Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

EM tempos recebia do seu amigo mano velho, escritos da madrugada e as achava muita piada. Punha-se a rir à bessa, às vezes quando recebidas de fresco, pois, acontecia que a essas horas ainda estivesse acordado. Portanto, à madrugada. E como não fosse destinatário exclusivo, por volta do meio dia, a caminho de casa para encher de sólidos o estômago, parava no escritório de muitos, por poucos minutos, e lá se punham a comentar os escritos da madrugada, como ele decidiu chamá-los. Depois ficavam a rir, e depois um gole seguido de um até logo. E logo, outros que não tenham estado por volta do meio dia e que igualmente recebiam os escritos, metiam de novo, para os outros, a conversa sobre os escritos da madrugada do dia. Os que ainda não tivessem aberto os seus correios electrónicos, faziam-no no momento e se punham a ler. E o riso ou o sorriso denunciavam o gozo que tinham tirado da leitura.

Depois era o autor dos escritos a chegar, com as mãos nos bolsos e era a conversa a tomar outro rumo, mas como não se sentasse logo à mesa antes de visitar os lavabos, era o menear das cabeças e a dizer “este gajo é um louco”. E de volta, ainda percorrendo o pequeno corredor, na verdade um espaço entre duas filas de mesas, gritava por uma insulina (o que ainda faz) que mal se sentava já lhe era servida. O primeiro gole era sempre um bocado generoso e depois era tudo como com todos corria.

Eram escritos construídos com muito rigor e que sempre valeu a pena lê-los, mas por estes dias não os tem recebido e tem muitas saudades do tempo em que os recebia. Mas também pode ser porque mudou o seu endereço electrónico que o serve de muito pouco, pois, esqueceu-se do código, que aquele caixote já não tem muito espaço para guardar coisas novas. Paciência… é o que se tem de ter quando se atingem essas fases, de qualquer jeito muito boas.

E o diziam louco por muitas razões: eram escritos de alto gabarito, eram escritos que explicitavam o seu raciocínio sobre um tema que tenha estado em debate e fazia-o, competentemente, com recurso a informações históricas e era pouco tempo depois de abandonar a malta. Ou seja, quando o imaginavam na cama e a ressonar e bem, depois de tantas insulinas e muitos pôrras e alguns poluentes palmares que de azul têm apenas a caixa. Por causa da hora em que se punha a escrever. Tudo isso e muito mais, fazia/faz dele um tipo diferente.

Não. O homem, chegado à casa, ligava a Toshiba. E na varanda do seu andar de muito alto e a olhar para o outro lado da baía, coisa bonita de Maputo, descarregava e enviava para quem com que estiver a horas antes e a muitos outros (que a sua lista de amigos/conhecidos é bem monstra) e mais logo eram aquelas do tipo “o sacana é louco”. Vejam só, sacana e louco.

Tinha de o procurar ainda naquele dia, aliás, o que não lhe custava nada. Ia ter com ele ao escritório de muitos. Se ainda lá não tiver chegado, ficava à espera para lhe dizer que faz tempo que virose lhe tomou e teima em não lhe largar. Mais, confessar que é das melhores coisas que lhe aconteceram nos últimos tempos, mas também bendizer daqueles que a essas horas estão sonhando.

 Com ele isso acontece um pouco mais tarde, quando os outros se preparam para ir ao trabalho.

Então ele também escreve à madrugada, pois, de contrário, tinha de ficar horas a fio a ver televisão, já que ninguém, a essa hora com quem conversar.

 E quando não escreve, fica a ler qualquer autor.

À madrugada também se pode trabalhar.

Djenguenyenye Ndlovu

Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction