De vez em quando:  Matsena estava morto   (Alfredo Macaringue)

 

 

O MEU amigo não deixa de ser surpreendente. Uma vez mais,  ligou-me ontem de manhã a partir de Nhamatanda, Sofala, dizendo-me que estava a monitorar a situação. Disse-me que se sente na obrigação de fazer isso para homenagear todos àqueles que estão empenhados em enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Concordei com ele, sem no entanto, esconder a vontade de rir que me assolou, quando afirmou que estava “a monitorar a situação”.

Independentemente de tudo, pode ser que o meu amigo até tenha razão, porque no meio da dor, nós os outros que estamos vivos e bem, temos que nos manter firmes para a superação. O sentido de humor não pode faltar senão sucumbimos todos, é assim como Matsena me dizia. Disse-me também, ao telefone, socorrendo-se do seu sentido de humor, que lhe apeteceu perguntar ao presidente Chissano porquê  não levou consigo a Rosita, na visita que efectuou aos afectados.  Pois, ela seria o símbolo de uma criança (agora mulher) que, tendo nascido em plena árvore, sobreviveu às cheias de 2000 em Chihaquelane.

Se a Rosita sobreviveu, nós também podemos sobreviver. Matsena ainda lembrou-me a visita que a mãe da Rosita e seu bebé, na altura, fizeram ao Palácio da Ponta Vermelha. Depois do discurso de cortesia, Chissano propôs um tchim-tchim à mãe da Rosita, e esta, impreparada nesses protocolos, pegou no copo de sumo e virou goela à baixo sem o antecipado tilintar dos copos que seria da praxe. Gelou o ambiente!

O presidente Chissano, talhado em diplomacias, teve que corrigir suavemente o transtorno, dizendo, nada mamã, antes de matarmos a sede temos que bater os copos assim. E, na verdade, tudo voltou ao normal, aliás nada estava estragado.

Matsena é que me lembrou este episódio, falando ao telefone bem humorado. Disse-me que não tinha nada para me dizer, apenas queria me saudar. Perguntou-me ainda se a mamã Graça que viu na televisão é mesmo a mesma mamã Graça dos nossos tempos ? Eu respondi que sim, que é a nossa mamã Graça. Matsena disse que não, porque a mamã Graça não tem cabelo branco. Rimo-nos à farta os dois. Com muita graça. Mas para fechar este filme eu disse assim ao Matsena: Olha brada, os tempos mudam. Esta é a mamã Graça de hoje, não é aquela de ontem que não tinha cabelo branco.

Antes de desligar Matsena veio-me com a “última incabável de um gajo”: sabes, mano Maca, quando falei contigo na semana passada, eu acabava de voltar do inferno. Tinha sido arrastado pelas águas numa distância de mais de vinte quilómetros sem sentir nada. Quando recolheram os mortos eu estava entre eles. Acordei quando estavam para me meter no caixão. Até hoje não acredito nisso, eu próprio. As pessoas é que me contam!

Apesar de tudo isso, segundo as próprias palavras de Matsena, o importante é que estamos vivos. “Vamos viver, meu irmão, o resto é cantiga”.

A Luta Continua!

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