Consonâncias: A GARRAFA DE WHISKY  (Sauzande Jeque)

 

FOI na época em que havia falta de tudo em Moçambique. O nosso oásis em Tete era Songo, onde a Hidroeléctrica da Cahora Bassa possuía dois supermercados, que eram conhecidos por Super Velho e Super Novo. Estavam sempre recheados de produtos que já não existiam no mercado nacional. Eram, quase réplicas da Interfranca que havia em Maputo, embora as mercearias do Songo fossem exclusivas da HCB.

Para lá se deslocavam pessoas de todos os cantos da província e doutros pontos do país. Mas as compras eram condicionadas a uma autorização especial, designada por FITA. A fita era concedida apenas aos funcionários da hidroeléctrica e estes, por sua vez, ofereciam ou vendiam a fita aos necessitados que os assediavam com frequência.

Certo dia, um camionista valentão foi deixar mercadorias no Songo e de regresso teve a oportunidade de comprar, entre outras coisas, duas garrafas de Whisky velho. No controlo da Malowera havia proibição: Ninguém devia sair do Songo com mais de uma garrafa ou garrafão de bebida alcoólica.

Os polícias disseram ao homem que não devia levar duas garrafas de Whisky. Tinha que levar apenas uma e a outra ficaria retida no controlo. O homem tentou justificar que aquela era uma das pouquíssimas vezes que vinha ao Songo e não sabia quando é que seria a próxima visita, pelo que pedia indulgência. Fez saber que tinha uma vida muito penosa, coberta de perigos e aventuras, pois era o principal rebenta-minas nas viagens de Irão-Iraque (nome que se dava às colunas mensais militarizadas que faziam Tete-Beira e vice-versa). Com efeito, a coluna de camionetas escoltadas por militares era um verdadeiro tubo respiratório para aquela província do “hinterland”.

Mas, de nada serviu todo aquele arrazoado de valentia e heroísmo que o camionista tentava expor aos polícias de Malowera. Vendo que estava tudo perdido, o homem pegou na garrafa retida no controlo e sentenciou: “Está bem senhor polícia. Estou a ver que o problema aqui é a vossa garrafa. Eu vou beber o meu Whisky e deixo-vos a garrafa vazia”.

E tendo dito aquilo, o camionista abriu a garrafa e esvaziou o líquido nela contido e com a mesma genica que lhe era peculiar, desceu para o asfalto, meteu-se no camião e abalou em direcção à cidade de Tete.

Naquele mesmo instante a polícia telefonou para os colegas da cidade, alertando que estava a caminho um automobilista que acabava de ingerir uma garrafa inteira de Whisky velho. Prontamente, um agente de trânsito foi destacado para ir ao encontro do consumidor solitário. A meio do percurso, o homem teve o acompanhamento da Polícia até chegar à sua casa na capital da província.

O agente esperava que o motorista conduzisse o camião aos “zigue-zagues”; ou fizesse ultrapassagens perigosas. Mas nada disso aconteceu. E por falta de razões concretas, pois naquela época, bafómetro,aindaera um bicho desconhecido em Moçambique, o automobilista não sofreu quaisquer sanções.

Quando aquele engenho que contabiliza as quantidades de álcool no corpo foi inventado, começou a circular nas mãos dos agentes da lei e ordem, muitos pensavam que seria o fim da prevaricação dos embriagados na via pública. Mas os factos parecem indicar que muitas outras máquinas terão que ser inventadas, desta feita, para ajudar-nos a ter maior respeito para com as nossas próprias vidas.

Forte abraço.

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