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Categoria: Opinião & Análise
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Retalhos e Farrapos:  Ontem foi o meu aniversário  (Hélio Nguane)

 

AINDA tem memória do dia que passou. Em casa, com calma, senhor Glória abre a caixa, canta parabéns para si mesmo. E adormece.

Ontem

“Acordei para alguns aspectos da minha vida, tenho de mudar. Tenho de mudar, tenho de mudar, tenho de mudar, tenho de mudar...”, repetia senhor Glória, enquanto sentia a brisa das 7.00 horas.

Organizou os papéis, cartolinas e caixas que usa como cama. Dobrou mais de quatro vezes e arquivou num canto escondido do muro que lhe protege contra os ventos que sopram a Sul. À leste do que vai fazer, colocou-se a andar.

Caminhou por aproximadamente uma hora, sem rumo. Tropeçou por duas ocasiões, pois o álcool que ontem consumiu ainda tem o mesmo efeito, a mesma força, a mesma raiva, que torna os caminhos tortos e o chão irregular.

Pausou, meteu as mãos nos calções rotos e nada encontrou, se não areia. Observou o sólido e uma certeza solidificou-se. Tentou lutar contra, mas os gritos do estômago obrigaram-lhe a tomar uma decisão: meter algo na boca para enganar a fome.

Come a areia do bolso, agacha e leva mais areia, engole sem sentir o sabor, mas que sabor tem a terra? O odor dos mortos, a saliva dos enjoados, os detritos dos animais e a impureza da morte.

Anda por mais cinco minutos. Pausa, a fome não se estanca, permanece, não quer calar, são necessários mais argumentos para vencer este animal pujante que morde o interior do ventre do senhor glória.

“Vai! Vai, engole o orgulho? Mate este sentimento e faz nascer coragem. Vai, Glória?”, dizia enquanto se aproxima de um contentor.

Procurar por fora não bastava, então, entra, procura por joias, pérolas entre o lixo. As moscas por vezes pairam e atrapalham a sua concentração, mas o homem tem um propósito, foco na sua missão.

Alimenta a coragem, continua firme na incursão. Mete alguns sólidos na boca, mata a fome, agora quer uma sobremesa, algo especial para complementar a sua procura. Encontra uma caixa, abre e vê alguns retalhos de bolo e duas fatias completas. Agradece a falta de apetite de uns e celebra a sobremesa.

Limpa o dedo indicador nos calções sujos e começa a lamber o creme que cobre o papelão. Come uma fatia com gosto, pega na grande caixa e leva para casa. No caminho recebe alguns líquidos alcoólicos, fica tonto, embriaga-se, mas a caixa mantém-se firme.

Recolhe mais lixo, vende algumas latas de cerveja e refrigerantes e ganha alguns trocados, que reforçam a dose alcoólicas que vai consumir.