PERCEPÇÕES: “A partir de hoje sou Mustafá Arufo Saíde” (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)
MEU caro amigo:
A decisão é exclusivamente tua. Porém, não concordo tanto com as razõesque te levam a mudar de nome.
Ainda na fase embrionária, os teus pais “baptizaram-te” com um nome, através do qual cumpriste as diferentes metamorfoses da vida.
Sucessivamente, nasceste, cresceste, estudaste, contraíste o santo matrimónio, do qual resultaram uns tantos rebentos. Não conheço os teus filhos, mas sei que eles têm o mínimo para a sua sobrevivência. Aliás, tu te esforças muito nesse sentido. Sei disso.
Lembro-me de um dia, em plena cavaqueira, me teres confidenciado que precisavas de mudar do teu estilo de vida. Disseste-me que precisavas de corrigir alguns comportamentos que concorriam para o teu empobrecimento: a poligamia, as arruaças nocturnas caracterizadas, regra geral, pelo consumo abusivo de bebidas alcoólicas, jogo das escondidas, entre outras brincadeiras. Disseste-me ainda que a melhor forma de poupar dinheiro, preservar a tua saúde,que já beira os 50 anos,e prestar mais atenção à família, olha que já tens netos, seria renunciar àbebedeira, sem prejuízodeconsumir, com certa “conta, peso e medida” uma tacinha de vinho, não zurrapa, claro, e que aos domingos, se não fosses ao trabalho, irias à Igreja para te livrares de todos os males. Segredaste-me que tal mudança não seria tarefa fácil, a julgar pela lista enorme de amigos que tens e que, salvo um e outro, muitos não concordariam contigo.
Como amigo, concordei contigo e encorajei-te no sentido de seres tu, e mais ninguém, a decidir pelo destino da tua vida, mesmo tendo presente o velho ditado segundo o qual os amigos são para ocasiões.
Decididamente avançaste. Reduziste,em grande medida,o consumo do álcool, não sei se terás passado ou não pelo consumo de outras substâncias psicotrópicas, mas creio que não, deixaste de ser noctívago e, segundo me confessaste, só não vais àigreja aos domingos em razão dos teus afazeres profissionais. Compreendi-te.
Mas, amigo, tu me surpreendeste, num desses dias, ao me dizeres que,não obstante a diminuição de certos vícios como o álcool, o tabaco e elas, nada estava a melhorar na tua vida. Contaste-me tudo isto, demonstrando nostalgia da vida mundana que, aliás, tanto a adoravas.
Em tempo certo, desmenti-te,de forma categórica,e aconselhei-te a primares por uma vida regrada para o teu bem e para o bem dos teus dependentes. A boémia não é boa coisa.
Amigo, como disse antes, só tu e mais ninguém deve traçar o rumo da tua vida. Mas permita-me não concordar contigo quando me dizes que de hoje em diante deixas de usar o nome do baptismo, porque azarado, e adoptas o islâmico, Mustafá Arufo Saíde.
Na verdade, não tenho nada contra o islamismo. É uma religião tal como o cristianismo ou qualquer outra. Respeito-a.
Não concordo é, tão somente, com as razõesque te levam a mudar de nome e, por via disso, “abraçar” o islamismo.
Dizes que no cristianismo és cada vez mais paupérrimo e que não encontras nenhuma possibilidade de prosperar na vida. Estás sempre “txonado” e sem perspectivas de uma vida melhor. Será isso verdade?
Dizes que no islamismo encontrarás tais possibilidades porque os professantes desta religião são muito unidos e nutridos do espírito de entreajuda. Não discuto isso, apesar de conhecer muitos muçulmanos, alguns dos quais amigos, na travessia do deserto da vida.
E mais: mudas de religião por convicção ou porque lá para onde vais procuras a riqueza?
Se for por convicção, respeito, e a partir de hoje chamo-te Mustafá Arune Saíde mas,se for pela “caça” da riqueza, irmão, jamais assim te chamarei.
Chamei-te, chamo-te e continuarei a chamar-te, para todo o sempre, pelo nome através do qual te conheço desde a infância..
Até para a semana!


