Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

CELEBRA-SE hoje, 7 de Abril, o Dia da Mulher Moçambicana em reconhecimento do seu envolvimento activo na busca de soluções para o processo de desenvolvimento do país. A data é comemorada numa altura em que a sociedade assiste, quase que frequentemente, casos de violência, algumas vezes protagonizada por mulheres.

Para falar sobre este assunto, conversámos com a Coronel na reserva Marina Pachinuapa, uma mulher que despensa apresentações, pois é bem conhecida na sociedade. Participou na luta de libertação nacional e é membro-fundador do Destacamento Feminino, entidade criada com o objectivo de emancipar a mulher, isto é, garantir que esta tenha espaço para se expressar e contribuir para o bem do país. Hoje, mostra-se preocupada com o rumo que algumas mulheres estão a seguir, quando se abdicam do seu papel social de mãe, educadoras e pacificadoras e optam pela violência. Chama atenção: “queimar o marido não é emancipação, é crime”. Acompanhe a conversa:

NOTÍCIAS (Not.) -Que significado tem para si o Dia da Mulher Moçambicana?

MARINA PACHINUAPA (MP) -É um dia muito importante para mim. Quando o Destacamento Feminino (DF) pensou, em 1973, criar a Organização da Mulher Moçambicana (OMM) pretendia garantir que aquelas mulheres que não eram militares, que não tinham espaço para se expressar, tivessem um fórum em que pudessem trocar experiências e debater assuntos relacionados com a mulher e contribuir para o bem-estar do país. O objectivo era de garantir que a mulher se libertasse, falasse, discutisse e trocasse ideias úteis para o desenvolvimento de Moçambique. Nós como militares já trocávamos experiências e sentíamos o quão isso era importante, porque permitia que todos contribuíssemos em algo para a nossa pátria.  

Not. –Acha que o vosso objectivo está a reflectir-se na realidade actual?

MP– Sim. Temos mulheres envolvidas em diferentes ramos de actividade. A mulher já tem opinião, diz aquilo que está bem e o que não está. Ela sugere como se pode conseguir melhores soluções para alguns problemas sociais, políticos, económicos, culturais. Hoje, quando olho para a mulher moçambicana, mesmo nos locais mais distantes do distrito, vejo que ela consegue exprimir o que sente, e isso é importante. O 7 de Abril é uma pedra preciosa para moçambicanas.

Esquecemos quem somos

Para a nossa entrevista, há que olhar o contexto social em que o país vive para interpretar alguns actos de violência que ocorrem na sociedade.

Not.– A OMM defende a emancipação da mulher. Qual é o real sentido da emancipação?

MP –Emancipação é o mesmo que libertar e dar independência à mulher. Ela conquistou esta libertação quando mostrou ser capaz de estar junto ao homem na luta de libertação nacional. Não foi fácil. Naquela altura, a mulher não tinha direito à opinião e alguns homens que estavam na guerra transportavam consigo esse princípio. Mas a mulher lutou e conseguiu conquistar o seu espaço. Emancipação quer dizer que homens e mulheres são iguais e juntos podem contribuir para o desenvolvimento do país.

Not. –Há quem associa a emancipação da mulher à violência protagonizada por algumas mulheres no lar. Concorda?

MP- Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Durante a luta de libertação e um pouco depois da independência já tínhamos mulheres emancipadas, mas não se assistia a situações de mulheres que agrediam os esposos. É preciso entender bem o tempo em que nos encontramos. Naquela altura não tínhamos televisão, o que se passava nos Estados Unidos, no Brasil e noutros sítios não sabíamos, mas hoje assistimos tudo o que se passa no mundo.  

Not. –Pode explicar melhor…?

MP– A novela, por exemplo, muitas vezes critica a forma como a sociedade se comporta, assim como no teatro, mas o problema é de não percebermos a mensagem que transmitem. Pensamos que é natural uma mulher bater no seu marido. Pegamos nisso e implementamos na vida real. Eu questiono-me que era essa maneira de viver dos nossos avós e pais, será que eles não tinham problemas. Tinham sim, sentavam e dialogavam em família. Hoje, a mulher grita para o marido, o marido grita para a esposa, as crianças estão a ver. Tudo isto para dizer que perdemos muito os nossos valores, a nossa maneira de ser e estar. Nós esquecemos quem somos e de onde viemos.

Há que censurar a informação

FILTRAR a informação que passa nos diferentes meios de comunicação social é uma das vias que a sociedade pode encontrar para evitar perpetuar actos de violência.

Not. -O que sugere como solução para estes problemas?

