QUANDO Ester Marieta, 22 anos, apercebeu-se que estava prestes a deixar de estudar porque a mãe já não tinha dinheiro para custear os seus estudos, porque o pouco que ganhava como empregada doméstica tinha de ser usado nas restantes despesas, decidiu encarar a realidade: arregaçar as mangas e começar a vender amendoim torrado nas ruas da cidade de Maputo.

Encontrámo-la na Avenida Karl Marx, sentada num papelão, com o olhar fixo num livro. Ester estava a preparar-se para as últimas provas da 12.ª classe. Enquanto isso, esperava que alguém se interessasse pelo produto que estava a vender.

“Não foi fácil convencer a minha mãe que eu deveria fazer alguma coisa. Emagreço, chego até a ficar doente quando me vejo na possibilidade de ter de abandonar a escola. Acho que não suportaria”, conta Ester.

Desde os cinco anos que Ester ajuda a mãe a aumentar a renda de casa desenvolvendo pequenos negócios em sua residência no bairro de Mavalane, arredores da capital moçambicana. Inicialmente, vendeu pão colorido. Aos 12 anos aprendeu a torrar e vender amendoim, enquanto a mãe ia ao trabalho. Tudo fazia em casa porque a sua progenitora não aceitava que fizesse o negócio na rua.

“Não conheci o meu pai. A mamã diz que ele não assumiu a gravidez. Aprendi desde cedo a trabalhar para estudar. Sei conciliar a escola com as tarefas domésticas e a venda. Nunca faltei às aulas. Parecendo que não, tenho muito tempo para estudar porque enquanto não aparecem clientes, revejo a matéria”, explica.

Ester gosta da disciplina de Filosofia, mas sonha em fazer Medicina. Inspira-se na escritora Paulina Chiziane. Todavia, o sonho de ser médica pode demorar a acontecer. Ester faz saber porquê: “A universidade exige mais tempo e recursos financeiros. Os lucros do negócio e o que a mamã ganha não serão suficientes. Somos quatro irmãos, alguns precisam de dinheiro de chapa para ir à escola. O que me resta é procurar emprego formal para, à noite, poder frequentar a universidade. Sei que um dia sairei desta situação”.

Ester é apenas um exemplo de várias mulheres, sobretudo jovens, que, diariamente, saem de casa ao romper do sol com destino às ruas da capital moçambicana a fim de desenvolver pequenos negócios ou outras actividades para sustentar os seus estudos e famílias.

Estudos feitos apontam que cerca de 85 por cento de moçambicanos economicamente activos encontram-se no trabalho informal. A maior parte são mulheres que olham para esta actividade como fonte de renda, alcance da independência financeira e combate à pobreza. 

NÃO SOMOS INSIGNIFICANTES

O “Notícias” ouviu nas ruas de Maputo a experiência de mulheres que desenvolvem as suas actividades naqueles pontos. Perguntámo-las o que mudou na sua vida desde que iniciaram o trabalho, as suas ambições como mulheres e as dificuldades que enfrentam diariamente.

Para algumas, procurar fontes de sobrevivência nas artérias da capital não tem sido fácil. Contam que, vezes sem conta, passam por situações nada agradáveis. São vítimas de assédio sexual e insultos porque, depois de consumirem o produto que vendem, alguns clientes dizem que não tem qualidade.

“Há pessoas que não nos respeitam. Olham para nós como se fôssemos pessoas insignificantes por estarmos a trabalhar na rua. Mas nós sabemos porquê estamos aqui. Temos sonhos a alcançar. Hoje não estou a estudar, mas espero voltar para melhorar ainda mais a minha vida. Não somos insignificantes”, desabafa Alice Nhaca, 31 anos, vendedora de laranjas e mandioca fresca.

Com sexta classe, Alice é mãe de dois filhos. Conta que interrompeu os estudos para cumprir obrigações caseiras. Diariamente, sai de casa às 5.40 minutos para adquirir o produto que vende no mercado de “Xikhelene”, cidade de Maputo. Até às 8.00 horas está já com o produto na bacia e começa a vendê-lo de esquina em esquina nas principais avenidas da capital.

“Comecei por comprar laranjas de 100 meticais, mas tinha pouco lucro. Fui juntando dinheiro e hoje consigo 300 meticais de rendimento por dia. Já não espero pelo salário do meu marido para cobrir as despesas de casa”, anima-se Alice.

A nossa fonte conhece a importância de estudar na vida da pessoa e justifica porquê interrompeu os estudos: “Estou num dilema. Por um lado, preciso trabalhar para sustentar as despesas, por outro, tenho filhos por cuidar. Por isso não sobra tempo para ir à escola. Só volto para casa por volta das 14.00 horas. Tenho de cozinhar, lavar e cuidar da casa. Sobra-me pouco tempo”.

CAMINHAR À BUSCA DE AUTONOMIA FINANCEIRA

Fácil é torrar amendoim, mas caminhar à busca de clientes é a tarefa mais difícil para Azélia Numaio, 17 anos, órfã de mãe e pai desde os oito anos. Às 10.00 horas, esta menina sai da casa dos avôs, com os quais mora nos arredores da capital moçambicana, para mais uma jornada de trabalho.

“Aprendi a torrar amendoim com uma vizinha. Já estava a precisar de desenvolver alguma actividade para ganhar algum dinheiro. Não queria que os meus avôs continuassem a custear as despesas da minha escola”, explica Azélia, aluna da 9ª classe.

Esta rapariga fez saber que desde que começou a vender não lhe faltam cadernos, livros, entre outro material escolar. “Está a valer a pena o esforço que faço. Estou aos poucos a conquistar a minha independência económica, enquanto vou à escola”, aponta Azélia.

Para conseguir conciliar os estudos e a venda de amendoim, Azélia explica o truque: “Como não tenho um ponto fixo para vender, onde poderia fazer a revisão da matéria, procuro clientes onde outras vendedoras não conseguem chegar, para que até às 14.00 horas esteja em casa”.

O SONHO DE SER MÉDICA

Teresa Germano, 22 anos, é outra mulher que trabalha na rua. é arrumadora de carros na capital moçambicana há um ano. Eis um pouco da sua experiência: “É importante para mim ter este emprego. Consigo pagar a matrícula, comprar livros e cadernos. Ajudo também nas despesas de casa”.

Todavia, Teresa contou que teve de interromper os estudos em Agosto deste ano quando deu à luz o seu primeiro filho. “Trabalho até às 17.30 horas. Depois volto para casa amamentar o bebé. As aulas começam às 18.00 horas, se estudasse atrasaria todos os dias. Voltarei à escola no próximo ano para um dia ser médica”, justifica-se.

A nossa fonte conta que o difícil no seu trabalho é o comportamento de alguns condutores que, por vezes, não aceitam pagar a taxa de estacionamento alegando que o local onde guardaram o carro não existem condições de saneamento adequado ou porque as vias de acesso são péssimas.

Evelina Muchanga

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