Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

Hoje esbarrei com uma mocinha de aparentemente 18 anos. Ela jurou que me conhecia; disse que o nome da criança era Olívia. Naquele momento meus pensamentos deixaram aquele local e me vi no terminal de “chapas” da baixa, numa tarde de sábado do ano de 2015.

Olhei para o relógio: eram 14 horas. Meu estômago mendigava por algumas migalhas, míseras que fossem, para se acalmar. Minha garganta estava aos berros, com a mão estendida já sem voz para pedir por umas gotas de água.

Tirei duas moedas e coloquei-as na banquinha. Meus dedos seguraram a garrafa plástica e gelada. O líquido tocou a garganta, que agradeceu. O estômago não estava satisfeito, apesar das bolachas vagabundas terem se entregado com prazer.

Pronto para andar com o mínimo de equilíbrio, procurei o chapa. Entrei, segurei onde pude. Fechei os olhos e rezei para que a garganta e o estômago não reclamassem. Falando em reclamações, meus pés também estavam rebeldes.

Tomado pela dúvida, perguntei para mim mesmo se chegaria ao destino nesta posição. "Mano, se aguenta, alguém do 'chapa' vai sair e poderás sentar".

Segurei as palavras da senhora com a mesma força que os meus dedos agarravam a ponta de um dos assentos do chapa.

Olhei para o lado direito da senhora e vi uma jovem a preparar moedas, pronta para entregá-las ao cobrador.

Sentei-me e o sono veio, mas um pesadelo acordou-me. Olhei para a rua a espera de ver a minha paragem, mas nada, ainda estávamos longe.

Olhei para o relógio e percebi que o cobrador ficou 43 minutos a entulhar as pessoas no chapa e apenas 10 a andar. "Ainda tem espaço Mãezinha, entra!", dizia.

Entrou uma mulher grávida, parou num espaço onde a minha vista poderia captar. Sem argumentos, levantei-me e cedi espaço. De pé, olhei para os chinelos da senhora e senti que tinha as pernas inchadas: “provavelmente estivesse no oitavo mês de gestação”, sussurrei para mim mesmo. 

O “chapa” estava veloz, fiquei dividido: senti medo, mas ao mesmo tempo queria agradecer, pois não existe nada melhor que chegar cedo à casa. Aproximei-me à porta do veículo, vi a cara de uma mocinha que esbarrei quando entrei no “chapa”. Paramos lado a lado. Olhei com atenção, percebi que ela trazia um embrulho na capulana. Meus olhos ampliaram, agora olhava no detalhe: “é uma criança. Sim, é um bebé, parece recém-nascido”, conclui sem abrir a boca.

A moça viu que reparava para ela e do nada disse: “tem três meses, hoje foi visitar os avós”, contou.

Olhei para os assentos do “chapa”, todos estavam preenchidos. Rezei a Deus para que alguém cedesse espaço para a moça sentar-se. Nada, ninguém se solidarizou, entravam mais pessoas e empurravam para lá e para cá.

Mesmo sem forças, tentava afastar as pessoas que à procura de espaço naquele minúsculo “chapa” empurravam a mocinha.  

- Miúdo, vou te arrear. Não brinca comigo, ouviste? -  disse um senhor gordo, escuro, transpirado, metralhando saliva por todo o lado.

- O senhor está a nos empurrar, eu só estou a proteger a criança - respondi num tom sereno e ofegante.

O gordo me olhou, levantou os ombros e replicou “se queres estar a vontade com sua mulher e filhos compra carro ou aluga táxi”, disse em changana.

Os nervos me subiram, pensei em responder, mas o braço de uma senhora de meia idade me acalmou. “Deixa. Ele não sabe o que diz. Não responde”, aconselhou a senhora em ronga.

Ganhei forças, usei a voz: “peço que cedam lugar para esta senhora, ela tem uma criança ao colo”, roguei.

Do fundo do TPM, uma voz rebelde ecoou. “Mas fomos nós que nascemos está criança? Nos deixa você. Queremos sentar, vamos descer no terminal nós!”.

Ouvi, esperei a reacção das pessoas, mas nada. Os argumentos da voz no fundo do carro foram maiores que o humanismo das pessoas.

Respirei fundo, queria continuar a argumentar, mas a mocinha me parou. “Vou descer na próxima paragem. Obrigado mano”. As palavras me confortaram, agora estava mais calmo. “Mas qual é o nome do bebé?”, indaguei. A moça me olhou, virou bruscamente, entregou o dinheiro ao cobrador e saiu do “chapa”.

Fechei os olhos, senti os meus pés e o meu estômago a reclamarem de novo. “Já estamos no terminal, saiam”, disse o cobrador em changana, aos berros. Desci do “chapa”, cheguei a casa e tomei um banho. Tinha planos de ler, mas o olhar daquela mocinha não me saia da cabeça, queria saber o nome daquela criança.

 NB: A partir de hoje, a coluna Retalhos e Farrapos, que saia aos sábados, passa a ser publicada às quintas-feiras.  

 

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