JÁlá vão 30 dias desde que o ciclone Idai passou por aqui a fazer das suas e a mostrar toda a sua força e toda a força da ″mãe-natureza″. Uma força até ai nunca vista por estas paragens.

Passam, pois, pouco mais de 30 dias depois daquele fatídico 14 de Março que continua a ser tema de todas as conversas no dia-a-dia das pessoas.

Aliás, essa tendência só se vai manter, tanto que as marcas do ciclone ainda estão bem estampadas por todos os locais à nossa volta.

Inevitável, por conseguinte, não voltar a abordá-lo nestas linhas quando, por exemplo, muitos compatriotas continuam sem acesso à energia eléctrica, na estrada,muitos semáforos ainda estão fora de uso, quando a chuva que cai, amiúde, ainda perpetua a desgraça das pessoas penetrando nas suas casas, quando, enfim, o “Idai”continua a sacrificar as suas vítimas.

Na passada segunda-feira começou o recenseamento para as eleições gerais de 15 de Outubro próximo em todo o território nacional.

E quando, nas nossas lides jornalísticas, parecia que as abordagens voltariam a ser apenas sobre o censo em si, tipo afluência das pessoas, necessidade de mais ou menos educação cívica, eis que somos surpreendidos com a situação de compatriotas que afinal vão aos postos registar-se de novo porque… o “Idai”levou consigo os seus cartões de eleitores. E juntamente com outros documentos!

E outros documentos pode significar Bilhete de Identidade, Cédula Pessoal, Certidão de Nascimento, Carta de Condução, Passaporte por ai fora.

Ou seja, um cidadão até pode ter perdido tudo isso de uma só vez. E ai? Por onde começar?

Nesta semana, uma autoridade dos Serviços de Identificação Civil informou-nos que apenas um posto estava a emitir Bilhetes de Identidade na cidade da Beira.

Os restantes quatro, incluindo o posto-sede, na baixa da cidade, não estão a funcionar porque o maldito ciclone destruiu os edifícios e ainda nem energia eléctrica têm!

Estamos então a falar de uma outra natureza de danos que podem ter acontecido na vida das pessoas fora dos já conhecidos casos de casas, paredes, viaturas, vidros, janelas e outros destruídos!

Todos sabemos que o cidadão, sem Bilhete de Identidade, está privado de tramitar toda uma série de processos inerentes à sua vida pessoal. Pior ainda num momento de recomeço como este.

Inevitável, como digo, não voltar a falar do Idai aqui neste espaço porque, mais de 30 dias depois, sempre que nos encontremos com alguém diferente, a conversa volta a ser o ciclone e cada um tem uma história diferente a contar.

Cada vítima é uma história. Cada um foi vitimado de forma diferente, o certo é que, de facto, todos foram vitimados, todos menos ninguém.

E as histórias também vão caindo ou sendo narradas por cada um conforme viveu ou sentiu.

Ainda ontem, um vizinho meu contava-me que a sua antena parabólica, que julgava ter voado para parte incerta, foi achada pelo seu filho nas cercanias da casa, numa altura, portanto, em que o homem já preparava outros orçamentos para repor a ″engenhoca″ dada como perdida!

A história da passagem do “Idai”tem contornos que vão levar muito tempo a serem narrados.

É que, cada vitima tem a sua. E, se somos milhões, imagine-se quantas histórias temos. Fora daquelas que nunca serão conhecidas porque desapareceram com os seus narradores principais! 

Eliseu Bento

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PERCEPÇÕES:  Hoje não há história  (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

HOJE não há nenhuma história.

Quero simplesmente transmitir uma saudação especial aos deputados da Assembleia da República por, finalmente, terem aprovado, em definitivo, o pacote sobre a governação descentralizada.

Trata-se de um instrumento que visa organizar a participação dos cidadãos na solução dos problemas próprios da sua comunidade e promover o desenvolvimento local, o aprofundamento e a consolidação da democracia, no quadro da unidade do Estado. O mérito desta descentralização assenta na iniciativa e na capacidade das populações actuando em estreita colaboração com as organizações de participação dos cidadãos.

Naturalmente que os consensos alcançados em torno desta matéria podem não agradar a todos mas, uma coisa é certa, o pacote abre alas para a inauguração de uma nova era democrática no país.

O pacote ora aprovado insere inovações, por exemplo, quanto àeleição do governador provincial. Tal facto, nunca aconteceu na história da jovem democracia moçambicana. Cria também a figura de secretário de Estado provincial, entre várias outras normas.

