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ALGUÉM  dizia, revoltado, que o ilustre governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, devia refinar mais o seu discurso quando se trata de comunicar para o povo, ou com o povo. E acho que todos aqueles que estão do lado das massas concordam com esse posicionamento.

Zandamela veio nos revelar que estávamos a sair da crise, quando a dura realidade indica que os dias que nos esperam serão ainda mais dolorosos. Então essa oratória, na óptica do povo e dos analistas abalizados, está desprovida de qualquer sentido. O bom do governador veio agravar mais os sentimentos ao dizer que não era nenhum tolo ou doído ao dizer o que disse. Seja como for, é preciso que os dirigentes  de topo tenham atenção na forma como dizem as coisas nos órgãos de comunição social.

Rafael Marques, um jornalista e activista angolano, exilado aparentemente em Portugal, numa entrevista à um jornal luso, afirmava, a dado passo, que o Presidente angolano João Lourenço, apesar de ser escrupuloso na gestão do Estado, é bruto na forma como ele anuncia as suas decisões.

Ora bem, esta semana o governo moçambicano materializou a subida da tarifa a cobrar nos transportes urbanos de passageiros, vulgo “chapa cem”. Não que a comunicação tenha sido feita de forma inadequada, mas acabou sendo violenta quando o dia da entrada em vigor da nova tarifa foi acompanhado de carros de guerra na  rua, apontados para a alma dos pacatos e honestos trabalhadores que já se tinham conformado com a medida. Gratuíta exibiçâo de armas para quem só pedia transporte !

Para quê tanta ameaça e exibição de força desproporcional contra trabalhadores que ruminam diariamente as dores de levarem para casa o pão amassado pelo diabo?  Pelo que se sabe, até prova em contrário, ninguém estava predisposto a enveredar pelos tumultos naquele dia. Todos pareciam, mais do que conformados, resignados com a medida. Até porque o que vai abafar qualquer levantamento popular, não serão, concerteza, as armas. Temos exemplos claros em muitos cantos do mundo.

Foi chocante ver pela manhâ carros de comabte e agentes da UIR, prontos para cair sobre  o povo. Que luta todos os dias para sobreviver. As armas nunca resolveram problemas, antes pelo contrário. Ademais, os utentes de transporte público de Maputo e Matola já estavam por demais preparados para aquele dia. Nas vésperas eles nunca mostraram sinais de revolta nem de promover desacatos. O que eles queriam é que houvesse mais transporte. Quase todos eles estavam conformados,  pois diziam: “está decidido, é para fazer mais o quê!?”.

Estas palavras deviam ter comovido aos nossos dirigentes, e não atiçar neles a necessidade do uso da força. No Brasil, em particular no Rio de Janeiro, a Polícia mata todos os dias em nome da lei, e mesmo assim não consegue parar o crime. Agora o governo mandou militares para as ruas, a fim de fazer o trabalho da Polícia, porque as armas policiais nunca conseguiram estancar as elevadas ondas de crimes, muitos deles de índole racial. E esta atitude de despachar miliatres para as ruas já foi condenada pelas Nações Unidas.

Seja como for, o que leva aos tumultos populares, são as injutiças. E se o nosso governo não quer amanhã um derramamento de sangue gratuito é urgente  resolver de  forma  sustentável o problema dos transportes nas cidades de Maputo e Matola.

Um forte abraço !

Alfredo Macaringue

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