MP- Será muito difícil. As pessoas não olham para as suas raízes, os seus valores culturais e morais. Outros pensam que o que assistimos do mundo fora é melhor para a sociedade, enquanto não. Quando tentamos falar com as pessoas mais novas sobre os nossos valores e princípios, dizem que isso é passado, eu estou livre de fazer as coisas como acho melhor. É passado sim, mas há algo positivo que podemos buscar, como por exemplo o respeito que é uma riqueza para a família e para o país. A mulher deve saber o seu papel na família e na sociedade. É muito complicado. É preciso seleccionar o positivo naquilo que assistimos na televisão. As coisas que não são boas, às vezes é preciso evitar ver, como, por exemplo, histórias de mulheres que pegam facas espetam nos maridos, queimam o marido. Temos que filtrar bem a informação que passa nos diferentes meios de comunicação social.

Not.- Com isto quer dizer que a mulher não deve esquecer o seu papel social na família?

MP- Sou mulher, tive a vida militar, tenho o meu marido, meus filhos. Sei que devo trabalhar para o bem de todos. Mas quando chego à casa sei que sou esposa e mãe. Tenho empregados em casa, mas faço comida para o meu marido, lavo pratos, limpo. Há vezes que os meus filhos reclamam, mas mãe, nós estamos aqui e eu digo, eu sou a dona de casa. Se fazem limpeza tenho que passar lá ver se o trabalho está bem feito. Eu divido os momentos. Nem tudo o que oiço lá fora, implemento na minha casa, faltar o respeito ao meu marido e família. Sou feliz e tenho orgulho dos meus filhos. Eles são bons. Respeitam muito as pessoas.

Not.- Como é que conseguiu isso?

MP- Digo sempre aos meus filhos: Marina é Marina e não são vocês. O teu pai Pachinuapa é uma pessoa como outra. Nós somos pessoas, aquilo que fizemos foi para o país. Os meus filhos hoje vivem em Maputo, muitos cresceram aqui, mas eles conhecem Mueda (Cabo Delgado), conhecem a povoação antiga onde vivemos antes da aldeia, conhecem onde estão a descansar os avós. Os miúdos cresceram nisso até hoje. Aquilo está dentro deles. A criança tem que ter a auto-estima da família. Se eu estou na cidade, cresci na cidade, eles sabem donde os pais partiram. Faço o mesmo com os netos. É preciso que os filhos tenham referências de suas raízes.

Buscar continuamente o respeito

MARINA Pachinuapa encoraja as mulheres a trabalhar e buscar continuamente o respeito.

Not.- Há algo que a preocupa na sociedade?

MP- Preocupa-me a maneira como as mulheres procuram resolver os problemas na família. Esfaquear, queimar e matar o parceiro. Eu pergunto: onde é que vamos agora, afinal. Isso não é emancipação da mulher, é crime. Emancipação da mulher é dizer, olha, eu tenho que estudar, adquirir conhecimento para ajudar o nosso país. Eu tenho que expor e partilhar a minha ideia para desenvolver o país, seja na machamba, seja no escritório, etc. Gostaria que as mulheres percebessem que devemos estar juntos (homens e mulheres) neste processo de desenvolvimento do país, é para isto que nós lutámos pela emancipação da mulher. Queimar o marido, repito, é crime e não emancipação. O apelo que deixo é de que devemos olhar para a novela e entender que se trata de uma crítica daquilo que não se deve fazer na sociedade e não um modelo a seguir. É preciso recordar o que somos como mulheres. Ser mulher significa busca contínua do respeito, no trabalho, na sociedade, na família, esse é o valor da mulher na sociedade.

Not. -Geralmente, quando fala em público, dirige-se aos jovens. Tem alguma preocupação especial em relação à esta camada social?

MP- Tenho sim. Os jovens são o futuro do país. Há muita coisa que o país precisa. São os jovens que devem fazer. Por isso, o Presidente Samora dizia que a criança é a flor que nunca murcha, é esperança deste país. Este país precisa de jovens. Os jovens devem estudar e usar a sua inteligência para servir o nosso país. Eles devem lutar para desenvolver o país. Por isso, fico indignada quando vejo jovens a beber, excessivamente, e a envolver-se em drogas. Eu questiono-me: que esperança temos para este país? Os jovens devem lutar para desenvolver o país.

Not. –Tem alguma mensagem para a mulher pelo 7 de Abril?

MP-Sim. A mulher moçambicana sabe o que quer, deve continuar a contribuir, onde quer que esteja, na machamba, em casa, nos escritórios, para o bem-estar de Moçambique. Vocês, jornalistas, devem passar informações reais que valorizem o país e o vosso trabalho.

EVELINA MUCHANGA

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