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E ENTÃO o meu amigo, muito andado pelas tascas de Rossio e do Chiado, a grande capital, não para todos, claro, decidiu-se por me levar à tasca (?) do João do Grão, onde come do bom cozinhado, embora a mesa mal dá para dois pratos e uma terrina no centro.

 E ainda não falámos de copos para água e para as inevitáveis bebidas alcoólicas (e ainda bem que a natureza disso ainda não nos privou), que por estas bandas abundam, o que nós não aceitamos para o espanto dos paquistaneses, indianos, bengalis e outros de tantas outras nacionalidades ao serviço de italianos e também de outras tantas nacionalidades explorando este sector da economia tuga.

Habituado à tasca do Miguel onde me sento em mesa bem larga e me posso virar para um lado ou para o outro e ainda deixar o pé no suporte de uma outra cadeira, do vizinho que seja, o desconforto não se fez de rogado.

Na verdade local conhecido de muitas luas, mas nunca de sentar para a ingestão de seja o que for. De compras e polir sapatos com pose de fotografia para um “malandro”, isso sim.

A tasca é concorrida e as pessoas fazem fila. O meu amigo é cliente de muitos sóis e é o dono que cuida de nos acomodar. E muitas pretas e muitos pretos nos acenavam com exagerada simpatia. Também tomara: um preto e um monhê em animada cavaqueira. Obviamente que em troca debitávamos sinceros sorrisos, que isso toda a gente gosta de receber e dá um ar de boa educação, o que não posso afirmar de maneira peremptória. Já passam muitas décadas que me governo em bases várias. Aliás, ultimamente a minha mãe diz que não tenho juízo por a perguntar, quase sempre, se ainda não arranjou um namorado. Que estou precisando de um pai para ser igual aos meus filhos, pôrra!

Bom, voltando à nossa tasca. Pedimos o que havia de mais barato e mais rápido. Não tardou um xibotane (pode se dizer panela de alumínio) no centro da mesa: arroz e muitos frutos das águas da região de Setúbal, certamente. Mas também podiam ser das entranhas do Tejo. Ali pertinho. Não precisei de esperar por nada. Peguei na concha e por duas vezes levei-a ao prato cheia do que tirava do xibotane. Não sei de quantas conchas se serviu o meu amigo. A comida estava muito quente, mas como estivéssemos a comer na rua, tratava eu de encher os pulmões de ar e com o mesmo arrefecia o que estava na colher. Olhava para os lados para ver se alguém achava o meu gesto menos razoável. Nada. Estávamos a comer na estrada com os marroquinos musicando, com as mexicanas cantarolando e no fim de cada actuação, de mesa em mesa, com o boné feito prato para lá caírem algumas moedas, que depois é a refeição do dia. Melhor, é o dia.

Veio então um jovem, de que não lhe soube a nacionalidade, e perguntou se precisávamos de mais alguma coisa. O meu amigo pediu uma meia de sangria. Não aguentei. Dei um grito e me pus de pé com os braços abertos e a olhar para o cinzento do céu. Por instantes, os músicos perderam a audiência. Eu é que estava em cena. O meu amigo, por segundos, ficou com a colher entre o prato e a boca. Quando me apercebi, sentei-me olhando para ele ri-me como que possuído. Deixou a colher no prato e de boca aberta ficou a olhar para mim. Depois disse: “estás te a passar ou quê”? Não lhe respondi. Disse ao rapaz que me servisse uma meia de vinho e acrescentei que havia um sério risco de pedir uma segunda. Ele compreendeu a razão da minha atitude. Abanou a cabeça e disse: “tu não prestas”, levaste tanto tempo para perceberes isso, disse-lhe.

E a refeição foi correndo de feição, com vizinhos de mesa a sentarem-se e saírem, que nós pressa nunca tivemos, embora não fôssemos turistas. Mas naquela hora podíamos emprestar aos nativos essa qualidade. Até porque a nós se dirigiam aos magotes para pedirem esmola e quando déssemos uns cêntimos, reclamavam por mais.

Poxa, vida!

Soube dessa coisa de sangria há dezenas de anos e nunca me passou pela cabeça provar. Achei sempre que era uma bebida para senhoras. Agora, quando o meu amigo, grande amigo mesmo, pediu aquela bebida e parecia bebê-la com gosto, fiquei pasmado. E a sangria havia de ser a sua bebida em todos as refeições enquanto lá estivesse e por sinal ficava sempre bem-disposto.

Bom, ele é um bom cliente do Miguel, mas se a casa poder introduzir sangria, pode melhorar a receita.

Há ainda mais por contar, mas são duas horas e vinte e quatro minutos. Madrugada. E às cinco tenho de estar de pé.

Djenguenyenye Ndlovu

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