Sigarowane:  E cortarias o bolo dos vinte  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

 

TREZE de Maio: celebro esta data desde que me conheço. Dou parabéns a você, que nessa data a minha avó deu à luz um gracioso rebento. Que cresceria, gozaria a adolescência. Gozaria a juventude, a fase adulta e uma terceira idade bem longa para o seu tempo. Para as possibilidades que se colocavam nesse presente dos anos vinte. E então desposa aquela que lhe daria o orgulho de dizer que “sou pai”. Pai cujos filhos, por vocação dele e da mãe, seguiriam o catolicismo com os primeiros sacramentos cristãos ainda em apenas meses de vida. E assim cresceriam e  viveriam o catolicismo. Participariam de peregrinações à Fátima nos peitos da Namaacha.

Cantava-se então o “a treze de Maio na cova de…”. Não sabiam do sentido que aquele acto podia ter para as suas vidas. Mas que era animado e dava para o gozo e para novos conhecimentos de que se ficava com os endereços postais para correspondência futura, isso sim.

Selavam-se grandes amizades desse convívio distante por meio de cartas despachadas pelo correio. Procurava-se nelas o perfume sonhado de uma alma distante. De uma alma amiga e por isso mesmo querida. Depois eram as visitas a distâncias monstras para matar a saudade. A pé ou de bicicleta, para poucos eleitos cujos pais traziam-nas do país vizinho no final de cada contrato na indústria extractiva que muito desenvolveu a zona sul do país. Também a agricultura comercial desses vizinhos influiu no alargamento das escolhas dessa grande nação tsonga. Alguns ainda podiam fazer essas visitas de motorizadas tipo Floreta ou Zundap. Estes então adoçavam ainda mais os corações das irmãs, das vizinhas dos amigos visitados. E acontecia que tempos depois elas apareciam de umbigos esticados. Bem esticados. Outras eram levadas ao altar para o sacramento do matrimonial. E era festa nesse dia. Festa na aldeia toda em que ninguém podia deixar de ir “comer” casamento.

Afinal as peregrinações à Fátima resultavam em alegria. Em construção de famílias. De verdadeiros irmãos em Cristo.

Isto, de certeza, aconteceu em outros muitos lugares deste país que podiam ser penetrado sem receios de nada. Sem medos e preconceitos de ter nascido aqui ou acolá. Era uma terra que, com muito prazer, se deixava penetrar e depois disso se orgulhava e muito.

Passei então a ter mais um motivo para o treze de Maio. Por volta das dez horas da manhã desse dia, estava sentado em um banco na maternidade do Hospital Central de Maputo sem saber do que seria o resultado do trabalho de parto em processo. E… seria naquele dia, naquela manhã de treze de Maio, que viria á luz de dia o neto daquele que celebrava o seu nascimento nessa data. E estava fechado o ciclo, que nas anteriores três gerações não se passou do número três.

Quis a natureza, e não sei porquê, que não tivesse a sorte ou o azar do pai. Tão pouco do avô, que por muitos anos continuasse a peregrinar neste mundo para a alegria dos pais. Mas talvez isso seja egoísmo da parte deles: há de estar num jardim e a dizer “pai não fiques triste. Estou num belo jardim. A saborear frutas mais suculentas do que as tuas. Continue com o seu combate. O meu terminou. Tenho a minha coroação”. É isto que estou ouvindo agora da boca do Júnior. Da boca daquele que partiu sem que tivesse podido dizer “pai”. Minto. Ele dizia-o de forma muito singular. Éramos seus enfeitiçantes abraços muito prolongados com os nossos corações em comunicação. Era o seu sorriso exageradamente sedutor. Era com estes gestos que dizia “pai, eu te amo. O que a minha boca não exprime, fazem-no estes gestos. Amo-te pai”. Era assim. E é assim. Amor.

Foi em  um dia treze do quinto mês do último século que vieste ao mundo para uma missão não revelada e no décimo oitavo ano deste século partires em chamamento do criador. E então, resta-me ir depor uma flor, na verdade será muito mais do que uma, na tua eterna morada.

São nove horas da manhã e o destino é Lhanguene. O trânsito flui normalmente e em pouco tempo, estou no local. Acompanham-me duas primas. A tua ama, que continua presente e nos faz lembrarmos de ti. Os moços que assistem as famílias a troco de algum dinheiro, já se apressaram a lavar a campo. A limpar os vasos.

Colocamos as flores nos vasos sobre a tua casa. Nos vasos á volta da tua casa e fizemos uma oração para que o Senhor receba a tua alma e a guarde no seu reino, Júnior.

E cortarias o bolo dos vinte.

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