Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

O JOVEM descia as escadas do prédio num louco frenesim. Pulava de quatro em quatro com um invulgar cálculo geométrico mental. Transpirava abundantemente e os calções estavam à beira de um colapso nas linhas retocadas pelo alfaiate da loja do Kumar, o indiano da esquina que anda sempre mal disposto. Assomou no vão do segundo andar arfando que nem um cavalo com sintomas de renite aguda. Joaquina, a doméstica dos Soviéticos do segundo andar, vassourava o varandim quando foi empurrada violentamente pelo jovem que descia meteoricamente as escadas.

A senhora, atónita e espalmada contra o rígido chão, ainda perguntou:

- Hi hawena Zeca! O que se passa desta vez?!

Zeca travou bruscamente e o efeito da inércia fê-lo tropeçar por entre os degraus. Olhava para trás atemorizado e trémulo. Parecia perseguido por um fantasma. Encolheu-se e em pose fetal tentou juntar pequenos cacos do alfabeto português para dizer alguma coisa à senhora, mas da boca apenas emergiu um assombrado sopro cadavérico.

- Zeca meu filho, queres ajuda? O que está a acontecer? – Insistiu Joaquina, levantando-se pesarosamente e com os joelhos esfacelados.

Zeca revirou os olhos, voltou a olhar para trás e lançou um grito lancinante e gelado que ecoou o prédio todo. Levantou-se e continuou a odisseia atlética, saltando as escadas, agora de seis em seis degraus, com o mesmo sentido geométrico de cálculo. Aflorou o pátio, derrubou a banca de Lopes, o machuabo agente mPesa e revendedor de crédito, que enfurecido recalcou:

- Fusseka Zeca, mananbwa! Mussólo unga pendi fedamãe!

Zeca nem sequer parou. Atravessou a avenida mais movimentada da cidade, saltou o portão de uma escola primária, passou pelo pátio feito um foguete, voltou a saltar o muro, desta vez o traseiro, e embrenhou-se por um mercado informal. Respirava mal. Estava ofegante. Entretanto o calção já há muito tinha deixado de cumprir com as suas mais elementares funções. Zeca estava literalmente encuecado. Parou numa banca e uma mulher de meia-idade, mas com a face calcorreada pelas amarguras e agruras da vida, acercou-se dele desanimada meneando a cabeça de forma reprovadora.

- O que se passa meu filho?!

- Mamã, tem um elefante no quarto de Jorginho. Grande mamã!

E desatou a chorar copiosamente. Chorava tanto que parecia que a alma ia abandona-lo a cada violento suspiro.

- Mamã tenho medo. Aquele bicho está lá em cima mamã!

Soluçava violentamente, criando sulcos assustadores no peito. Dir-se-ia que o paquiderme de que falava afinal estava dentro de si.

Entretanto, a mãe, vendedeira numa banca de mercado informal, sentou-se e anichou a cabeça de Zeca no seu farto mas desnutrido peito. Uma lágrima deslizou por entre a face enrugada pelo tempo e envelhecida pelos percalços da vida. Nunca se recompôs da perda do marido, um diligente funcionário do Estado, nem do filho Jorginho, fulminado por uma overdose de haxixe.

Olhou com ternura e compaixão para o filho e pressagiou:

- Zeca, meu filho, não aprendeste com o teu irmão Jorge.

Leonel Abranches

Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction