Há homens que são exemplares e notavéis pela forma como encaram a vida. Sobretudo pela forma  consequente como elas assumem as causas nas quais acreditam, lutando até ao fim. E uma dessas pessoas é sem dúvida Albie Sachs, um activista de proa na luta contra o antigo regime do Apartheid, na África do Sul, e que hoje decidi homenagear nesta minha lavra semanal.

Ele esteve em Maputo, no Dia Internacional de Liberdade de Imprensa, onde proferiu uma palestra que vai marcar, sem dúvida, as mentes daqueles que participaram no evento, e em particular as mentes da juventude intelectual que ainda  não o conhecia, e provavelmente nunca tinha ouvido falar antes dele.

É uma honra para mim, falar de Albie Sachs, por isso não podia perder a oportunidade de lembrar, ao saber da sua estada em Maputo, o momento trágico que ele passou, em 1988, na cidade de Maputo.  Eu estava escalado para trabalhar  no domingo em que as coisas aconteceram  e, chegado à Redacção, muito cedo,  encontro o jornalista Bernardo Mavanga, então Chefe do “Internacional”, à procura de um repórter para acompanhar algo grave que acontecera na Avenida Julius Nyerere.

Mavanga era dos poucos profissionais mais quotado que se encontarva na  Redacção, nessa tenebrosa manhã. Disse-me mais ou menos o seguinte: pega rapidamente no carro e vai à Avenida Julius Nyerere, parece que o Albie Sachs foi vítima de uma bomba no carro.

Não fiz muitas perguntas, porque as respostas só podiam estar no terreno, e Mavanga não estava no terreno. Fui para lá e cheguei à tempo de ver o corpo de Albie Sachs prostrado na estrada, enquanto o seu carro já estava em chamas. Segundo se conta, ele preparava-se para ir à praia, como o fazia habitualmenteaos domingos. Abriu, primeiro, a bagageira e arrumou o seu toldo (sombrinha de praia) e, depois, ao meter a chave na porta  do lado do volante, para embracar, houve uma forte explosão que sacudiu a viatura e projectou-o para uma distância de cerca de três metros do passeio ao centro da avenida, onde caiu com o braço direito despadaçado. Vinha de chinelos, calções e camisete brancos.

Por aquilo que eu vi, com os meus próprios olhos, Sachs salvou-se como fruto de um milagre, porque o mais certo é que ele fosse queimado pelo fogo dentro do seu próprio veículo ou siplesmente esfacelado o rosto pelo forte impacto da explosão. Era uma bomba de forte potência que tinha sido colocada pelos espiões sul-africanos a  mando do Apartheid que demandavam Maputo, não para destruir o carro, mas para matar um homem que lhes incomodava, e não consguiram. Albie Sachs ficou gravemente ferido, tiveram que lhe amputar o braço direito, por não haver outra possibilidade, operação realizada por  uma equipa médica dirigida pelo médico-cirurgião Ivo Garrido. Mas o que conta e é importante, é que Sachs está vivo e continua a defender as mesmas causas: liberdade, justiça, igualdade e bem estar para o povo sul-aficano.

Sachs é um respeitado advogado, intelectual e proeminente politico pelas posições que defende até hoje, desde que se entregou à luta pela liberdade do povo sul-africano, com integridade, coerência e consequência. Ele sempre lutou lado a lado com Jacob Zuma contra o Apartheid, mas quando Zuma se desviou, seguindo o caminho dos escândalos da corrupção e outros, Sachs desliga-se do presidente sul-africano e vira-se contra os seus actos. Sachs fala abertamente, tanto dentro da África do Sul como fora, contra aquilo que ele julga injusto, e não tem poupado um dos mentores dessas injustiças, que é o próprio homem de Nkandla.

As posições de Albie Sachs, que viveu no nosso país mais de 10  anos, como refugiado, fugindo doregime do Apartheid,  inspiram-me a dizer que em Moçambique temos também destacados combatentes  íntegros, mas que aparentemente não se tornam consequentes como Sachs,  por terem-se remetido a condição de actores de cinema mudo. Porém,  quero acreditar que não estão a leste do barulho e da confusão que se instalou entre nós. Que um dia, como Sachs, levantarão a sua voz contra tudo o que vai mal.

Faz, pois, todo o sentido que me lembre hoje deste cidadão sul-africano de convicções muito próprias.

Um forte abraço !

ALFREDO MACARINGUE

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