A Espanha é um dos países que se considera baluarte da democracia e defensora dos direitos humanos. É, por isso, daqueles países que quando há, pelo mundo fora, situações classificadas como violadoras das vontades populares, apressa-se a condenar os governantes que supostamente promovem tais práticas.

Geralmente as condenações a tais actos é feita, tanto a título individual assim como no quadro da União Europeia e da comunidade internacional. Veja-se o caso da Venezuela, vejam-se os casos da Siria, Polónia, Hungria, Turquia, Crimeia e Coreia de Norte. De “frente para trás”, vejam-se os casos da Líbia e do Iraque…

Como não há bela sem senão, o mundo assistiu pelas televisões e pelas redes sociais, no dia do referendo, no primeiro dia de Outubro, um acto não digno de um país democrático. O argumento da ilegalidade do referendo, utilizado para justificar a repressão que o mundo assistiu ao vivo, não pode ser usado para a prática de actos verdadeiramente antidemocráticos. Como as TVs bem mostraram, os cidadãos que se dirigiam às assembleias de voto faziam-no de forma ordeira e pacífica. Não foi reportado nenhum caso de desacato por eles praticado. Pretendiam, com o seu gesto de votar, manifestar livremente a sua vontade. E é de supor que, como em todas as situações em que ao indivíduo é dada a oportunidade de escolha, seguramente que nem “todo-o-mundo” escolheria a independência.

Aliás, rezam várias crónicas que nem todos os catalães comungavam da ideia de votar pela independência, pois entendiam que independência alguma iria mudar o seu estilo de vida. Muitos desses cidadãos acabaram mudando de opinião a partir do momento em que as autoridades espanholas optaram por reprimir a tentativa do referendo. A atitude do governo de Madrid acabou se revelando, portanto, imprudente, contribuindo para o crescimento e solidificação da vontade dos catalães sairem “das saias” do governo madrileno. A intransigência espanhola poderá vir a ter também como consequência o despertar de vontades independentistas por parte de outras comunidades que integram a actual republica espanhola…

Entendo por isso, que no lugar de impedir a realização do referendo o governo espanhol deveria ter optado por uma via diferente: chamar a atenção para o primado da lei e, em último caso deixar que catalães realizassem a consulta. Conhecidos os resultados o governo espanhol poderia então evocar a constituição, nomeadamente o Artigo 155 que determina: "Se uma Comunidade Autónoma não cumprir as obrigações da Constituição ou outras leis que se imponham, ou actuar de forma que ameace gravemente o interesse geral da Espanha, o Governo, depois de ter enviado um requerimento ao Presidente da Comunidade Autónoma e, no caso de este não ser atendido, com a aprovação por maioria absoluta no Senado, poderá adoptar as medidas necessárias para obrigar esta ao cumprimento forçado das ditas obrigações ou para a protecção do mencionado interesse geral. Para a execução das medidas previstas na frase anterior, o Governo poderá dar instruções a tidas as autoridades das Comunidades Autónomas."

Como é do domínio público o governo espanhol, liderado pelo Partido Popular – conservador, não accionou aquela disposição, embora algumas das suas actuações, nomeadamente o envio da polícia aponte nesse sentido. A propósito, a imprensa internacional, incluindo alguma espanhola, indica que cerca de 10 mil polícias (força de choque) foram destacados para a Catalunha com a missão de inviabilizar o referendo. Como as TV’s mostraram era ver barreiras humanas – quais paredes de granito a barrar os acessos às escolas onde estavam instaladas as mesas de voto.

Revoltados com a intervenção policial os cidadãos catalães tentaram forçar os acessos, resultando daí as escaramuças vistas através da imprensa internacional e através das famosas redes socias. O Carnaval (no pior sentido), como foi por muitos chamado, saldou-se em cerca de 890 feridos entre os quais dois em estado grave e detenções de dirigentes políticos, entre os quais ministros do governo local. Refira-se que uma das formas de manifestar a revolta dos catalães perante o impedimento do referendo, foi o facto de o Clube de Futebol Barcelona, realizar o seu último jogo no Domingo 1 de Outubro à porta fechada "para que o mundo inteiro veja como sofremos na Catalunha", segundo o dirigente daquele clube.

Entretanto, apesar da tentativa das autoridades espanholas de impedir a votação, algumas pessoas conseguiram votar. Dos pouco mais de 7.500.000 de habitantes, 2.200.000 cidadãos foram às urnas e destes, 90% votaram a favor da independência. Significativo não é? Imaginemos um cenário sem repressão… E o que diz a União Europeia? Simplesmente isto: que o problema da Catalunha é um problema interno de Espanha… Pois, claro! Outra coisa não seria de esperar. A EU é uma organização integradora de países que têm também as suas Catalunhas. Qualquer opinião que teria de ser emitida por um comissário (de um determinado país), poderia ser interpretada como opinião desse país, e aí seriam elas, como sói dizer-se.

Concluindo, Espanha: saia da vergonha, mostre a tal face democrática e defensora de direitos humanos. Mostre-nos a nós africanos e a outros povos que o que andam a pregar é uma doutrina para ser levada a sério…

Marcelino Silva - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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