RETALHOS E FARRAPOS:  Às vezes sinto  (Hélio Nguane)

 

HOJE não queria escrever. Acordei cansada, sem moral, sem forças para pegar na caneta e dizer o que estou a sentir. Sei que ninguém lê o meu caderno, guardo sempre na bolsa, escondo, para que ninguém veja.

Mas hoje acordei com dores. Meu corpo dói de prazer, nem sei como matar o que estou a sentir. Minha patroa olhou para mim e perguntou?

- Flávia, o que estás a sentir?

Olhei para a senhora, fiquei sem palavras. Não sabia o que dizer. Na verdade é que já não quero. Pensei que daria certo, mas hoje já não dá certo. Já sei que não ficaremos juntos, ele só quer transpirar, esquecer os problemas do trabalho.

Estraguei o vestido da patroa

Apesar de saber que não estaremos juntos, só penso nele. Minha vida sem Alfredo não faz sentido. Mas não podemos ficar juntos, ele tem esposa, tem filhos e é feliz. Mas é mais feliz quando está comigo.

Há dias, veio ao meu quarto, de fato, grava e tudo. Transpirou. A gravada ficou com poeira. O fato ficou meio sujo, mas no dia seguinte lavei com carinho.

O ferro está quente. Às vezes quando lhe vejo perto da esposa minha cabeça fica quente, penso em contar tudo: dizer que ele também é meu. Que é carinhoso e até me compra coisas. Por exemplo, antes de ontem me deu um vestido, mais bonito que este que estou a engomar. Depois de me oferecer, pediu para que vestisse, despiu-me pessoalmente e… nem sei se dá para escrever.

- Flávia! Flávia! Flávia! Flávia, o meu vestido!

- Desculpa, patroa.

- Não há desculpas, vou descontar no seu salário.

Já não somos dois

Ontem entreguei o meu corpo, vibrei como nunca vibrava, ele transpirou como nunca transpirava. Foi bom, repetimos vezes sem conta. Depois ficamos deitados sem forças. Mas uma vez, prometeu deixar a esposa. Escutei. Levantei, vesti cada peça de roupa que ele despiu, arrumei-me, sentei-me e disse: “Esta foi a última vez, acabou!”.

Alfredo escutou, baixou a cabeça, fingiu entender, mas da forma que seu corpo estava satisfeito nenhuma palavra estragaria aquele momento. No segundo dia tentou, neguei. Depois de um mês, percebeu que era uma decisão sem retorno.

Aumentou o meu salário, ofereceu-me mais presentes. Recusei os que pude e disse sem pestanejar: “Já tenho outro emprego, receberei menos, mas estarei longe de ti. Amanhã será o meu último dia”.

Alfredo olhou-me com atenção, disse que não havia problemas e convidou-me para beber. Fiquei tonta. Mas percebi que ele estava firme, bem firme. Segurou-me a salivar. Sem reacção, neguei.

E hoje?

Hoje não queria escrever. Acordei cansada, sem moral, sem forças para pegar na caneta e dizer o que estou a sentir. Acho que um dia já escrevi isso. Passam-se três anos desde o dia que deixei aquela casa. Até hoje ainda sofro. Alfredo hoje está gordo, vi-lhe. Ganhei coragem e fui lhe visitar pela primeira vez. O guarda me conduziu, olhei para aqueles prisioneiros famintos de desejo, a olharem-me com o mesmo apetite que a três anos tudo aconteceu.

Entreolhámo-nos e no fim, sem movermos os lábios, ele segurou minha mão e disse: “Ainda sentes dores?”

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