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Categoria: Opinião & Análise
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BOLSONARO é um indivíduo coerente, até nas suas manifestações de racismo, de machismo, de defensor de práticas fascistas, de homofobia, entre outras, contrárias a tolerância entre os seres humanos. Ele está na política há mais de 30 anos e durante este tempo nunca escondeu as suas posições políticas. Pode-se dizer, portanto, que não deixa os seus créditos por mãos alheias, como sói dizer-se.

As estatísticas da primeira volta das eleições indicam que ele é mesmo aceite por muita gente. Com efeito, JB arrecadou um total de 49.276.990 de votos (46,03%) total dos votantes, enquanto que o seu adversário directo, Fernando Hadade, amealhava 31.342.005 de votos representando 29,28% do total dos votantes – total dos eleitores aptos: 147.306.295, dos seus pouco mais de 211 milhões de pessoas. Este facto remete-nos a esta que é, na minha opinião, uma verdade indesmentível: apesar da clareza da sua mensagem, que para meio mundo – meio mundo, sim; pois ele é criticado tanto na Europa, passando por África e desaguando nas Américas, é o preferido dos votantes brasileiros.

Repare-se neste pormenor: o Brasil apresenta uma geografia demográfica que nos indica que a maioria da sua população é negra. Portanto, um dos grupos populacionais desprezados e autenticamente vilipendiados por JB. Apesar deste facto, temos de acreditar que para ele ter tido o resultado que teve, entre os seus votantes na primeira volta, esteve, seguramente, uma faixa considerável da população negra. Outro grupo que merece o desprezo de JB é o dos homossexuais. Mas, quem me garante que muitos deles não terão votado no controverso político?

Chegados aqui, é legítimo perguntar: apesar das manifestações de desprezo a grupos de peso – em termos de números da população brasileira, apesar do seu claro apoio a métodos ditatoriais e fascistas de governo, apesar do claro desprezo pelas mulheres, entre outras atitudes consideradas vexatórias da dignidade humana, porque é que JB consegue mesmo assim, a preferência da maioria dos votantes? Ou, por outra, o que leva milhões de pessoas a votarem num indivíduo cujo discurso é contrário a tudo aquilo que esses milhões de indivíduos condenaram num passado não muito distante? É um contra senso, não é? Que parte da mensagem de JB consegue levar essa gente toda a acreditar nele?

Estará, o eleitor brasileiro a deixar-se seduzir, tal como acontece um pouco por todo o mundo, pelo discurso populista que carrega com ele carradas de promessas de resolver todos os males que perduram há décadas. E que não foram resolvidos antes devido a ausência de propostas de soluções estruturantes. Se considerarmos o factor voto por simpatia política, parece não entrar, neste caso, tal equação, sobretudo se atendermos a natureza do discurso do candidato. Estaremos perante a incapacidade natural do ser humano de analisar friamente os conteúdos dos manifestos eleitorais, para a partir daí decidir de forma “correcta”? Estará a faltar, no eleitor brasileiro, a capacidade de avaliar, também friamente, o desempenho dos anteriores governantes, para, com base nos resultados dessas análises tomar a melhor decisão?

São perguntas e mais perguntas para as quais dificilmente se encontram as respostas mais “adequadas”, ou seja, aquelas que nem mesmo a lógica ajuda a encontrar. Como dizia no princípio do terceiro texto desta série, depois de 28 de Outubro de 2018, o Brasil não voltará a ser como antes. No dia seguinte àquele dia, os brasileiros e o mundo acordarão a saber que Jair Bolsonaro será o presidente da República Federativa do Brasil pelos cinco anos seguintes. Ou seja, os brasileiros terão escolhido aquele que irá dirigir os seus destinos. Terão, assim, os brasileiros o presidente que merecem porque assim o quiseram. Desse modo ficará confirmado mais uma vez, a “prescrição” do filósofo francês de que é a decisão popular – que pode estar alicerçada em factos correctos ou factos errados, que determina ou pode determinar a escolha dos maus políticos, ou dos bons políticos para governarem os países…

Marcelino Silva