Imprimir
Categoria: Opinião & Análise
Visualizações: 583

REZAM relatos que, certa vez, algures, Hugh Masekela, a lenda da música africana recentemente falecido, recusou-se a tirar uma fotografia com uma jovem por ela portar tissagens, extensões ou outros desses cabelos artificiais com os quais as “nossas irmãs” preferem apresentar-se, falsificando a sua própria identidade.

A propósito de extensões, vou aqui abrir um parêntese para recordar um episódio:

- Uma mulher moçambicana começou a ter feridas insanáveis na cabeça. Tanto foi assim que teve mesmo que procurar tratamentos na África do Sul, onde os médicos viriam a descobrir que se tratava de uma bactéria encontrada somente em corpos em decomposição.

Escusado, portanto, dizer que se estava perante cabelos retirados de um cadáver.

E sendo estes os cabelos mais caros do mercado, é mesmo caso para dizer, com um amargo de boca, que pagamos muito dinheiro para falsificar a nossa própria identidade, ainda por cima, perigando a nossa saúde!

Voltando então a Hugh Masekela, sabe-se que foi um acérrimo defensor da identidade africana pelos próprios africanos, a ponto de nem sequer aceitar posar com uma falsa identidade como foi o caso da infeliz jovem.

Lembro-me, por exemplo, de ele ter dito a uma plateia de jovens estudantes de música em Maputo o seguinte:

-  “Vocês podem ser famosos fazendo as vossas próprias coisas”.

Aliás, na mesma ocasião, Hugh Masekela contou que no início da sua carreira teve um convite para uma actuação nos Estados Unidos da América.

Só que, uma vez no palco, começou a interpretar ritmos locais. A plateia, nem mais, abandonou a sala.

Quando depois perguntou porque lhe tinham deixado “sozinho” responderam-lhe que tinham pago o bilhete para ouvir “ritmos da África do Sul e não ritmos americanos interpretados por um sul-africano”.

Uma outra estrela africana, o zimbabweano Oliver Mtukudzi, reflectindo a propósito do mesmo assunto, afirmou categoricamente:

- “Deus não duplicou identidades. Se tu abandonas a tua própria identidade e procuras adoptar uma outra, além de ti próprio, o mundo também fica a perder. O mundo fica a perder a tua identidade. O mundo fica a perder aquilo que tu és e que contribuiria para enriquecer o espólio da humanidade”.

Sobre a mesma matéria, há dias, tive uma entrevista para as páginas deste jornal com o músico moçambicano Isaú Meneses.

A uma pergunta minha acerca disso, Isaú Meneses respondeu nos seguintes termos:

- “Há muito que mantenho a minha convicção de que é sempre importante deixar traços que têm a ver comigo. Se não faço isso vou ter aquilo que o antropólogo Stuart Hall chama identidade hibrida. Quem pensa assim nunca se sabe o que ele é. Pode-se saber de onde vem, mas não se pode saber onde vai parar. Está ao sabor do vento. Há-de recolher identidades inglesas, depois qualquer dia identidade russa e daí pode partir para a China. Reconhecendo esse perigo, faço questão de manter-me nos traços da minha identidade”, defendeu-se.

Eis, pois, a reflexão que decidi trazer hoje, sobretudo para os jovens criadores.

O ponto é que, adoptando uma outra identidade, em algum momento, teremos dificuldades de geri-la, tão somente porque não é nossa, não nos diz respeito.

É, definitivamente, mais fácil sermos nós mesmos. Podemos gerir melhor o nosso ser e os contornos da nossa própria identidade porque é, efectivamente, a nossa. Somos nós mesmos nessa hora. A identidade que adoptarmos, por alguma razão, é outra identidade, são as outras pessoas e só elas mesmas podem geri-la.

“Deus não duplicou identidades”.

ELISEU BENTO