SE a igualdade de género na educação se medisse, apenas, pelo número de raparigas e rapazes que ingressam na escola, a escola Secundária da Moamba seria uma das campeãs: tem igual número de meninas e meninos, havendo em algumas classes mais alunas.

Apesar desse ganho, há muito por se fazer para garantir a equidade de género, pois ainda há alunos que abandonam as aulas devido ao casamento e gravidez precoces, falta de motivação, ambiente escolar não favorável para atender a situações particulares das raparigas.

É na esteira destes problemas que o FAWEMO – Fórum da Mulher Africana Educadora em Moçambique, parceiro do Governo, lançou esta semana naquela instituição de ensino um projecto denominado “Escola Amiga do Género” para garantir que meninas e rapazes estejam num ambiente escolar favorável ao género, onde todos tenham oportunidades, direitos e deveres iguais. (mais detalhes na caixa)

Localizada na província de Maputo, a Escola Secundária da Moamba conta com mais de cinco mil alunos inscritos este ano para o curso diurno. Mas, nem todos vão concluir a classe, sobretudo meninas que engravidaram, casaram-se, havendo algumas que partiram com seus companheiros para a vizinha África do Sul.

“A nível do distrito, temos problemas sérios de gravidez precoce e desistências sobretudo de raparigas. Ano passado registamos mais de 15 casos e este ano cinco. Felizmente, com a ajuda de Organizações Não Governamentais, conseguimos recuperar maior parte delas e já retomaram às aulas no curso nocturno ou a fazer o ensino à distância”, explica Carlos Mula, director da Escola. 

Segundo o director, a maioria das meninas da escola Secundária da Moamba engravidam na adolescência aos 16 e 17 anos, havendo casos excepcionais de gravidezes de alunas com 14 e 15 anos, tal como foi registado este ano.

Para Regina Cuna, membro do conselho e mãe da escola, o grande problema de casamentos precoces é o facto de persistirem pensamentos a nível da comunidade de que o lugar da menina é no lar, machamba e em trabalhos domésticos.

“Trabalhamos na sensibilização para que as meninas e rapazes se abstenham das relações sexuais para se prevenirem da gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, mas está a ser difícil. Com acesso à internet, televisão, os meninos vêem tudo e aplicam. Quando chamamos atenção dizem que estamos ultrapassados”, aponta Regina Cuna.  

Ambiente escolar e conteúdos académicos não favoráveis                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

O ambiente escolar e os conteúdos académicos, sobretudo imagens que acompanham os textos, em algumas vezes, são apontados como não sendo favoráveis ao equilíbrio do género.

Segundo Cristina Tembe, Presidente do Conselho de Direcção da FAWEMO, folheando os livros escolares é notária a discriminação das actividades baseando-se nas questões do género. Apontou exemplos de figuras que destacam o homem quando se trata de pescar ou na realização de experiências de física e química. Em contrapartida, quando se ilustra uma família, geralmente a mulher aparece sentada na esteira e o homem no banco ou cadeira.

Fora os conteúdos, a concepção de que o homem é “superior” e que deve ficar na dianteira em relação à mulher estende-se para a sala de aulas, onde as raparigas são menos participativas na discussão dos conteúdos em relação aos rapazes, razão pela qual a maioria dos melhores alunos da escola são rapazes.

“Aprendemos esta forma de pensar na família e transportamos para a escola. Mesmo nas actividades escolares priorizamos na limpeza do pátio as meninas e dos curais e abertura de covas, os rapazes”, observa o aluno da 12ª classe, Sheldon Lírio, 17 anos.

Para Sheldon o mais grave é o que se verifica na sala de aula quando alguns professores dão mais atenção aos alunos que às alunas, pois acham que eles são mais capazes em trazer soluções dos problemas apresentados.

“Este pensamento contribui para que as meninas se sintam inferiores aos homens, incapazes e desmotivadas na sala de aula”, refere aluna da 10ª classe, Géssica Rocha, 15 anos.

Contudo, Romão Pindula, professor de Filosofia, disse que na sua disciplina cria condições para que meninas e rapazes tenham igual oportunidade de participar na aula. Para além disso, avançou que há conteúdos transversais que falam dos valores éticos e morais e o respeito pelos direitos humanos sem a distinção da raça, cor e sexo.

“ Na minha turma, o melhor aluno é uma rapariga. Há situações em que as raparigas são mais dedicadas na aula do que os rapazes. É verdade que temos casos de alunas com baixa auto-estima, às vezes têm ideias para participar activamente na aula, mas não as expressam. Para eliminar esse tipo de problemas, procuramos fazer grupos de estudos mistos em que juntamos os mais activos e os menos para inter-ajuda”, aponta Ilda Macie, professora de língua inglesa. 

“Nós não estamos a favor das meninas, nem dos rapazes. O que pretendemos é que as raparigas e rapazes estejam em situações iguais, obrigações iguais e direitos iguais”, observa Cristina Tembe, a falar dos propósitos do programa “Escola Amiga do Género”, uma iniciativa que foi acolhida pela maioria dos intervenientes da escola, desde alunos, professores, direcção,  funcionários até comunidade que participaram no lançamento.

“Escola amiga do género”

O projecto Escola Amiga do Género foi concebido pelo Fórum da Mulher Africana Educadora (FAWE) e iniciou 1999 em diferentes países da África nomeadamente Quénia, Ruanda, Senegal, Tanzania, Namíbia,  Gámbia, e Burquina Fasso.  Nesses países, a experiência mostra que o modelo tem melhorado a participação de raparigas na educação, entende Cristina Tembe, presidente do Conselho de direcção da FAWEMO.

Com este projecto pretende-se que o ambiente académico, social e físico incluindo a comunidade circunvizinha da escola estejam de acordo com as necessidades específicas quer das raparigas, quer dos rapazes.    

“Isto implica que os professores, pais, líderes da comunidade e seus membros, rapazes e raparigas estejam cientes e pratiquem a igualdade de género”, explica Cristina Tembe.

Para além disso:

  • Assume-se que os sistemas de direcção da escola, políticas e práticas reconheçam e enderecem o género ou as necessidades baseadas no sexo de ambos – meninas e meninos.
  • A entrega académica incluindo as metodologias de ensino, materiais de ensino e aprendizagem, interacção na sala de aula, gestão de processos académica são receptivos ao género.
  • Que os rapazes e raparigas sejam empoderados a praticar a igualdade de género e proteger os direitos democráticos e humanos de ambos os géneros.
  • Inclui-se também o ambiente físico na escola, edifícios, mobiliários e equipamentos que também devem ser amigáveis ao género.Em Moçambique, a Escola Secundária da Moamba é a primeira a desenvolver o projecto que conta com o apoio do Fundo Global. Na primeira fase, o projecto será implementado em um ano e vai dar prioridade ao treinamento de professores em pedagogia do género para além de fortificar as iniciativas existentes da escola que estimulam a participação activa da rapariga, fez saber Francisca Nobre, coordenadora da FAWEMO. A primeira formação foi realizada esta semana e juntou para além de professores, alunos, direcção da escola, comunidade, representantes do Ministério da Educação a nível central e distrital. Ainda nessa fase, a instituição vai ajudar a escola na sensibilização da comunidade para que permita que a rapariga vá à escola porque “não é possível atingir-se o desenvolvimento sem a participação activa da Mulher”, refere Francisca Nobre.  

Evelina Muchanga

 

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