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DEVO confessar que, esta semana, fiquei um pouco frustrado quando tomei conhecimento de que a  gigantesca ponte,   ainda em construção,  que liga Maputo a Ka-Tembe,  não será atravessada por peões.

Não sei  por que  “carga de água”, convenci-me que iria passear, a  pé, para a  Ka-Tembe, atravessando  a  baía através daquela majestosa infra-estrutura.

Acho que, como eu, muita gente pensava assim. É que sempre imaginei que iria contemplar a  bela baía de Maputo por cima da ponte. Imaginei noites de luar eu ali por cima a  ver a  baía.

E o meu romantismo ficou por terra. Será proibido circular por ali a  pé, diferentemente  do que acontece em várias pontes moçambicanas e muitas outras, aos milhares,   que pelo mundo fora permitem a  ligação entre duas margens do mesmo rio, entre montanhas, etc, etc, algumas das quais autênticas obras-primas.

O responsável da Empresa Maputo-Sul, que faz a  gestão das obras, o engenheiro Silva Magaia, disse-me que o empreendimento foi concebido apenas para a  circulação de viaturas.

Acrescentou que os mentores desta ponte não incluíram os peões por razões de segurança. A zona onde está instalada  aquela ponte também é uma área portuária, donde transitam muitas mercadorias, algumas das quais pertencentes a  entidades públicas e  privadas de países vizinhos.

Por outras palavras, não se incluiu peões na concepção da ponte para evitar roubos. Mas, para além dos roubos, Magaia referiu que também tenta-se evitar que  algumas pessoas escolham aquela infra-estrutura para se suicidarem, lançando-se lá de cima para  as águas do mar.

Com esta última hipótese é que não contava. Seja como for, não concordei, embora não tenha manifestado essa minha discordância porque sabia  que já não há mais nada a  fazer. A ponte está quase pronta e até ao final do presente semestre será entregue pelo empreiteiro chinês às autoridades moçambicanas.

Seja como for, ficaram-me muitas perguntas a  pairar  no meu cérebro.

Será que os automobilistas  estão isentos à vontade de suicídio? Quem tem vontade de morrer, se não for à ponte não irá se matar noutro sitio  qualquer?

São perguntas que não consigo deixar de fazer a  mim mesmo. As respostas são tão óbvias. No entanto, há quem deve estar a  aplaudir a exclusão dos peões na travessia da ponte.

Estes são os donos dos barquitos que actualmente concorrem com os ferry boats da estatal  Transmarítima. Continuarão a  fazer o seu negócio  de transporte de passageiros e carga à vontade como se a ponte não existisse.

É que a  maior parte do povo da Ka-Tembe vai preferir o barco aos transportes públicos terrestres que, como se sabe, cobram mais caro que os barcos. E o preço será agravado porque a  ponte terá portagem nos dois sentidos. Meus senhores, quando pensamos em fazer obras de grande envergadura de utilidade pública como a  ponte da Ka-Tembe,  temos que pensar também nos mais desfavorecidos.

Não podemos construir  uma infra-estrutura  como aquela que vai ser paga por todos nós, através dos impostos, mas que exclua a maioria da população. Não há argumento válido para excluir o povo, o tal patrão de que sempre fala o nosso chefe de Estado.

Lobão João

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