Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

LEMBRO-ME, ainda que vagamente, dos tempos em que passava algumas semanas de férias, com os meus avôs, lá para as bandas de Chilumbele, uma localidade pertencente, na altura, ao distrito de Mandlakazi (com a nova divisão territorial passou para Chongoene), na província de Gaza. Lembro-me sim que nessa altura, logo pela manhã, acompanhava os meninos residentes daquela comunidade, entre primos, tios e vizinhos, quando levassem cabritos para a pastagem, enquanto os meus avôs iam à machamba.

A minha avó, juntamente com as suas concunhadas (a família era quase alargada), levava enxadas, enquanto o meu avô e os seus irmãos pegavam em catanas e outros instrumentos de caça. Durante todas as semanas de férias nunca via o meu avô e outros homens dobrados a cultivarem a terra. Só a minha avó e suas “irmãs” do lar. Nos tempos de colheita, o meu avô improvisava um banquinho e, debaixo de uma frondosa sombra, arrancava o amendoim que as mulheres tiravam da terra.

O trabalho pesado que o meu avô e os outros homens da comunidade faziam de quando em vez, era a acumulação do material para a reabilitação e cobertura de casas, mas isso só quando se verificassem infiltrações, que nem eram frequentes. Às vezes passavam três anos sem que uma cabana exigisse uma “mão” ou uma renovação da cobertura. As mulheres é que eram as principais (se calhar as únicas) provedoras de alimentos, enquanto os homens as acompanhavam e se divertiam com o corte de uma estaca aqui e outra acolá, sem se submeterem a grandes esforços.

Quando decidissem ir à caça, o produto não era partilhado em igualdade de circunstâncias com a “população feminina e infantil”. Ali, até faziam questão de se isolarem numa sombra para grelharem as carnes. Nós, como rapazes, até aproveitávamos alguns nacos, em quantidades que só davam para “entreter” o paladar, de tanta água na boca, assistindo àqueles banquetes. Mesmo assim, estes homens nunca dispensavam as verduras que as esposas faziam. Resumindo: os homens trabalhavam pouco, mas comiam muito, bem e do melhor.

No período de dominação portuguesa, quando o colono recrutasse a mão-de-obra dos homens para abrirem estradas por onde deveria passar o land-rover do administrador, para as aldeias, estes se recusavam. Quando fossem solicitados a abrirem caminhos para o padre passar, com o seu carro, para as comunidades, até se escondiam no mato, porque não queriam ir àquilo a que chamavam chibalo, que tinha o senão ter um cipaio às costas, pronto para a tortura. Se calhar, hoje se avente que aquela tortura fosse, também, em razão desta relutância, quando fossem chamados ao trabalho, depois do qual até eram remunerados.

Hoje já não há chibalo. E em Massangena, um dos distritos do norte de Gaza, ainda se assiste este fenómeno. Um mercado está em construção, mesmo na vila sede. O empreiteiro contratado quis trabalhar com a mão-de-obra local, como forma de reduzir os custos em mobilização de homens de outros pontos da província, mas debalde. Os homens de Massangena, tal como eram os dos tempos que acima mencionei, também não querem trabalhar! Só as mulheres é que estão disponíveis. Só as mulheres é que, logo pelas manhãs, pegam nas suas bicicletas (mulheres usam muito este meio de transporte, em Massangena) e partem em busca do sustento para as famílias, o que as torna, quase todas elas, esguias.

Mas os homens estão lá no distrito, vagabundeando de um lado para o outro, esperando que as mulheres voltem das machambas e lhes preparem refeições, para poderem enfrentar bebedeiras vespertinas, numa rotina que se sucede toda a semana, todo o mês e todo o ano. E lembrei-me dos tempos dos meus avôs, lá em Chilumbele.

Jogando limpo(po), vamos lá trabalhar, homens de Massangena!

César LangaEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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