E quais são essas normas? Eis a questão.

São inovações que,tratando de matérias muito sensíveis,devem ser divulgadas para o conhecimento e domínio popular,afinal, todos nós, como moçambicanos, somos chamados a erguer este edifício que se chama democracia, à nossa maneira.

A aprovação do pacote sobre a governação descentralizada, associada àrápida entrega da lista nominal dos homens residuais da Renamo para a sua integração nas Forças de Defesa e Segurança constituem oxigénio para que,a breve trecho,os moçambicanos se sentem à mesma mesa fumando o cachimbo da paz.

Já o fizeram por várias vezes e, por várias vezes, esse mesmo cachimbo se apagou. A palavra paz é a que mais se pronuncia em discursos políticos no país, porém, a que menos observada.

Desta vez esperamos que a sua chama se mantenha viva.

Feliz Páscoa a todos os moçambicanos.

Até para a semana!

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DE VEZ EM QUANDO:  Exaltemos Joaquim Chissano !  (Alfredo Macaringue)

 

JOAQUIM Chissano parece ser alguém trazido ao mundo para progredir sempre. A sua nomeação para presidente do Comité Internacional Consultivo do Instituto China-África não é, com certeza, um presente que lhe foi dado de bandeja. Resulta de um percurso que o homem de Malehice vem trilhando sobre todas as adversidades. Lembro-me, por exemplo, que já foi insultado uma vez pelos madjermans, quando era presidente da República, durante uma marcha do 1.º de Maio, e ele – o “Chissas” – no lugar de mandar prender os injuriadores, deu-lhes os “trocos” de forma diplomática. Mostrou que qualquer problema pode ser resolvido pelas palavras. Sem precisar de recorrer às armas ou às algemas da Polícia.

Sem dúvida que estamos perante uma figura de facto. E uma das coisas que vão manter-lhe na roda do mundo, é a visão, a calma e a paciência. As “manhas” também, porque os diplomatas quando estão encurralados, não perdem a oportunidade de usar a manhosidade.

Mas sempre no sentido de que tudo tem de acabar bem. Como a participação de Chissano  em todo aquele empreendimento que terminou com os Acordos de Roma. Era preciso ter tacto. Paciência. E manha, no bom sentido. E quando tudo isso é feito em prol da paz, o homem será exaltado.

Não estou aqui para repetir aquilo que todos nós sabemos sobre o nosso compatriota. Apenas vim juntar-me àqueles que aplaudiram a indicação de Chissano para presidente de um órgão de elevado prestígio. Quem vai ganhar com isso não será, naturalmente só o escolhido, mas todo o nosso país, que neste momento é mundialmente citado pelos motivos menos abonatórios. Joaquim Chissano pode usar o seu mandato para nos salvar, penetrando em meandros que aliás ele muito bem conhece.

Lembro-me que a mãe do ex-presidente terá sido a primeira a aplaudir quando o filho anunciou a sua retirada voluntária do poder. Ele fê-lo  de forma a não criar perturbações sociais. Mas o mais importante é que enquanto teve saúde, depois de deixar a cobiçada Ponta Vermelha, nunca esteve longe dos acontecimentos. A sua presença foi sempre regular, tanto a nível nacional como no estrangeiro. Pode ser por isso, aliás só pode ser pela constante presença na arena política global, que agora foi chamado para mais uma missão. Uma missão de alto patamar.

Independentemente do partido a que o nosso compatriota pertença, ele é antes de tudo moçambicano. É isso que conta. Por isso todos nós deviamos exaltar este feito. Significa que a comunidade internacional ao respeitar Joaquim Chissano, respeita os moçambicanos. Não há sombra de dúvida de que ficamos a ganhar todos nós.

Para quê mais palavras? É muita obra junta que este homem produziu ao longo da sua brilhante carreira política, incluindo a boa governação reconhecida publicamente por Mô Ibrahimo. E todos nós sabemos que um país só pode atingir um bom nível de desenvolvimento se tiver uma boa governação.

Parabéns, Presidente Chissano !

A Luta Continua!

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Dialogando: Nós, jornalistas e a política  (Mouzinho de Albuquerque)

 

 

NO dia 11 deste mês, os jornalistas moçambicanos celebraram mais um aniversário da criação do seu sindicato, ou seja, Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ). De sublinhar que é com grande pena que este ano celebramos o dia com alguns colegas na cadeia. Contudo, tal como noutros anos, o dia serviu para fazermos a reflexão profunda e crítica sobre o exercício do jornalismo com maior rigor, ética, isenção e transparência e mais virado para o interesse público. Submetemo-nos à autoavaliação e introspecção.

