NASCERAM em diferentes famílias e pontos do país, mas todas têm algo em comum. Livraram-se da violência doméstica e da pobreza. Hoje são empreendedoras e algumas activistas de Direitos Humanos nas comunidades onde vivem.
Falo de quatro mulheres anónimas, para alguns, mas bem conhecidas e admiradas por outros, pelo reconhecimento do trabalho de sensibilização que têm feito em prol do combate à todas as formas de violência e discriminação praticadas contra a mulher.
São elas Lina Sitoe (53), Acina Taímo (41) Rosa Joaque (41) e Alcinda Zimba (45 anos). Convidámo-las a contar as suas histórias de superação do pesadelo de violência de que foram vítimas até abraçarem o negócio e hoje se considerarem “ricas”.
“Dormia na esteira. Os meus filhos nem esteira tinham. Estendia uma capulana na terra não cimentada da palhota que tínhamos. Hoje tenho uma casa melhor. Tenho até ar condicionado. A minha filha mais velha está a terminar a universidade, outro já trabalha”, recordou Rosa Joaque.
A história da Rosa iniciou em Chimoio (província de Manica), sua terra natal, quando conheceu um homem, por sinal militar. Engravidou e abandonou a escola. Aos 18 anos engravidou do segundo filho e o marido, na altura, decidiu levar a família para a casa dos pais, na província de Gaza. Aqui, Rosa não podia ter um trabalho remunerado mas sim se dedicar à machamba e às tarefas de casa. Nesta rotina teve mais três filhos.
O marido tirou-os da casa dos pais e arranjou um espaço no Bilene (província de Gaza). Abandonou-a, com cinco filhos. A mais velha tinha oito anos e o mais novo ainda alimentava-se de leite do peito. “Até hoje não conheço o paradeiro dele”, disse.
Para sobreviver esta mulher procurava emprego, trabalhava um ou dois anos e era despedida porque, por vezes, faltava ao trabalho para cuidar das crianças.
“Sofri muito. Os meus filhos foram picados por pulgas que tínhamos na casa de construção precária”, lembrou Rosa.
Contudo, fez saber que sempre que recebesse o salário, guardava um pouco de dinheiro para questões pontuais. Foi com esse dinheiro que Rosa iniciou o seu negócio. Começou por vender pão, doces e refrigerantes. Hoje é proprietária de um estabelecimento de venda de refeições confeccionadas, onde emprega duas pessoas, e um salão de cabeleireiro que está sob gestão do terceiro filho. Ambos estabelecimentos têm registo oficial.
“Tenho contas bancárias, algumas a prazo. Os meus filhos já têm um rumo. Sou rica”, disse, alegando que o que lhe falta é comprar uma carrinha para dinamizar ainda mais o negócio.
Esta mulher e outras criaram uma associação denominada Hluvuka Wansati (Desenvolva Mulher, na tradução livre), constituída na sua maioria por mulheres (35) e cinco homens. Iniciou com um fundo, em 2014, de sete mil e oitocentos meticais e hoje cresceu para cerca de 250 mil meticais.
OS 60,00MT QUE MUDARAM A VIDA DE ALCINDA ZIMBA
COM a separação dos pais, Alcinda Zimba ficou na responsabilidade dos quatro irmãos aos 14 anos. O mais novo tinha dois anos. “A minha mãe abandonou-nos quando se separou do meu pai, que já vivia na cidade de Maputo, e nós em Namaacha (província de Maputo). Sofri muito. Tinha de ir à escola com a minha irmã mais nova. Para comer sachava as machambas dos vizinhos, que em troca nos davam alguns alimentos. Vivemos nestas condições por dois anos”, contou.
Aos 16 anos, Alcinda já conseguia tirar lenha da mata e vendia para alimentar os irmãos. Já não tinha como continuar com os estudos, até que procurou pelo pai, que voltou a assumir as suas responsabilidades, mas porque ele vivia na cidade de Maputo esta mulher, na altura adolescente, continuava a cuidar dos seus irmãos.
“Num dia, quando voltava da mata, apanhei 60,00 meticais. Foi com esse dinheiro que iniciei o negócio. Comprei amendoim e revendi no bairro. Actualmente tenho um estabelecimento de venda de vestuário”, referiu.
