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COM uma força assombrosa para uma garota da sua idade, um corpinho daqueles, abraçou o seu apaixonado e disse-o que não gostaria de morrer daquele jeito. Que nunca aconteça que as pessoas passem por situação igual: andar por cima de cadáveres humanos de fresco.

No dia seguinte continuaram carregando a colega e no mesmo dia começou a queima das pessoas, dos mortos. Fazia muito calor e as pessoas apodreciam. Abriam enormes buracos e para lá atiravam os corpos. Regavam-nos com combustíveis ao que depois ateavam fogo.

E então Hiroshima se transforma num gigantesco crematório.

A cidade exalando um cheiro nauseabundo.

Ao terceiro dia, sabendo que a sua cidade não tinha sido atingida, cuidou de para lá regressar. Pelo caminho cruza-se, por mero acaso, com o seu pai que já ia no terceiro dia à procura da filha. Levava numa sacola a tira-colo um bolinho de arroz. Na altura havia falta de arroz, mas a mãe se desenrascou e confeccionou um bolinho de arroz para a filha.

O pai andou três dias à procura da filha com aquele bolinho guardado. Percebeu, então, o grande amor dos seus pais por ela.

Voltaram para casa e aí as febres, a dor da ferida no braço cada vez mais forte. Saíam vermes do braço. Dois meses depois, por lá apareceu um médico. Um cirurgião. Tirou, do braço dela, sete pedaços dos escombros.

O pai dela estava a dois quilómetros e meio do local da explosão, mas mesmo assim ficou afectado pela radiação residual da bomba atómica quando andava à procura da filha. Dois anos e meio depois morreu. E ainda hoje as pessoas morrem. Morrem de leucemia. Morrem de cancro. setenta e dois anos depois da bomba de Hiroshima .Ela teme que o efeito possa ser transmitido aos seus filhos, aos seus netos.

Depois da guerra, foi a crueldade da vida. A mãe também foi afectada e passou a vida nos hospitais. E vinte anos depois também morreu. Tinha que trabalhar para sustentar a família: mãe mais três irmãozinhos. Sem comida para os dar. Tinha nessa altura dezasseis anos de idade e a renda que conseguia não chegava para fazer compras no mercado negro. Pior. Uma mulher que tinha sido atingida pela bomba atómica era discriminada. Nenhum homem a queria em casamento, nem para o simples gozo da vida.

Aqueles que morreram sentiam o inferno. Aqueles que sobreviveram, sentiam o inferno.

Mas ela viria a casar. O seu tio falou com um homem que veio a casar-se com ela e tiveram dois filhos, quatro netos.

Ficou de pé na piscina. O seu homem de fresco imitou o gesto. Segurou-o pelos ombros e olho no olho disse que odiava os Estados Unidos da América. Odiava o governo japonês por se ter metido na guerra.

Uma bomba nuclear hoje tem um poder bem maior que a daquela época. Daquele tempo. Tem de se extinguir a arma nuclear da face da terra. Os líderes mundiais têm de fazer por que estas armas deixem de existir.

E depois foi um grande beijo. Ali mesmo. Desapareceram de mãos dadas, para onde e para o quê, negócio deles.

Ele. Ele depois viria a aparecer sozinho. Sem a sua Kadjimoti. Estava com a cara de um homem com um misto de tristeza e de felicidade: o que foi a bomba atómica e seus efeitos; a sua paixão de fresco. Voltou a aparecer no Museu inaugurado em mil novecentos e cinquenta e cinco. Sortudo o tipo. Desta acompanhado pelo director do museu, foi ouvindo ao pormenor a explicação sobre a paisagem diversa ali exposta. O antes e o depois do seis de Agosto. Os bens das vítimas, sobretudo roupas (que sobreviveram ao que seus donos não residiram), de raparigas e de rapazes. E mais comovente ainda, um triciclo de uma criança de quatro anitos que morreu nesse seis de Agosto. Os pais foram, depois, doar esse descarnado triciclo ao museu. Ele, o triciclo, está naquele museu como símbolo do barbarismo americano nesse tempo.

No final da visita, desceu as escadas com a cabeça em turbilhão. Caminhou em direcção ao memorial. Atingiu a zona da piscina onde antes estivera com a sua Kadjimoti. Uma piscina homenageante àqueles que pela sede passaram para além da esfera dos fazeres humanos. Vem lhe à memoria os segundos, os minutos, as horas acabadas de viver naquele lugar com a sua paixão. E então o engordar do coração, seguido de uma torrente de lágrimas, outra vez, de encantamento.

E a chuva não pára de cair. De cair a cântaros. Mas ele não a sente. Melhor, sente-a lavando-lhe a alma. E isso o leva a mais desejo de percorrer o lugar onde a bomba atómica foi depositada para depois explodir e desde então matar até os dias de hoje.

E em um restaurante francês, no aeroporto de Tóquio, despediram-se calorosamente num jantar com sombra da luz de duas velas de cor-rosa. E no final, a saudade. A saudade do peixe cru. A saudade de um homem que chegou. Encantou. E ela abriu o seu coração. Se abriu cantando apelos à humanidade para a paz, para o amor e para a justiça.

E ficou gravado um olá Kadjimoti.

Djenguenyenye Ndlovu

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