Aliás, a data é de relevante importância também para o povo moçambicano, visto que os jornalistas não só informam a ele, como o formam, contribuindo assim para o desenvolvimento multiforme do país e, sobretudo, na afirmação da cidadania.

Até porque vale a pena voltar a dizer que, de facto, para que haja esperança no futuro do nosso país é necessário informar e formar pessoas capazes de pensar ou reflectir, com imaginação, espírito ou capacidade crítica e comportamento ético, e é o que tem feito igualmente o jornalismo moçambicano, apesar da sua incompreensão e outras dificuldades que enfrenta no seu dia-a-dia. 

Já se sabe que em todas as celebrações desta data, os profissionais do jornalismo moçambicano enfatizam, embora não parece estarem a ser ouvidos, o facto de a liberdade de imprensa e o acesso à informação implicar que as fontes de informação estejam disponíveis, não só nos arquivos do Estado, como noutras instituições, segundo consagra a lei de imprensa aprovada no nosso país.

A tarefa de resgatar a liberdade de imprensa, de expressão e do direito à informação, em Moçambique, despindo-os dos seus aspectos retrógrados, criados de propósito por alguns, torna-se ou continua um imperativo também sob o ponto de vista ético, deontológico e cívico, visando a construção de uma cidadania jornalística plena, da qual ninguém seja excluído, por causa do seu pensamento diferente ou suas críticas das incoerências institucionais, passa também pela abertura dessas fontes.

Porém, cada 11 de Abril que celebramos anualmente deveria nos “ensinar” a perceber que não é pelo facto de a lei nos abrir a possibilidade que devemos sair por aí e dizer tudo o que nos apetecer. Aliás, é ilusão a convicção de que a liberdade de imprensa e expressão é absoluta e irrestrita, por isso, cada um deve fazer das suas no jornalismo. E é no dia 11 de Abril que devemos ser mais “iluminados” para a compreensão de que este não é o caminho certo para onde devemos levar a nossa nobre profissão. 

Entretanto, um estudioso brasileiro disse que o relacionamento entre o jornalismo e a política é historicamente polémico e paradoxalmente intercomplementar. Este intercâmbio está permanentemente envolto em circunstâncias de pressões e contra pressões de bastidores, bem como nos interesses económicos, dos empregos jornalísticos ao mesmo tempo em que o imperativo de informar bem é socialmente cobrado.

E por falarmos da política, dizer que é indesmentível que o nosso jornalismo, como acontece com o das outras nações, é feito ou caracterizado igualmente pela luta por protagonismos políticos, em que alguns jornalistas concorrem a cargos de cariz político. É lógico que num país politizado como o nosso isso não faltaria, mesmo que, nalgumas vezes, essa postura ofereça uma dimensão controversa à nossa profissão que se quer isenta e imparcial.

Anuindo o pensamento do brasileiro, diríamos que, de facto, a aparente instrumentalização do jornalismo por parte do poder político instituído, em qualquer país, e Moçambique não é excepção, mesmo onde a democracia é madura, faz com que os seus profissionais reportem assuntos na perspectiva do “politicamente correcto”. É verdade que isso não acontece em todos os órgãos de comunicação social. Porém, não deixa de pôr em causa a seriedade, imparcialidade, honestidade e utilidade do jornalismo para a sociedade.

Todavia, é por isso que se torna também salutar e prestigiante que quando chega o 11 de Abril debatamos ideias, no jornalismo, na base de todas as formas que corporizam efectivamente, à opinião a favor e contrária, sobre determinados assuntos, particularmente de cariz político, para que não se corroam os valores consagrados pela democracia, neste caso multipartidária, em que a classe jornalística é chamada a defendê-los para a boa convivência democrática.

Para que a tradição no exercício do jornalismo culto, incisivo, abarcador e irreverente, no nosso país conte com profissionais da área determinados e comprometidos profundamente com a causa da sociedade em que estão inseridos. Pois, há quem pense que o debate dos temas transcendentais da nação, o retrato coerente da realidade do país, por parte dos jornalistas, deve ser feito através de um jornalismo baseado no “correctamente político”, isto é, que os órgãos de informação trabalhem como “vozes” oficiosas do poder instituído, e daí toca a pressioná-los. É certo que a lógica informativa está subjacente às diferentes práticas do jornalismo, neste caso político, mas o mais importante é que o nosso jornalismo é chamado a contribuir para uma efectiva consolidação da democracia moçambicana e da unidade nacional. Viva o 11 de Abril!

