Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

 

Por mais que a gente conte e reconte as peripécias duma viagem, sempre sobram limalhas que depois, servem para apimentar conversas ocasionais ulteriores num círculo de amigos.

A ansiedade que me impelia a viajar até à localidade onde Moçambique começa e acaba, no extremo sul do país, para conhecer o rio Maputo, não contava com os dissabores que tive durante a viagem. O destino final era a Ponta do Ouro.

Dizem as lendas que a Ponta do Ouro é assim chamada porque os primeiros exploradores portugueses ficaram inebriados com o brilho dourado das suas praias, pensando que tinham descoberto dunas de ouro. Mas quando se aproximaram da costa descobriram que as dunas eram apenas ricas em titânio preto. A cor doirada vinha do brilho do sol que focava as praias brancas daquela zona costeira de Moçambique.

Fosse esta ou outra, a verdadeira origem do nome, a mim pouco importava, eu estava interessado em conhecer as praias daquela zona, para onde convergiam muitos caminhos do Grande Maputo nas festas do Natal e fim do ano.

Estavamos a fechar o último trimestre de 2012 e a via de acesso estava em estado lastimável. As niveladoras tentavam fazer qualquer coisa, mas a chuva que caía copiosamente na altura, não facilitava o trabalho das máquinas. Quando se falava de que em breve iniciariam as obras de grande engenharia naquela rodovia, quase ninguém acreditava.

Acertamos o ferryboat das seis horas, duma manhã cinzenta, para chegar a KaTembe, meia hora depois. Por volta das sete horas e trinta, iniciávamos a caminhada em direcção à Ponta do Ouro.

Tínhamos pela frente uma estrada rústica e muito lamacenta, facto que obrigava as viaturas a não andar acima de 20 quilómetros a hora. Nas bermas da estrada, a natureza encarregava-se de nos oferecer um cenário completamente exuberante. Lindíssimas paisagens, caracterizadas por pradarias e uma densa vegetação. Os animais selvagens, faziam questão de tolher-nos o passo, para demonstrar que a estrada e a selva também lhes pertencem. Lindo espectáculo davam os macaquinhos brincalhões quando se espalhavam saltitando pela estrada, sem recear a aproximação das viaturas.

Os elefantes, por sua vez, na sua postura habitual, indolentes e apáticos, ignoravam completamente o espavento do roncar dos carros que eram obrigados a parar durante vários minutos a fim de permitir que aqueles paquidermes passassem com maior tranquilidade. Os mais experientes alertam que é preciso esperar pacientemente, quando estes colossos estão a atravessar a estrada, pois eles não gostam de perturbações. Quando um elefante se zanga, ninguém o acalma.

E assim foi correndo a viagem que levou cerca de seis horas de tempo para percorrermos uma distância de cento e vinte e dois quilómetros. O juramento individual e silencioso fi-lo na altura, prometendo revisitar a Ponta do Ouro só depois da reabilitação daquela rodovia.

Hoje, volvidos já seis anos, com a conclusão dos trabalhos de asfaltagem daquela estrada e com a iminente inauguração da Ponte Maputo-KaTembe, posso comprometer-me a visitar com maior frequência, as paradisíacas praias da Ponta do Ouro. Sei que, desta vez, lá chegarei em menos de duas horas.

Forte abraço.

Sauzande Jeque

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