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HÁ alguns anos, já não me lembro em que  âmbito, eu e  um colega de profissão fomos à embaixada do Japão, em Maputo, entrevistar o respectivo embaixador da altura, cujo nome  não me recordo e  nem interessa para este texto.

Foi uma conversa longa onde se falou, entre outras coisas,  do relacionamento entre os dois países. Apesar de ser pequeno em tamanho, o Japão diz muito a  Moçambique e  ao resto do  mundo em geral, olhando para a  sua história e  sobretudo ao seu alto nível de desenvolvimento.
Só um simples exemplo: o leitor tem a ideia de quantas viaturas de marca “Toyota”  circulam em Moçambique e  no resto do mundo? Para além dos famosos “Toyotas”, cuja publicidade é perfeitamente dispensável, por isso não pode ser cobrada por este jornal por causa de um simples texto de opinião como este, existem outras marcas de automóveis de fabrico japonês, e  em números imensuráveis, que espantam o mundo inteiro.
Com poucos recursos naturais, o Japão é um autêntico fenómeno da natureza em termos de tecnologias, aplicadas em várias áreas. Ora bem. Na conversa mantida com o tal diplomata japonês  tentei entender a razão dessa pujança tecnológica e económica, mas não tive explicações convincentes.

O representante do Governo japonês só se limitava a dizer que tudo era resultado de muito trabalho e seriedade do seu povo. Sobre o que pensava dos moçambicanos, muito diplomaticamente referiu que o que o irritava era ser “chateado” por  alguns funcionários e agentes  do Estado em todos os lugares  de Moçambique por onde passava.
“Quando me vêem, antes de me identificar como embaixador do Japão, sou tratado como chinês”, foi mais ou menos assim que ele respondeu, num português com sotaque brasileiro, mas mesmo assim fluente.

Eu quis saber de pormenores e  ele continuou dizendo que tais agentes e  funcionários do Estado tentavam a  todo o custo lhe extorquir. Apesar de eu não ser funcionário muito menos agente do Estado, fiquei envergonhado.

O diplomata disse ainda que gostava de frequentar as lindas praias moçambicanas, com a  sua família em tempo de lazer, mas não suportava ser tratado como chinês. Para ele ser chinês, aparentemente, significava ser de baixo nível. Quis nos convencer que a olho nu conseguia distinguir um chinês de um japonês…

Neste aspecto eu claramente não concordei com ele, apesar de não estar disposto a discutir o assunto. Trago estas lucubrações hoje aqui neste espaço depois de ter visto e não ter gostado de um “post”, num dos grupos a que pertenço numa rede social, a mostrar imagens chocantes de  supostos chineses a  comerem carne humana.

Não costumo discutir em redes sociais, mas não resisti em lembrar aos integrantes do grupo que essa ideia de que os chineses eram canibais não é nova. No tempo da guerra colonial em Moçambique esse boato foi lançado propositadamente, numa campanha que visava denegrir o povo chinês, que liderado pelo seu Governo, apoiava a  formação de guerrilheiros da Frelimo e ainda lhes fornecia armas.

Gente mal informada engoliu essa campanha e  passou a  ter medo de chineses, alguns dos quais viviam nos arredores da então cidade de Lourenço Marques, e se dedicavam à agricultura, abastecendo em hortícolas os mercados desta cidade.

Hoje em dia essa campanha é retomada ciclicamente. Para mim a  razão é muito simples: há países, principalmente ocidentais, que não vêem com bons olhos o tipo de cooperação que se desenvolve entre a  China e  os países africanos.

Assim, em tom de brincadeira eu disse na tal rede social que a  ser verdade que os chineses comem carne humana, eu deixarei de ir ver futebol no Estádio Nacional do Zimpeto. Deixarei de usar a grande  Circular de Maputo. Nunca mais vou usar o Aeroporto Internacional de Maputo.

Também nunca vou atravessar de Maputo  a  KaTembe, e vice-versa, por  via da imponente ponte que vai ser inaugurada dentro em breve. Não apanharei nunca mais os machimbombos de marca chinesa  que actualmente ajudam a  minorar a falta de transporte nalgumas cidades moçambicanas.

Vou aconselhar aos “mukheristas” (importadores informais)  a não se deslocarem nunca mais à  China. Vou aconselhar às centenas de estudantes moçambicanos que lá estão para voltarem a  casa de modo a evitarem ser transformados em, sandes,  bifes e guisados.
Vou apelar  ao meu querido sobrinho, filho do meu irmão mais novo, para devolver o diploma de licenciatura em mecânica que trouxe de lá, depois de cerca de seis anos de muito esforço académico.

Tomarei essa decisão difícil de cumprir porque é inaceitável que essas infra-estruturas e esses   equipamentos, esses negócios e essa academia tenham sido feitos e  produzidos por gente que alegadamente come carne humana.

No entanto, agrada-me muito saber que o Governo chinês aplica na letra o ditado que diz: “se te entreteres a atirar pedras aos cães que te ladram, numa mais vais chegar ao teu destino”.

Lobão João

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