vi-me mergulhado numa encruzilhada de escolhas e preferências.

O bom senso, sempre vigilante, sussurra inconscientemente que vale mais perder tempo investindo na segurança, mas o espírito aventureiro duma das personagens do livro que se aventura em épocas de guerra atrás das suas origens acabara de lançar sobre mim a ideia de que a pátria está segura, uma falsa impressão pelo que mais tarde me ocorrera depois de seguir pelo “corta-mato”.

No auditório já se fazia contemplar que as pessoas estavam diminuindo, uns de boleia e outros, os mais afortunados que se fizeram no lançamento em família, confundiam as chaves de seus automóveis num claro e aflito exibicionismo para mostrar a sua pujança económica, trocando-se carros ora porque “quero ir ver a Catija e o meu carro é muito baixo para aquele areal ”! Já havia ganho o meu autógrafo pela mão do médico e escritor. Quando vi o ambiente reduzido a insignificâncias, achei por bem, me evaporar daqueles ares que me eram estranhos e perjuros. Virei à direita, vi uma porta franqueada pelo guarda da sala, logo, projectei ligeiramente meu corpo fora.

Rumei para uma aventura arriscada, decidi atravessar as “barreiras do Museu”. Um lance de escadas que separam Museu da Baixa da cidade atravessando um aglomerado de arbustos médios a fim de apanhar um chapa de volta as origens, o silêncio habitava aquele misto de degraus que um a um seguia a escalada, depois de galgar algumas dezenas, uma imagem se aproxima desinteressada, via-se sombra de um corpo médio nem forte nem magro. Continuei trepando mais alguns degraus, as feições já se descobriam, apesar da escuridão que consome aquela travessia, via-se o seu “xipoti” que trazia na cabeça muito caído para a vista seguindo em minha direcção.

- Boa noite jovem - disse aquele.

- Boa noite – repliquei, Afastando-me à direita em jeito de facultar o trânsito quando de súbito, senti sua mão esquerda debaixo da minha barba, havia habilmente acertado o colar da camisa e segura muito firme, enquanto tentava perceber o que estava a suceder o agressor ameaçou perigosamente me penetrar com um objecto agudo que trazia na mão direita, era uma faca! Conclui imediatamente depois dum exame apressado em sua volta.

“Dá… dá o telefone agora mesmo, não vim “pra” brincar, vim trabalhar”! Permaneci inerte, apavorado e povoado por sentimentos combinados ora alternando-se de medo ora de coragem. Evoquei os meus antepassados pedindo protecção naquele instante para que nada de mal me pudesse ocorrer, mas nada! O “Guadjissa” estava decidido a roubar-me.

Movido pelas antecipadas experiências adquiridas nos filmes policiais, lembrei-me que em casos de assalto a mão armada a vítima deve colaborar para evitar o pior, pedi para que o gatuno se acalmasse e prontamente passei-lhe o tablet. Era naquele dispositivo que guardava gravações do Professor Aurélio Cuna e a intervenção do Aldino Muianga, ambos, debruçando-se sobre “Asas Quebradas” fotografias tiradas no evento ao lado de figuras ilustres da nossa literatura: Sara Jonas, Marcelo Panguana, Juvenal Bucuane, António Cabrita, Ungulani Baka Khosa pousavam carinhosamente ao meu lado.

- Dá lá mais… dá dinheiro vociferou o Guindza!

- Não tenho mais nada. Respondi.

Desconfiado, apalpou-me os bolsos das calças, sentiu presença de moedas e ordenou que o entregasse. Executei a ordem com mestria. Trazia uma bolsa debruçada sobre o meu corpo, no seu interior descansava o Zé, o talentoso vagabundo e Asas Quebradas mais um boné de marca nenhuma. Voltou para mim sem nenhum interesse para os livros  e ordenou: “dá esse chapéu” e concluiu dizendo – vai…, lancei-lhe o olhar e saí voando, seguindo pelas escadas quatro a quatro, mas antes despediu-me com ligeiros golpes à faca que verteram algumas gotas de sangue e marcas de perfurações na camisa creme-claro que trazia e desapareceu nos segredos das trevas que habitam as traseiras dum estabelecimento hoteleiro. Segui e logo parei no portão do Jardim dos Professores, espantadíssimo, meu coração estava a muitos batimentos por hora. Absorvi o ar dentro e senti que por pouco a vida me corria. Observei em volta, afinal, estava lá um guarda a poucos metros do local do crime, viu tudo! Virei para a estrada e segui derrotado à paragem a espera de um Bom Samaritano para me levar a casa.

SALOMÃO ZANDAMELA