Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

JÁ o tinha dito que estou a alta velocidade à caminho da prateleira dos anciãos. Onde vou sentar e olhar para longe sem me preocupar com o futuro. Se não tiver semeado nada até essa altura, então nada colherei. E se tiver semeado ventos, não vai-me restar mais nada senão colher tempestades.

Por enquanto, vou observando as cores das coisas que existem à minha volta, e o que sinto é que elas já não são as mesmas. A vida que levo também mudou de cor. Resume-se numa rotina que alterou na sua estrutura visual. Agora, diferentemente dos tempos da juventude,  faço as mesmas coisas quase todos os dias, e da mesma forma. Passo praticamente pelos mesmos lugares. Ainda assim percebo que em cada dia, esses mesmos lugares vão mudando de cor.

Ando muito de “chapa” ultimamente. E há coisas extraordinárias que aprendo no percurso diário de ida e volta. Tirando a chatice dos apertos e os intermináveis engarrafamentos que põem à prova a nossa capacidade de contenção, o resto é um espectáculo. Lá dentro são narradas  histórias incríveis, algumas delas que já ouvi em tempos, mas agora contadas com um ponto à mais. Quer dizer, as pessoas são de uma tal criatividade que vão mudando a cor das coisas quando no fundo são as mesmas.

Criei o hábito de apanhar o “chapa” de regresso à casa na “Praça dos Trabalhadores”. Ao longo do caminho que me leva do local de trabalho, que é o jornal Notícias, até ao terminal, vou notando que há muita coisa que mudou. A cor daquelas casas antigas já não é a mesma. Algumas ganharam tonalidades renovadas, mais alegres. Outras foram afectadas pelas manchas encardidas do tempo. Por exemplo, a pedra e cal da Fortaleza de Maputo, local por onde passo habitualmente nesse percurso quotidiano, muda para baixo a cada momento. Depois da chuva, a “fortaleza” parece triste.

Na própria “Praça dos Trabalhadores”, o ambiente já não é daqueles tempos em que dominava a ganga e a capulana. Agora o show é o das saias curtas e justas. Procuro naquela juventude que pisa e ignora os mais velhos e não vejo nenhumamatarlantanta, xipangarassada, pilissada, nem astrês saias. Os  rapazes também exibem os seus corpos através das txuna baby, que mostram, ao dobrarem-se para sentar ou levantar dos bancos, a trincheira que divide as nádegas. Já nem se lembram da bocadesino, nem das calças yeyé que eu tanto usei. Significa que somos agredidos diariamente com  coisas que nos envergonham e nos doem. Mas eles, os jovens, riem-se alegres e pensam que tudo aquilo é normal.

Sentado no banco do autocarro em movimento, enconstado à janela, olho para a grande obra de arte que é a estátua da mulher que hoje simboliza a Praça dos Trabalhadores, a nwatinhoca. Fico triste quando vejo que o corpo dela está sujo e rodeado de capim, para não falar dos polidores de viaturas que assaltaram o local. Já não tem a cor original. Abano a cabeça, ao mesmo que me lembro que ali perto, no cais de Maputo, os estivadores continuam a lançar bojardas enquanto trabalham. Chamam-se uns aos outros de testículo disto e testículo daquilo. Mas essa é a linguagem dos estivadores daqui, que pode não ter mudado.

A antiga fábrica de cerveja também alterou. Já não tem aquela cor viva dos tempos e aquele apetite que nos aguçava ao pensarmos na boa “Laurentina preta” que saía dali. Agora a pretinha sai da 2M, e também não é a mesma dos meus tempos. Mudou de sabor. Tudo mudou. E sabem o que é que isso significa? Significa que o tempo é impiedoso.

A Luta Continua!

 

Alfredo Macaringue

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