NUM'VAL PENA: O gajo da Praça da Independência  (Leonel Abranches)

 

Estava imenso calor. Parecia até que que o dia do juízo final tinha chegado. Andava todo o mundo maldisposto.O sol tinha mesmo se instalado, de armas e bagagens, em Maputo. Justamente nesse infernal dia o meu pobre meio de transporte resolveu enguiçar: um dos pneus explodiu com um estrondo de acordar um morto. Ali junto à Praça da Independência. No meio da rua, ao sol e a 40 e picos graus centígrados. Roguei as maiores pragas e maldições ao maldito pneu. De nada valeram as pragas, pois o pneu jazia ali inerte, estúpido, ao sol e a… 40 e picos graus centígrados, olhando para mim matreiro e à espera da minha intervenção. Não havia maneira: decidi meter mãos à obra, havia que trocar o pneu rebelde e amotinado pelo sobressalente, quem sabe mais educado. Abri a bagageira e… espanto dos espantos: não havia roda sobressalente nenhuma, nem sequer o “macaco” estava lá. Tinham-nos surripiado não sei quando. Encolerizado, ensaiei um danado e portentoso pontapé no carro, de que resultou a queda do para-choques e a destruição total do sapato do pé direito e, pior, uma desnecessária e arreliante lesão no pé. O tal pé “pontapeante” do para-choques. E os sapatos que nem sequer tinham uma semana, haviam sido comprados a partir de um desvio de aplicação conseguido a ferro e fogo à minha vizinha de cama. Agora vejam lá o cenário: estava com um pneu explodido, sem sobressalente nem macaco, o para-choques destruído, um sapato totalmente desfeito, lesionado, zangado e debaixo de um abrasador sol a… 40 e picos graus! Podia haver maior azar?! Pois é, eu também estava convencido de que não podia haver pior. Mas estava redondamente enganado. O pior ainda estava por vir. A uns metros do “local do crime”, justamente no centro da Praça da Independência, estava um sujeito atento a todos os meus movimentos. Divertia-se com tudo o que acontecia comigo. Ria-se com estrondosas gargalhadas. Ante aquele homem gozão as minhas ventas ficaram mais vermelhas ainda de tanta fúria e raiva incontidas. Decidi pedir explicações ao tipo:

- “Sócio, você tá maluco ou quê?! Então um gajo tá aqui a passar mal e você se ri... definitivamente você não está bom, meu?”

 O tipo, calma e filosoficamente (por que será que os desparafusados têm queda para a filosofia e retórica?!), respondeu:

“Maluco é você. Divirto-me com o desnecessário sofrimento das pessoas que se julgam sãs, assim como você. Eu sou livre e independente como os animais selvagens, por isso estou no centro da Praça da Independência”.

Enquanto falava foi tomado de um estranho e epiléptico desejo de “streaptesear” e desfez-se da pouca roupa que tinha e, ante o espanto geral, ficou totalmente nu, assim tipo Adão, mas sem Eva. Deitou-se de costas no quentíssimo chão de pedra e tranquilamente pôs-se a ler pedaços do Suplemento Económico do “Notícias”. Na maior das serenidades olhou de soslaio para mim, esboçou um sorriso seco, mostrando filas desregradas de dentes amarelecidos e perguntou: “Agora diga-me, caro senhor, quem é pior entre nós? Eu, deitado nu ao sol, ou o senhor falando imbecilmente com um carro, aleijado, sem um sapato e ao sol?”.

Nãorespondi.

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