Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Torre Rodrigues é um jornalista português que lá para os meados dos anos 80 trabalhava neste jornal. Uma das suas responsabilidades era formar os aspirantes a esta nobre e aliciante profissão. Era ele que, à chegada dos novatos, lhes apresentava o panorama e as regras do mister.

Eu fiz parte do segundo grupo de formados pela Escola de Jornalismo, tendo abraçado a carreira em Novembro de 1984. Éramos 12 jovens que, por forças das circunstâncias, acabamos por abandonar o ensino médio para fazer o técnico-profissional, de modo a preencher os gaps de profissionais da comunicação social que se fazia sentir na altura.

No fim da formação, o jornalista Fernando Leite Couto (já falecido), que era director da Escola de Jornalismo, procurava integrar os recém-formados e dava-lhes a oportunidade de escolher a empresa do ramo onde cada um gostaria de trabalhar, designadamente Rádio Moçambique, Televisão Experimental (na época, agora Televisão de Moçambique), Agência de Informação de Moçambique, Revista Tempo, Jornal Domingo e Jornal Notícias. Quase todos escolheram a TVE. Porém, só dois lograram colocação, pois a instituição só tinha capacidade para absorver este número.

A Rádio Moçambique acolheu outros, cujo número já não me ocorre. O “Notícias”, dirigido na altura pelo escritor e biólogo, Mia Couto, admitiu 12 aspirantes ao jornalismo. Mas no fim do estágio, de três meses, havíamos ficado quatro. Embora alguns de nós quisessem continuar os estudos, para fazer cursos universitários, começar a trabalhar criava alguma euforia, pois dava uma sensação de liberdade (já não dependeríamos dos nossos pais nem de irmãos mais velhos para suprir as nossas necessidades).

O que não sabíamos era o que é, de facto, o jornalismo. Havíamos acumulado muitas teorias, e sem nenhuma prática, à excepção de alguns colegas que já vinham de alguns órgãos, tais como o Tomás Viera Mário, Gustavo Mavie, o falecido Júlio Bicá, António Gumende, Felisberto Firmino, só para citar alguns nomes. A maioria era tábua rasa em matéria de comunicação social.

Por isso, chegar à Redacção do Jornal Notícias e ter esta recepção foi para muitos um tratamento de choque: “Quem te disse que podias ser jornalista? ”; “Porque escolheste o 'Notícias‛ e não foste para outro órgão?”; Qual é o título do livro que estás a ler?”; “Sabes que isto é um Jornal sério, não é casa da mãe…”. Creio que as respostas a estas questões foram dadas a tartamudear. Na altura, eu gostava muito de ler revistas da série “Tio Patinhas”. Mas como não sabia a que tipo de livro se referia, preferi omitir esta propensão para a banda desenhada. Não queria ser excluída só porque estava a ler um livro errado ou não recomendado a jornalistas de um órgão de referência no panorama da comunicação social. Só que essa omissão pareceu-me penalizadora.

“Amanhã de manhã cada um de vocês só vai entrar nesta Redacção se trouxer um episódio do seu bairro. Aqui é para trabalhar…”. Era o nosso baptismo.

Felizmente, por solidariedade, recebi uma dica de uma jornalista já falecida, a Mariamo Adamo, que se encontrava afecta ao sector internacional. Recomendou-me que fosse ao Corpo de Salvação Pública, vulgo bombeiros, ou à Praça 25 de Junho, na baixa da cidade, para descrever algo factual que ocorresse num daqueles locais. Escrevi sobre sanitários públicos. Infelizmente, o texto não foi publicado, como tantos outros subsequentes, até ganhar “tarimba”. Só dois anos depois vi uma reportagem publicada, no jornal, com o meu nome. Era sobre “preços proibitivos na Marta da Cruz e Tavares, um estabelecimento comercial de roupa, que desapareceu com o tempo. Hoje entendo que aquele “baptismo” é necessário para quem abraça uma profissão como esta, cujo produto toca na vida e sensibilidade de milhares de pessoas. Um cargo que deve ser exercido com muita responsabilidade.

Logicamente que o leitor deve estar a estranhar esta retrospectiva dos meus primeiros passos no jornalismo. Na verdade, este deve ser o último “Poder da Palavra” que escrevo, como funcionária do “Notícias”. Por força legal, a partir da próxima semana deixo de fazer parte dos quadros efectivos da instituição. Por isso, senti-me na obrigação de me despedir dos meus leitores e, ao mesmo tempo, agradecer o carinho e a fidelidade aos meus escritos, partilhados ao longo destes 34 anos da profissão.

Todavia, aprendi com colegas da profissão, de outros países, que um jornalista nunca reforma. É assim em quase todo o mundo: quanto mais velho neste métier, mais experiência acumulada. Por isso, é um adeus sem partir, pois é apenas uma porta que se fecha mas, quem sabe, uma outra, mais adiante, se vai abrir. Ainda poderemos partilhar saberes, em algum lugar…

Delfina Mugabe

Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction