NUM'VAL PENA: Bulatifull (Leonel Abranches)

 

 

Encontrei-o por acaso. Cumprimentou-me efusivamente. O dia caminhava para o seu ocaso por isso não percebi de imediato que se tratava de Bulatifull, um amigo de longa data. Nunca soube qual era o seu verdadeiro nome, nem sequer sabia da sua família, mas era daqueles gajos que fazia parte da minha rotina, simplório e sem “nhenhenças”, bom de anedotas e, por isso, irradiava sempre boa disposição. Aliás, o nome pelo qual o conhecia surge do facto de na altura invariavelmente terminar as suas frases com a pejoração “bulatifull”.  De repente, na fronteira entre os anos oitenta e noventa, Bulatifull desapareceu. Sumiu e nunca mais ninguém o viu. Passaram-se os anos tenebrosos da guerra civil e eis que nos chega a notícia de que o rapaz fora capturado algures, de onde passou a frequentar os palcos da guerra com o uniforme e ideologia da tropa de Afonso Dhlakama. Nada mais sabíamos. Nem era razoável procurar saber. Eis então que Bulatifull reaparece mais de vinte anos depois. Mais magro, dir-se-ia mesmo caquético, mas com a barba e cabelo soberanamente disciplinados e solenemente vestido.

- Tás bem rapaz? - saudou-me com um notável distanciamento etário. Então eu já era “rapaz”?

-Estou bem amigo. Sempre na selva da sobrevivência -  respondi tentando encurtar a distância personificada pelo termo “rapaz”.

-Então o que é feito de ti meu rapaz? O que fazes na vida jovem? - ora bolas, Bulatifull, meu companheiro da geração rasca dos anos oitenta e noventa, estava com manias de grandeza e insistia em coisificar-me. Decidi fazer-lhe o jogo:

- Nada de novo senhor Bulatifull. O mesmo de sempre. Tentar enganar a pobreza.

Bulatifull não deve ter gostado do meu cinismo verbal e começou com um chorrilho de insinuações políticas:

- Qual enganar a pobreza, qual quê!! Você sabe o que é pobreza? Vocês machanganas não me enganam. Pensam que este país é vosso?! A revolução chegou.

-Mas...Bulatifull não percebo porque te enervas, não disse nada para te ofender, até porque nem sou machangana...”

- Vatalixar pá! É tudo mesma cambada de convencidos - rosnou e sacou do bolso um maço de cigarros Pal Mall. Com um toque subtil com dedo indicador tirou um cigarro e acendeu-o com as mãos trémulas e nervosas. Preocupado tentei convencê-lo que não era intenção minha fazer uma abordagem de cariz política e nem sequer étnica.

- Deixa de dramas você também pá! Mas, diz-me, sumiste meu amigo, por onde andaste?- virei o jogo.

- Não desvia as atenções jovem. Não sou da tua laia. Já não sou o mesmo. Fartei-me. O meu sacrifício não pode ter sido em vão...” -  e desabotoou a camisa para mostrar nas costas cicatrizes horrendas. O homem estava marcado por terríveis sulcos nas costas, marcas de violência extrema que deduzi provocadas por arma de fogo.

- Epa, o que aconteceu contigo?! - indaguei arrepiado.

- Não interessa, vais mudar o quê?! - E puxou sofregadamente o cigarro enchendo os pulmões de fumo mas também de raiva incontida.

- Agora ando na política. Quero mudar o destino deste país. Mas também sou pastor de uma igreja em Nkobe. Os meus compatriotas andam tresmalhados e abandonados. Eu vou salva-los da ira do Diabo.

Definitivamente Bulatifull estava transtornado.  

-Vem ao meu templo jovem amigo. Com o poder do fogo vou te salvar das garras do mal e das trevas. Você está no abismo.

- Olha-lá, qual é a tua agora? porque diabo você acha que estou no abismo?! Vira essa boca pra lá! - retorqui irritado, mas também assustado.

- Eu sou profeta rapaz e vejo que o teu presente e futuro são sombrios...

Pensei para com os meus botões: “o que está a acontecer com este país?! De repente cirandam por aí muitos pastores, profetas e quejandos! Uma autêntica praga de charlatães  pelo país fora ridiculariza toda uma sociedade. Até Bulatifull decidiu ser pastor e acredita piamente que tem uma relação de amizade e parentesco com Jesus Cristo e a sua malta de anjos.  Pensava ainda para mim mesmo quando Bulatifull decidiu continuar a pregar um testemunho que se confundia entre política, etnia e religião.

- Quero que os machanganas percebam que este país também tem outras sensibilidades étnicas e políticas e para isso devem se submeter aos poderes do espírito de Deus encarnado em mim.... 

Despedi-me do meu amigo com um longo e sincero abraço. Dei dois passos, parei e virei-me olhando-o com um sorriso matreiro:

- Bulatifull, você se esqueceu que é machangana?!

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