Retalhos e Farrapos: Momento de pausa  (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

CHINELOS gastos no pé, os passos de Joaquim são lentos, pois existe um arame em cada sola do calçado. Chão arranhado em cada pegada, a poeira levanta e pousa no chão que deixou. Camiseta húmida, o suor une o tecido e a pele. A 200 metros é possível sentir o cheiro que o jovem emite.

Os calções já foram pretos, hoje são cinzentos por aproximação.

No saco plástico preto que Joaquim segura na mão esquerda existem moedas, recebidas de pastelarias e casas nocturnas, um cartão de comprimidos cor de laranja e um guia médico, que na segunda-feira terá de levar ao posto médico.

Pausa, engole saliva e tosse. O líquido viscoso, amarelo esverdeado que sai da boca toca o chão e morre. Com o chinelo esmaga o que cuspiu, mas alguns restos da substância misturam-se com a areia e colam no calcanhar sofrido do recém-regressado da África do Sul.

Caminha, o corpo lhe dói e pausa. Fica por cinco minutos curvado, com as mãos pregadas nos joelhos. Tenta respirar fundo, tosse e umas gotas saem da boca sem permissão. Limpa a face, finge ter forças e começa a andar.

Em cada local que passa recorda a sua infância, recorda dos amigos, da bola de trapo (chingufo), dos berlindes, da fisga, do mundlerere e sorri. Mas de forma involuntária mais uma vez tosse.

Já está na sua rua, observa seus antigos vizinhos que deixou há 15 anos quando partiu para a terra prometida. Ninguém o reconhece, pois sabem que Joaquim é rico, tem duas esposas, seis filhos, quatro carros e é gerente de uma empresa na terra de Mandela.

Observa a casa, repara para o quintal, percebe que nada mudou, as panelas ainda continuam vazias pela manhã. Aproxima, num dos buracos da chapa de zinco observa a sua mãe a separar o feijão menos podre do mais podre. Hoje o almoço só vai sair às 18.00 horas, aquele feijão demora cozer.

Afina os olhos e amplia a imagem, agora observa os detalhes, repara que o quintal tem mais dispensas, e percebe que a mãe tem uma esperança. No rosto da velha, amarfanhado pelo tempo, ainda é possível visualizar um sorriso em cada feijão bom que encontra.

Uma jovem se aproxima de dona Amélia, grita e a velha pensa em calar, mas uma força interior move os seus lábios e oferece as respostas que a menininha merece escutar. Joaquim escutou tudo, mas uma passagem lhe comoveu: “Meu filho vai voltar, vai construir uma casa nova para mim e vocês vão ficar aqui sozinhos com as vossas misérias”, dizia a velha em xironga.

Joaquim pausa mais uma vez, tira olho do buraco da chapa e pensa em abandonar aquele local, mas dois braços fortes seguram-no com firmeza. Sem argumentos, cede e depois de instantes se vê no interior da residência que abandonou a procura de melhores condições no país do rand.

Nem um rand, nem xinkwa, aparelhagem, nem nada, só um plástico preto, uns chinelos gastos que deixam o seu pé praticamente descalço.

Força, Joaquim! Força, foi o álcool e as mulheres. Força, foram os vícios.

Enquanto Manuelito deixa o seu corpo no chão, Joaquim pensa na desculpa que vai dar, na explicação que pode recuperar o ânimo da mãe. Pensa em mil mentiras, pensa em dizer que é um estranho àquela casa, mas sabe que o coração materno não se engana.

Sem abrir a boca, dona Amélia solta um grito, derruba a peneira e a tigela. No chão já não é possível distinguir o feijão menos podre do mais podre. Joaquim baixa a cabeça. Olha para o solo húmido e com o cheiro de lama do quintal. Finge que está a colher os grãos caídos, mas de novo uma tosse agressiva toma-o de assalto, seu corpo vibra e além do líquido que sai da boca, uma gota aporta do olho e circula calmamente do rosto do aventureiro.

Sem palavras, sem argumentos, mãe e filhos fazem questões. Dona Amélia aproxima-se, ajoelha-se, segura o filho no colo, acaricia o seu rosto e respira sem ânimo. Joaquim deixa-se embalar pelo instante, tira uma lágrima seca e aproveita ao máximo aquele momento de pausa, que vai anteceder as explicações.

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