Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

BOM, tenho de me render a tudo o resto. O facto é que gostaria de continuar a ser o que era ontem. Mas ontem não é hoje. E é com muita pena que isso é assim. Muita pena isso é eufemismo, pá! É com muita mágoa, com muita dor que sinto a ausência do ontem. Que me recordo com imensa saudade do ontem que jamais o viverei. Mas fazer o quê? Fazer o quê maninhos desse tempo de festa, de verdadeiras liberdades colectivas, de exaltação do nós. De amor. Do em nada a celebração da vida em todos os lugares feitos de todos nós.

Desse tempo das milícias do povo, num país rico e paupérrimo, que asseguravam, a mim e a outras milhentas almas notívagas, o livre andar pelas avenidas, pelas ruas, pelos becos, depois que os corações aquecidos na cumplicidade do cimento ou do caniço, sem excluir o zinco e a madeira, sempre únicos no seu jeito de amar e de fazer amor, não se podendo enjeitar o papel do prego, de cabeça grande ou pequena. Oh! os tempos do fru-fru da seda ao roço das jeans e luz quase nenhuma. Era o gira-discos às entumescências a gente levando, a vibração dos peitos e por aí tudo morrer, deixando viva a esperança na espera da vez que vem. Mas podia acontecer coisa maior, que como já muito sabido, aos audazes a sorte protege. A sorte combinada como o engenho e arte.

Os deserdados não do dia ou do momento, eles e elas, igualmente celebravam de coração, sobretudo, os eventos dos eleitos, esperando pela vez, que sempre havia de chegar. E chegava. E havia mais uma celebração. Celebrações ao domingo, com cafés com leite, bolos (de nata, de arroz, berlindes…) e o papo era sobre a leitura dessa madrugada. O poder narrativo desse autor desconhecido do resto da malta. Ou que de ouvido falar. Mas que muito rapidamente passava para as cabeceiras da turma.

Foi um tempo bonito de viver!

Foi um tempo de viver emoções de que não posso ter saudades.

Tenho recordações. E a esta hora da madrugada!

E agradeço por isso.

 Agora que são três horas e quarenta e cinco minutos, me recordo de anúncios de venda de rebuçados na cooperativa, na loja do povo. De rebuçados e de outros produtos. Sublinho rebuçados porque para algumas pessoas serviram de açúcar para o chá.

Admirados? Ah!..

E na fila para a aquisição de tais produtos, a conversa era sobre a independência, entendida como acto supremo da cultura: era conversa sobre a cultura.

Não quero correr o risco de ser desdito por muitos da vivência desses momentos de “glória” da cidadania. Era um dos poucos, muito poucos no universo do país que não qualificavam para a fila. Mas sempre presente em tais dias e lugares, pois ali estávamos, amigos e outras convocações de alindarem a alma e aquecerem o coração. E lá se podia ficar até noite aborrecida. E alegre, se regressava à casa.

Depois acontecia que no embalo da conversa, de uma agradável companhia, dava por mim, já em outro dia, a atravessar bongoluene, xipamanine, chamanculo até o Alto-Maé, onde vivia, ido de Benfica, de Choupal e de vez em quando de Inhagóia.

E não tinha medo. O medo estava morto e enterrado.

Não me recordo de ter estado a ouvir, em pastelarias, em cafés ou em bares comentários, prós ou contra, sobre atitudes de instituições/agentes de Estado, nem por aproximação, ao que acontece nos dias de hoje. Mas, como disse, hoje não é ontem. Hoje as coisas são de outra fina, de sorte que a vida dos políticos, vida e suas ambições, ainda que elementares, está tudo na rua, na medida em que qualquer um pode falar mal do político de seja o que fôr o nível. Bem o diz Carlos Drumond de Andrade. “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.

Então há símbolos.

Ninguém dizia mal do presidente.

…foi bom recordar-me.

Djenguenyenye Ndlovu

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