NUM'VAL PENA: Sociedade globalizada e dolarizada (Leonel Abranches)

 

ÀS vezes me espanto comigo mesmo. Meto-me a falar de assunto de que entendo pouco ou mesmo patavina. Apalpo terrenos, alguns lamacentos e escorregadios, ainda que a crítica, muitas vezes sincera, mas também às vezes cínica e tacanha, me encha de palmadinhas nas costas.

Tentarei apenas olhar para o caso particular da “invasão” da nossa privacidade comunitária e da moeda convertível na nossa sociedade, como resultado, penso eu, do quadro doentio e de pobreza em que vivemos.

A contínua política de mão estendida torna-nos dependentes de instituições financeiras, que aterram no nosso sagrado solo com planos brilhantes, mas nem sempre práticos, pois os chamados programas de socorro financeiro em países em crise deixam a desejar, na medida em que socorrem a economia, mas não protegem os pobres e são eles quem mais sofre com as consequências de qualquer crise económica.

Sem eufemismos e falsas modéstias: o Terceiro Mundo está a ser neocolonizado. Infelizmente. Porque a população mundial, principalmente “malta nós”, nos dias actuais está envolta na teia da globalização, esse fenómeno que invade fronteiras, modifica costumes, constrói e (sobretudo) destrói mercados, com a sua nova dinâmica. A nossa sociedade, a moçambicana, não foge à regra.

Começa então aquela procissão deselegante e socialmente desestruturante: ao mesmo tempo que cresce a desigualdade social das populações, o Estado-nação vai ficando cada vez mais debilitado, perdendo as suas mais nobres funções, começando com a dominação económica através das "ajudas" das instituições financeiras e de países ricos. O Estado-nação perde a sua própria identidade, daí o triste cenário em que abrimos o jornal e os anúncios dolosamente, e sobretudo “dolarmente”, nos indicam que perdemos o sentido nacionalista. Já não somos donos de nós mesmos. Temos as almas por emprestado. Sob o pretexto da integração internacional, fazemos parte de conglomerados transnacionais poderosos que nos comandam e descomandam, decidindo sobre câmbio, taxas de juros, rendimento de poupança, dos investimentos, definhando cada vez mais ainda a nossa moeda. Enfim, decidindo e definhando a nossa vida. E com a identidade pervertida e revertida.

Longe vão os tempos em que a cultura, a economia e a política só existiam em razão do seu território. Portanto, o território pertencia aos seus moradores, criava-se uma identidade entre as pessoas e o seu espaço geográfico. Formava-se um conjunto indissociável entre a política, economia, cultura, criando-se a grata ideia de comunidade. Infelizmente, a globalização marca de forma mercenária a ruptura desse processo de identidade entre território e comunidade. Nós já não somos uma comunidade, estamos ao serviço dos mais fortes. E isso não é mau apenas para nós. É mau para todos. Para eles também.

Como inverter este cenário?

Nem eu sei.

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