Timbilando: Das obras inacabadas e das mal-feitas  (Alfredo Dacala-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

AINDA estávamos matutando sobre o problema das obras do Estado não acabadas no Niassa, trazido aqui na semana passada, quando tomámos conhecimento de um caso idêntico em Cabo Delgado.

Este caso também já está em tribunal, sinal de que está atrasado e é tempo de andar rápido para a sua resolução. Este, como tantos outros, que temos um pouco por todo o país. O Estado foi defraudado em mais de cinco milhões de meticais, por uma empresa de construção civil em Muidumbe. A construtora contratada a construir uma residência para o chefe do Posto Administrativo de Miteda, desapareceu sem deixar rastos, depois de embolsar cinco milhões de meticais, sem fazer coisa nenhuma.

Como nos casos do Niassa, este também se deu em 2013, logo no início da obra e só agora é que o Estado quer reaver o dinheiro, uma vez que já entregou ao empreiteiro o equivalente a 90 por cento do valor total da obra, que, entretanto, não foi feita, pois abandonada.

Quer-se que o empreiteiro seja responsabilizado com os devidos juros, por ter lesado grandemente o Estado e ir-se também atrás de quem estava à frente do processo e foi conivente com a maracutaia que foi feita.

Convém recordar que este não é um assunto novo e nem sequer é assunto apenas desta governação. Este assunto já tem barbas brancas e vem sendo falado desde há muito tempo, tendo passado por diversas etapas. É necessário que os tribunais encarregues destes casos trabalhem céleres e de modo profundo para reaver estes dinheiros, que tanta falta fazem ao Estado para serem bem aplicados e responsabilizar de forma merecida os prevaricadores.

Recorde-se que durante anos, umas das etapas que atravessou a construção das obras públicas foi de facto o abandono. Um pouco por todo o lado no país, viam-se obras inacabadas, sobretudo escolas e hospitais. O Estado, que é o dono dessas obras, através dos diferentes directores provinciais, chorava para localizar os empreiteiros, que os fintavam e não apareciam. O dinheiro? Eles já o haviam recebido na totalidade, sem muito esforço, no momento da deslocação dos equipamentos para iniciar a construção e já o haviam dividido na rede de corrupção.

Até que se tomou a medida de cadastrá-los para saber quem são efectivamente os nossos empreiteiros. Depois lhes disseram que se abandonas uma outra, por exemplo, em Chinginguir, em Inhambane, não vais conseguir a adjudicação de uma outra obra em Chiconono, no Niassa. Essas medidas retraíram bastante este “modus operandi” dos nossos empreiteiros.

Ao que nos parece, nestes dias, o que anda na moda na construção das nossas infra-estruturas públicas é a má qualidade. Obras construídas quase de qualquer maneira. À vista solta, tudo parece estar nos conformes. Tudo parece estar bem. Mas quando testados os materiais, vê-se logo que nada está bem. Foi gato por lebre. Muitas vezes, o que testa estas obras são os fenómenos naturais, vendavais e tempestades. Não estamos a falar do ciclone Idai, que foi altamente devastador, com ventos de outra natureza atingindo por aí cerca de 180 quilómetros horários.

É que nessas obras a fiscalização, que devia ser ela a fazê-lo, assobia para o ar e não é tida nem achada, porque está em compadrio com quem constrói. Uma escola e um hospital voam. Ao lado está uma construção particular, que resiste a tudo de modo sereno.

Os especialistas da área dizem que além da corrupção que grassa a área e a falta de fiscalização adequada, os projectos que são apresentados para a construção dessas infra-estruturas são tão fracos, com fraca qualidade técnica, que precisamos de repensar como são formados nas universidades muitos dos nossos engenheiros de construção civil. Então, mau projecto e mau resultado final.

Neste sector, também se fala muito dos jogos debaixo da mesa, entre os empreiteiros, a fiscalização e também os representantes do dono da obra. Eles escondem o jogo, não querem que sejam vistos, evitam, o mais possível, andar nas bocas do mundo. Com o correr do tempo, hábitos e companhias, já são capazes de bater os passeios das avenidas, com o à vontade de quem bebe um copo de água em dia de canícula. Sem pingo de vergonha! Há assim por dizer, mil e uma maneiras de se “prostituir”, sem dar nas vistas, com elegância formal e ser respeitado pela sociedade bem pensante.

Nesses ambientes, a corrupção medra como cogumelos, porque o terreno lhe é propício. Navegamos no rio do deixa-andar mais pachorrento. Só que, quem deixa andar, é o próprio Estado, que assim se torna directamente responsável pelo caos, que toda esta situação provoca.

Já é costume, nestas como noutras circunstâncias, arranjar desculpas esfarrapadas do tipo não temos recursos materiais e, por isso, vamo-nos arranjando com a prata da casa, com o que temos à mão, por isso as obras não resistem às intempéries, por isso as obras não duram como deviam durar, por aí em diante.

No caso em apreço, esta prata fica-nos tremendamente cara, não só pelas reparações que exige, pelo tempo que consome, pelos recursos humanos, que empata, pelo péssimo desempenho, que causa prejuízos enormes ao cidadão e ao próprio Estado.