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Retalhos e Farrapos: A metamorfose de Gonçalves: os cubanos  (Hélio Nguane)

 

PORTE fino, à distância, percebem-se os quilómetros que separam aquele indivíduo branco, de fato preto, óculos pretos, sapatos pretos, gravata preta e uma camisa branca só para contrastar. Perfume caro, do carro, com vidros fumados, entreabertos, é possível fumar a fragrância requintada deste jovem empresário.

Charuto entre os dedos, os lábios mordem o cubano, com a mesma raiva de americanos frios e vingativos. Prova lento, deixa a fumaça adensar-lhe o pensamento. Hoje saiu só, não quis motorista, não quer negociadores, conhecer a fonte que empacota o seu prazer é o principal objectivo.

Vai lento, quase que causa engarrafamento. Baixa o vidro, deixa as cinzas do charuto conhecerem o asfalto da cidade de Maputo. Coloca uma música para ambientar, é selectivo, seu ouvido não escuta qualquer artista. Já gostou de música erudita, mas hoje é mais rebelde, balança a cabeça ao som da música de António Variações.

Os bisavós são de Viseu, o pai rebelde proclamou-se moçambicano. O registo confirma. Então, Gonçalves é filho de moçambicanos. Não sabe falar, mas entende todos os insultos em ronga e changana. Responde mal a quem tenta lhe ofender.

A viagem já vai longa, saiu de um dos prédios da Polana-Cimento “A” para uma parte desconhecida da cidade. Não pensou em vias alternativas, ficou mais de meia hora a andar em círculos, mas está tranquilo, pois combustível é dos seus problemas o menor. Pára na Avenida Joaquim Chissano, repara para a Praça da OMM enquanto abastece o veículo.

De fora, repara estudantes universitários metralharem fotografias, selfs, à distância, todos querem ter aquele carro que só vêem em revistas. Não é um veículo qualquer, é o último lançamento, em África, contam-se os empresários que têm na garagem aquela prova de que a engenharia automóvel se supera a cada ano.

Desce lento, desvia pela Avenida Acordo de Lusaka. Olha para o lado esquerdo e vê a pobreza  tranquila, a demonstrar que tem seguidores. Chega no semáforo e repara para o lado direito, tira a caixa de cubanos pronto para fumar mais um.

Um transeunte atravessa rápido, bate o vidro do empresário, que berra por ver aquelas mãos sujas a tocarem o seu carro. Olha para a esquerda e repara que outro miúdo corre, veloz e habilidoso levou a caixa dos charutos cubanos e caminha em direcção à Praça da Paz.

Solta uns insultos, fica vermelho, sua, tira o lencinho e limpa as gotas de água que escorrem no rosto. O carro anda mais alguns metros, faz um ângulo matematicamente correcto e já está na Marian Nguambi. Olha para a direita e vê meia dúzia de prédios que clamam por tinta.

Olha para as instruções do motorista, o negociador, o testa de ferro, que todas as quintas se arrisca, entra no bairro para satisfazer os desejos do patrão. Olha para a rua principal, percebe que são escassos os locais para estacionar e continua a andar. Desvia pela primeira rua depois da principal e estaciona o carro. Sai do veículo, o sapato caro pisa o chão. Anda lento e com ritmo até chegar a rua principal.

Endurece a expressão facial, olha para o cenário. Por instantes se sente na série “walk and dead”, pensa em regressar, não consegue visionar tantos mortos vivos juntos. Desvia no primeiro beco, vê uma panela enorme de sopa a servir famintos em vida.

Ignora tudo e entra na casa. Pede para falar com o chefe máximo do local e todos apontam uma senhora de meia idade. Estranha, pois a maioria dos filmes de narcotráfico são executados por vilões e não donas de casa, com capulanas e lenços amarados.

Senta com a senhora, pede o que lhe trouxe ao local. O filho da senhora prontamente traz e lhe serve. Instantes depois, para celebrarem a venda, o filho da “chefona” corre, entra na casa e traz uma caixa. Tira dois,  charutos cubanos, corta as pontas e serve o convidado.

Perplexo, fuma os charutos que lhe foram roubados há pouco. Respira a fumaça e curte o momento. A vida é um ciclo.

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