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Entre Aspas: O Bocage e o olho do peixe (Marcelino Silva)

 

MANUEL Maria de Barbosa (Hedois du Bocage ou simplesmente Bocage), nascido a 15 de Setembrode 1765,em Setúbal, Portugal e falecido em 1805, foi um poeta português. Possivelmente, terá sido o maior representante do chamado arcadismolusitano - os árcades, a desenvolverem a chamada poesia bucólica, género cujo tema é a vida no campo, onde estava a verdadeira felicidade. Este amante e praticante da poesia perpetuou-se no então mundo literário sob o nome Bocage. De tal forma que o seu nome “atravessou” os oceanos Atlântico e Índico, vindo a “desembarcar” na antiga Delagoa Bay, que depois ficou Lourenço Marques e mais tarde Maputo.

Quem o fez “vir” a Maputo tinha a intenção de baptizar uma casa de pasto que se tornaria num local de referência na zona baixa da então Lourenço Marques. Feito o baptismo, a casa passou a chamar-se “O Bocage”. O local escolhido foi o “rés-do-chão” do prédio Cardoso, situado mais ou menos paredes-meias com o Teatro Avenida, na avenida 25 de Setembro.

Feita esta longuíssima introdução, adianto desde já que não é sobre o poeta e nem o restaurante que quero falar. O Restaurante Bocage foi referência para quem quisesse saborear algumas iguarias gastronómicas - entre as quais da cozinha portuguesa e internacional e, claro, da cozinha local. Entre os comensais do restaurante figurávamos eu e o meu colega, já falecido, Abdul Carimo. Os dois éramos repórteres do “Notícias”. Isso no longínquo ano de 1980. Depois de cada fim da jornada laboral, geralmente depois das 21.00 horas, dirigíamo-nos ao Bocage onde invariavelmente  pedíamos peixe carapau. Para empurrá-lo, consumíamos cerveja. Excêntrico e esquisito, Carimo começava a “atacar” o repasto saboreando, primeiro, os olhos do peixe.

Depois de várias sessões onde o Carimo repetia sempre o ritual do olho do peixe, acabei questionando o porquê daquela forma de “malhar” o peixe! Rindo espalhafatosamente como era seu hábito, respondia mais ou menos nestes termos: “gutsamba! (é saboroso, tradução de guitonga para português). Experimente Marcelino, depois diga-me o que achas”…Receoso, fazendo caretas, lá fui provando. Não é que encontrei mesmo algum sabor! Especial, esquisito, mas real e interessante. Experimente também, depois diga-me o que achar!

Falar do Bocage e dos serões que passei com o malogrado Carimo, é falar de um amigo, de um colega, de um furão (na linguagem jornalística), que garantia, meia-a-meia com outros repórteres, “cachas” para a 1.ª página do jornal, então dirigido por António Souto, hoje fora do jornalismo. Falar do Bocage é falar também de outros dois jornalistas, chefes na Redacção do Notícias: Abel Faife e Pedro Tivane, ambos falecidos. Estes foram para mim autênticos professores. Eu era um provinciano que iniciara a aventura jornalísticas pela “mão” do Departamento de Informação e Propaganda da Frelimo, em Inhambane. Recordar os meus serões com Abdul Carimo no Bocage significa também recordar e homenagear muitos outros colegas, uns ainda em actividade, outros já falecidos - casos de Felisberto Matusse, António Muiambo, Boavida Funjua, Izidro Pascoal, entre outros.

Porque o jornalismo é uma paixão que tem como auto-superação, a força do querer e crer, uma paixão que pode levar um indivíduo sem formação na área a tornar-se autêntica estrela (nessa área), é também com paixão, saudade, nostalgia e com uma lágrima no canto do olho (como diria Bonga), que me recordo e homenageio Abdul Carimo, Abel Faife, Pedro Tivane, Felisberto Matusse, António Muiambo, Boavida Funjua, Izidro Pascoal, entre outros. Esta recordação e homenagem têm como finalidade lembrar, sobretudo, os feitos daquelas figuras que de mãos dadas com o pessoal das oficinas, que de linotype em “punho” tornaram os caracteres escritos em robotroms e em outro tipo de máquinas manuais, fundidos em chumbo, tornavam os caracteres em informação para comunicar e formar. Vamos aos olhos do peixe de Carimo…

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