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NUM VAL`PENA: O Corcunda de Notre Dame e os nossos devaneios culturais (Leonel Abranches)

 

 

VOU a bordo de um autocarro de passageiros. Daqueles que fazem parte de cooperativas ou empreendimentos privados, cerca de 21.50 de uma segunda-feira de Abril. O veículo está apinhado de gente e vuna pra caramba. Acelera e faz travagens bruscas. Andamos aos encontrões e abraços forçados. Uma espécie de “my love” melhorado. Estou desconfortável e em pé. Procuro por uma nesga para respirar e acomodar os calcanhares desencontrados. Numa paragem de referência obrigatória o carro é outra vez violentado por uma multidão desejosa de seguir para os seus aposentos. O vento sopra com alguma intensidade e relâmpagos riscam os céus iluminando a noite indiciando os primeiros sinais de chuva:

“Vem aí um Idaizito...”- graceja um jovem, de que se seguiram olhares recriminadores e reprovadores dos circunstantes. Parece que ninguém gramou da piada.

 “Não é coisa com que se brinque...” - murmurou uma senhora de meia idade. Sou impelido para frente do autocarro, desequilibro-me e quase sou cuspido pela porta frontal, quando ouço um jovem:

“Senta aqui mais velho...taza-a-sofrer.”Olho para os lados e finjo não perceber que o “mais velho” era eu.

“Kota, estão a falar contigo. Vais cair. Tem lugar para ti ali.”intervém outro jovem perto de mim.

Esboço um sorriso amarelo e, entredentes, murmuro um agradecimento, mas contrariado e amuado por me acharem maisvelho e kota, vá-la saber-se porquê. Sento-me pesadamente e acesso à internet do meu telefone. As primeiras imagens que surgem são de uma tragédia na França. A Catedral de Notre Dam está em chamas. Fico petrificado e concentro-me definitivamente nas notícias sobre o incêndio. Sites de internet e televisões passam em directo e ao minuto as incidências do incêndio. São feitas várias conjecturas sobre as causas, e toda a gente espera que não seja mais um ataque terrorista. Emanuel Macron, o presidente francês, está no terreno combalido e triste. O meu vizinho de cadeira, na boa moda da coscuvilhice em transportes públicos, arrebita os olhos e espreita o meu telefone. Não me incomodo e dissimuladamente partilho com ele, afinal era notícia de interesse público. A curiosidade aumenta e não consegue disfarçar:

“É o quê que está a acontecer?!”- pergunta.

“A Catedral de Notre Dam está a arder...”- respondo com uma dose de entoação dramática. O homem encolhe os ombros e desinteressa-se. Olho para ele e fico com a sensação de que não percebeu a resposta. Insisto:

“A Catedral de Notre Dam é que está a arder mermão.”

“ É o que isso mesmo?!”

Fico atónito. Como uma pessoa pode não saber de Notre Dam?:

“O senhor nunca ouviu falar de Notre Dam?”

“Não. Onde fica isso?! E qual seria o meu interesse nessa catedral? Eu rezo nos maziones e não temos catedral nenhuma.” Preocupo-me com os argumentos do senhor e predisponho-me a explicar:

 “A Catedral de Notre Dam fica na França, Paris, e é um dos símbolos do país, a par da Torre Eiffel e do Museu de Louvre e até foi motivo de um filme, o Corcunda de Notre Dam, que, apesar de infantil, marcou uma geração que.....” “Senhor, esta-me complicar. Isso resolve os meus problemas?” - interrompeu-me bruscamente com um safanão no braço.

“Que problemas?”- indago atónito.

“Fome, emprego, transporte...etc”

“Não resolve directamente, mas acho que um homem deve ter o mínimo de cultura geral, deve olhar e reconhecer os símbolos culturais partilhados pelo mundo, deve conhecer e reconhecer grupos sociais e só assim pode atribuir sentido ao mundo em que vive e sobretudo gerir as suas acções...” - O homem ficou quedo e mudo, como se tivesse acabado de ouvir uma homilia em aramaico. Não entendeu patavina e nem queria entender.

“Mas ovla, oh meu amigo. Por que razão vou querer conhecer o mundo e as suas manifestações se nem eu mesmo me conheço?”Um coro de palmas se fez ouvir no pequeno e improvisado auditório circulante. Afinal de contas tínhamos uma plateia atenta. E quase todos tinham a mesma perspectiva sobre cultura geral. Fiquei siderado e sem argumentos. Tentei rebater:

“Mas, pessoal, o conhecimento e a sabedoria sobre tudo o que acontece pelo mundo que nos envolve é importante, até porque nos protege de falsidades e de ideias erróneas. Cícero já nos dizia que nada perturba tanto a vida de um Homem como a ignorância do bem e do mal...”, pelo silêncio e desinteresse nos semblantes percebi que filosofei em tábua rasa. E um dos passageiros questionou:

“O que quer dizer “errónea”, quem é Cícero? É teu amigo? Estudaram juntos? Aquele presidente americano nem sabia que havia gente a morrer na Beira, por que devo querer saber dessa tua catedral aí? Vá pro o escambau com esse teu amigo Cícero pá! Devo mazé tratar da minha vida.”

Mas Notre Dam não é apenas dos franceses, faz parte do património da humanidade e...” contra ataquei.

“ Ahhhh, famba uya ti gunha wena. Se também é tua catedral por que é que estás apertado aqui no TPM? Vai lá ajudar os gajos a apagarem o fogo lá...”- Outra salva de palmas generalizada, até do motorista, entremeada por sonoras gargalhadas trocistas. 

Desci do autocarro e várias interrogações cercaram-me e assaltaram-me a consciência.

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