Dialogando : Solidariedade sim, oportunismo não! (Mouzinho de Albuquerque)
TALVEZcomeçar citando uma académica portuguesa que disse “a solidariedade a Moçambique não pode ser apenas um ímpeto imediato, enquanto a TV mostra as imagens da tragédia. A ajuda a Moçambique deve traduzir-se na mobilização de recursos para estarem no terreno meses e anos”.
De facto, pode-se falar ou dizer tantas palavras que aparentam ser bonitas, à volta da tragédia causada pelo ciclone Idai, chuvas e cheias, na zona centro do país, o que Moçambique precisa neste momento é, efectivamente, o que a académica disse. Ainda bem que essa mobilização está a acontecer através da solidariedade nacional e internacional.
Até porque é salutar e prestigiante notar sobretudo, a demonstração de solidariedade entre moçambicanos, através de acções de ofertas individuais, colectivas, empresariais e outras perante tamanha catástrofe natural de que há memória neste país.
A solidariedade nacional torna-se ainda mais necessária e prestigiante quando se sabe que, mais uma vez, uniu a todos os cidadãos deste país, do Rovuma ao Maputo, e do Zumbo ao Índico, na solução dos grandes problemas criados, particularmente por aquele ciclone na cidade da Beira.
Aliás, é indesmentível ou está provado que mais do que nunca, os moçambicanos sempre são e foram solidários uns aos outros, quando são chamados a responder de forma unida, situações calamitosas que lhes atingem como esta de ciclone Idai. Porque, na realidade, juntos é que alcançaremos os nossos objectivos num problema trágico como este.
Também as autoridades governamentais estão a fazer o trabalho que lhes cabe, tal como os órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros para a mitigação dos efeitos nefastos desta calamidade natural. É igualmente salutar notar a aparente falta do aproveitamento político da tragédia, como tem acontecido na nossa pátria quando se registam este tipo de acontecimentos.
Mas, queremos chamar a atenção para um facto relevante e que não deve ser esquecido, que é o rigor na gestão dos dinheiros, alimentos e outros bens que estão sendo doados pela comunidade nacional e internacional, para que esses donativos cheguem às pessoas que realmente estão a sofrer, isto é, às verdadeiras vítimas da tragédia. Um dos grandes problemas que enfrentamos neste país é a má gestão da coisa pública e não só.
A nossa chamada de atenção é no sentido de que, em função disso, as entidades fiscalizadoras da recepção e distribuição dos donativos para as vítimas do desastre da zona centro, devem reposicionar-se e saber desempenhar o seu papel.
Acreditamos que as autoridades moçambicanas reconhecem a necessidade de rigor que deve haver na gestão das ajudas, numa altura em que o país procura “arrefecer-se” dos graves problemas criados pelas dívidas ocultas, afigura-se como algo incontornável, para que de facto Moçambique dê mostras de ser um país exemplar na não só na valorização da gestão da coisa pública, como de outras, neste caso das ajudas para as vítimas desta tragédia.
O que fazemos ou estamos a dizer aqui, pode ser uma gota no oceano, mas pode ajudar para que haja (caso possa não haver) fiscalização com maior acutilância, gestão mais correcta, transparente, responsável e consciente desses donativos. Não fazemos estes comentários com outros objectivos, mas sim pelo incansável desejo de ver a nação moçambicana crescer, verdadeiramente, tanto do ponto de vista económico, quanto social, passando pelo expurgar dos corruptos e oportunistas que atrasam esse crescimento.
Aliás, este é um esforço que diz respeito a todos nós, para que possamos fazer o nosso país constar entre os que primam pela transparência, credibilidade e eficiência na gestão, neste caso, dos dinheiros, alimentos e outras coisas destinados às verdadeiras vítimas do ciclone Idai, chuvas e cheias na zona centro de Moçambique.
E isso passa necessariamente pelo sancionamento severo, dos que eventualmente possam se envolver nos esquemas de desvio das ajudas. O que se sabe é que por exemplo, durante a guerra de dezasseis anos, alguns cidadãos, sobretudo dirigentes oportunistas e sem escrúpulos, chegaram a ser detidos, julgados e condenados, por envolvimento no desvio de produtos de emergência. Na altura falava-se tanto sobre a disponibilidade de produtos de emergência, doados principalmente pela comunidade internacional, mas, do que se tem conhecimento é que grande parte desses produtos não chegava aos que verdadeiramente sofriam nos centros de deslocados de guerra criados pelo governo.
Pode ser muito ou pouco dinheiro que está a ser doado, podem ser grandes ou poucas quantidades de produtos alimentares e outros bens que estão a ser disponibilizados no âmbito da solidariedade nacional e internacional, para zona centro do país, e que estão a ser canalizados através da Instituto Nacional de Gestão de Calamidade, Cruz Vermelha de Moçambique e outras vias, acima de tudo, o mais importante é que não haja oportunismo neste processo, como tem sido, que prejudique aos necessitados e a recuperação das infra-estruturas sociais e económicas destruídas.