DIZIA QUE TENHO ESPÍRITOS
ACINA Taímo, mais conhecida por Menininha na sua zona, trabalha a madeira e produz diverso mobiliário de sala, cozinha e quatro. Aprendeu a profissão do pai, que era carpinteiro, a cortar e limar a madeira. Foi este ofício que a tornou empreendedora.
“Vivi com o meu ex-marido por algum tempo. A relação não estava a dar certo. Ele dizia que tenho espíritos que lhe estavam a arruinar a vida. Traía-me com outras mulheres”, lamentou.
Cansada, Acina decide voltar para a casa dos pais e passou a viver e a trabalhar na carpintaria do seu irmão, onde aprendeu a fazer sofás.
O irmão deu-lhe 7500,00 meticais em 1997 para ela iniciar o seu próprio negócio. “Gradualmente o negócio foi crescendo e hoje tenho a minha carpintaria. Faço quase todo o tipo de mobiliário, mas prefiro mais sofás. A ideia inicial que lhe ocorreu foi de ter uma carpintaria onde trabalhem só com meninas. Mas está a ser difícil. Elas não querem, acham que este trabalho não é adequado para elas e desistem”, queixou-se.
Contudo, sente-se realizada pelo facto de ter tirado a sua licença de condução, construído e estar a sustentar a filha e sobrinhos.
SENSIBILIZAR PARA A PREVENÇÃO DE DOENÇAS 
QUANDO Lina Sitoe encontrou o marido numa relação íntima com outra mulher esperava que ele lhe pedisse desculpas, mas não foi o que aconteceu. Ele e a amante agrediram e humilharam-na em público.
“Dizia que eu era doente e me humilhava. A amante sempre que me encontrava na rua gozava comigo, alegando que o amor deles era tão forte que eu não ia os separar”, recordou.
Ciente do problema de saúde que ela tinha, Lina persistiu no tratamento e hoje transformou-se numa activista e empreendedora. Ela formou grupos de mulheres e homens que trabalham na comunidade onde vivem, em Namaacha, nos cuidados dos doentes e na sensibilização dos profissionais da Saúde para um bom atendimento aos utentes das unidades sanitárias.
“Trabalho na área de Saúde Sexual e Reprodutiva. Sensibilizo os jovens a se prevenirem do HIV e a fazer os testes. Ensino que é possível viver com o HIV. Eu sou exemplo disso. Descobri que era HIV positiva em 1996”, disse.
Para além de conversar com os utentes nas unidades sanitárias Lina trabalha nas comunidades, contando, para tal, com a colaboração dos líderes comunitários, que ajudam na identificação de pessoas que necessitam de apoio.
UMA TROCA DE EXPERIÊNCIAS
LINA Sitoe, Acina Taimo, Rosa Joaque e Alcinda Zimba são beneficiárias de um programa de capacitação em empreendedorismo virado para mulheres vítimas de violência baseada no género.
Concebido pela Gender Links, há dois anos, o programa está a ser desenvolvido em 19 municípios, dez dos quais já beneficiaram de três fases de capacitação.
A directora executiva da Gender Links em Moçambique, Alice Banze, fez saber que o programa focaliza numa abordagem integrada de habilidades de vida e formação para o empreendedorismo, incluindo a criação de confiança, tomada de decisão, gestão de negócios, uso de tecnologias de informação e redes sociais.
Segundo ela, as pesquisas feitas nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane demonstram que mulheres vítimas de violência mesmo depois de fazer queixa retiram-na devido ao fraco poder económico, o que as torna vítimas recorrentes deste mal social.
Contudo, as beneficiárias do programa, que abrange 220 sobreviventes de violência de 10 municípios do Sul do país, relatam ter aprendido a gerir os lucros e a fazer poupanças e com isso expandir os seus negócios. Elas têm feito intercâmbios com outras mulheres do país e além-fronteiras, tal como vai acontecer na próxima semana no decorrer da Cimeira Nacional do Protocolo da SADC, a decorrer na cidade de Maputo.
EVELINA MUCHANGA
