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Categoria: Opinião & Análise
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XAVIER é o Abel, o seleccionador nacional de futebol. Xavier é jovem e comunicador. Bonacheirão e solto. Bom do verbo. Andou nas elites do futebol mundial, na fina-flor. Jogou em palcos de sonho e fez vibrar multidões que deram o corpo para “contra os canhões marchar, marchar.” Hoje marcha com garbo ao serviço dos Mambas, de Moçambique, por sinal país que viu seu cordão umbilical cair. Chegou, viu e está a tentar vencer. Idealizou e personificou o discurso “da dor” para a conquista de valores e sobretudo de objectivos. Encontrou um conjunto de rastos, refém de ideais e défice de articulação administrativa. Aceitou o desafio, começou a reconstruir os processos e mobilizou o público descrente para acreditar em novas primaveras. Marimbou-se para o conforto “dazeropas” e assentou arraiais no seu país materno. Eventualmente tenham sido estes os seus maiores pecados. Todos nós exigimos alegrias, vitórias e espectáculo! Não queremos saber de mais nada.

O Xavier que ponha a malta a marcar golos, não interessa como. Batemos a poderosa Zâmbia no seu reduto e isso elevou-nos a auto-estima, se calhar passamos a acreditar que os processos de construção do Xavier já estavam a dar frutos. Agora é só ganhar, mesmo que nos calhe a França ou o Brasil. A última prestação dos Mambas no Zimpeto está a levantar os mais apaixonados debates. Algumas hostes chegam mesmo a questionar a competência técnica do Xavier, sobretudo porque ousou substituir o talismã do futebol nacional, o capitão Dominguez.

Outros chegam mesmo a questionar a não chamada do actual menino maravilha, o jovem Kamo Kamo. Segundo se diz, o rapaz reproduz o ideal de espírito ganhador, batalhador, pontapé forte, sobretudo porque expele pelas ventas veneno letal. Outras sensibilidades acham que é preciso acreditar no homem que dirige os briosos Mambas e que os resultados não podem ser expressos por um acidente de percurso, ainda por cima que não trouxe grandes mossas, porque não perdemos e somamos um precioso ponto contra os latagões da Guiné. Pois então o país do futebol viveu, naquele sábado, no majestoso ENZI, a um dos mais dramático minuto de que há história.

A selecção colapsou na última jogada e deixou chocados milhares e milhares de moçambicanos. O desânimo e a revolta povoaram o imaginário dos mais aficcionados, de tal modo que foram reportadas lágrimas, desalento, desmaios, discursos imprecisos, e, sobretudo, encolerizados. O empate soube mesmo a derrota, bastante agridoce. O coma futebolístico persiste, a ressaca está notar-se violenta. Ainda assim não sei se vale a pena continuar a procurar fantasmas em grutas escuras do escárnio e mal dizer. Entendo que é preciso olhar para os erros cometidos e exorciza-los.

Excomungar os defeitos para alinhavar virtudes e partir para resultados de que nos orgulharemos para o resto da história. Devemos acreditar no Xavier e na malta Mexer, Clésio, Zainadine e companhia. Continuemos a depositar os maiores votos de confiança neste conjunto, que afinal tem a pesada responsabilidade de representar cada uma das sensibilidades dos moçambicanos. É importante que façamos o nosso papel e nos foquemos no mais importante, a despeito de quezílias que só nos podem fazer quedar num vazio de ideias. Bola pra frente e vamos até o fim com o Xavier.Leonel Abranches