A INTEGRAÇÃO da mulher no mercado de trabalho, que começa com a formação técnico-profissional, continua um desafio a ser vencido, a avaliar pela fraca presença desta na inovação, ciência, tecnologia e engenharias consideradas áreas proibitivas para ela.

Apesar de a coragem e a determinação das mulheres ao longo da história pela sua emancipação terem sido coroadas de conquistas nas áreas de ciência, tecnologia e inovação ainda são necessários esforços visando a contribuição efectiva no desenvolvimento.

Foi a olhar para estes desafios que a nossa Reportagem se propôs a conversar com pessoas que entendam e que tenham algo a dizer sobre como a mulher, no contexto da inovação, pode contribuir para o desenvolvimento económico do país.

Com efeito, o “Notícias” interagiu com organizações que têm estado a trabalhar em prol do equilíbrio do género em diferentes contextos, desde os fazedores de políticas de inclusão na ciência, tecnologia e inovação até instituições que desenvolvem acções de género na academia.

As organizações da sociedade civil, que fazem advocacia a favor do empoderamento da mulher, e empresas do sector privado, que têm vindo a trabalhar com ideias e empreendedorismo voltados para a mulher, também tiveram especial destaque.

Para Langa, director nacional adjunto de Ciência e Tecnologia no Ministério da Ciência, Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional (MCTESTP), o país atingiu avanços significativos na inclusão da mulher e participação nas áreas de ciência e inovação graças aos diferentes programas que têm vindo a ser desenvolvidos.

“Uma das actividades que temos vindo a realizar é o programa criando cientista do amanhã, que nós realizamos em parceria com o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, com objectivo de despertar nas crianças o gosto pelas ciências básicas e fazer com que elas participem activamente nos cursos de ciências, engenharias electrónicas e outras áreas”, disse Benjamin Langa.

É através deste programa que o MCTESTP tem vindo a desenvolver actividades de formação, realizando concursos que visam promover o gosto pelas Ciências Exactas, para além do projecto “Iniciação Científica” que visa potenciar os estudantes moçambicanos com foco para mulher de modo  que ela se torne cientista e dê a sua contribuição para o desenvolvimento do país.

Damos apoio financeiro às iniciativas inovadoras

O GOVERNO, através do programa de inovação, tem estado a prover apoio financeiro aos projectos inovadores desenvolvidos por mulheres como forma de incentivar a sua participação na inovação, ciência e tecnológica.

À luz deste programa, o Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional  tem vindo a fazer acompanhamento financeiro através do Fundo Nacional de Investigação (FNI), apoiando projectos científicos desenvolvidos por mulheres.

Segundo Benjamin Langa, director nacional adjunto da Ciência e Tecnologia no MCTESTP, o problema da inclusão da mulher na inovação começa quando continua a se registar um número cada vez mais elevado a seguir as áreas das Ciências Sociais.

“O facto de continuarmos a ter muitas meninas a seguir as letras e os homens as Ciências, ainda constitui um desafio, daí que temos neste programa, que visa incutir nestas jovens o desejo de abraçar a área das Ciências, cientistas do amanhã”, defendeu.

Para inverter este cenário, o Governo tem estado a apelar aos professores do Ensino Básico a apoiarem as estudantes para que elas possam se interessar pela área das Ciências, facto que tem permitido que algumas mulheres ingressem nos cursos das engenharias, por exemplo.

“A integração depende da qualidade e se nós temos um homem e uma mulher capazes, se ela demonstrar melhores capacidades, com certeza, será escolhida. O que se quer é que estas cientistas tenham a qualidade necessária para responder às exigências do mercado”, sublinhou.

Mulher deve dominar seus direitos

A PARTICIPAÇÃO efectiva da mulher em qualquer área que possa contribuir para o desenvolvimento socioeconómico do país está refém do conhecimento e domínio dos seus direitos fundamentais, tal como defende Dulce Catarina, do Fórum Mulher.

Para a fonte, o empoderamento da mulher na inovação passa por ela conhecer os seus direitos e denunciar todas as situações que possam inibir o seu ingresso e crescimento no mercado de trabalho.

“Um dos desafios que temos é trazer a mulher rural para que possa conhecer os seus direitos e ter uma bagagem de conhecimento que lhe permita lutar pelos seus direitos, principalmente no mercado de trabalho. Elas precisam de emprego, mas tem de cumprir as suas obrigações no seu lar, o que coloca em choque muitas vezes estas duas responsabilidades”, explica.

No seu entender, a mulher em qualquer uma das circunstâncias precisa de vencer os seus medos, mas, no entanto, ela sofre calada e não está a denunciar os casos de violência de que é vítima, embora haja um aumento significativo das denúncias dos casos de violência.

“A violência doméstica não se circunscreve na agressão física, que nós conseguimos notar, existe a psicológica que cria trauma para as mulheres. Elas precisam de se abrir e conhecer os caminhos para terem uma maior liberdade para sua integração”, acrescentou.

No domínio da participação na inovação, ciência e tecnologia, Dulce defende que a questão da inovação, embora pouco falada, tem estado a levar à integração de muitas principalmente as que são desafiadoras e gostam de abraçar novas frentes.

Vejo mulheres a crescer em negócios inovadores - Sara Faquir , co-fundadora da IdeaLab

A IDEIA de inovação não pode ser olhada apenas do ponto de vista de ciência e tecnologia, pois ela está ligada não só às questões tecnológicas, como também aos modelos de negócios construídos e implementados aos produtos criados e modelo de “marketing” apostado.

Para a co-fundadora da IdeaLab, uma instituição com foco na promoção do empreendedorismo e inovação, apoio às pequenas e médias empresas e áreas de trabalho relacionadas com inovação, cresce o número de mulheres que prospera graças a negócios empreendedores.

“Ao longo destes anos temos trabalhado com muitas mulheres empreendedoras, inclusive temos uma rede FemTech, que é de mulheres empreendedoras e têm participado nas nossas acções de trabalho. Tenho visto mulheres a crescer nos negócios que são inovadores”, disse.

Sara Faquir afirma ter visto muitas mulheres a entrar no mercado de trabalho, a trazer conceitos que são distintivos e as fazem distinguir de quem já está no mercado, uma das componentes a ser consideradas quando se fala de inovação.

“Se quisermos falar de inovação e desenvolvimento tecnológico, incluindo as universidades, podemos dizer que instituições do Ensino Superior são um espaço de conhecimento, não apenas o conhecimento que traz a inovação, mas o estímulo da curiosidade nos alunos para lhes fazer procurar novas oportunidades e onde eles podem colocar-se no mercado”, afirmou.

No seu ponto de vista, é preciso distinguir inovação e invenção, pois o que se assiste nos últimos tempos é aumento de invenções, sendo que a distância entre as duas reside na entrada destas no mercado de trabalho.

“Este é o caminho do empreendedorismo, porque não nos basta termos o conhecimento e a experiência, mas precisamos de capacidade para que o nosso conhecimento seja uma mais-valia para trazer estas soluções que o nosso mercado precisa”, concluiu.

Persistem desigualdades na formação e no emprego

AS desigualdades que se registam entre homens e mulheres no mercado de trabalho são resultado dos desníveis na formação académica, onde existe uma maior participação de homens nas áreas da ciência, tecnologia e inovação.

Segundo Duarte Rafael, do Centro de Coordenação dos Assuntos do Género da Universidade Eduardo Mondlane (CECAGE), apesar de se tratar de um problema que não só afecta o país, os desafios ligados à formação das mulheres reflectem-se no mercado de emprego.

“O problema talvez não seja em termos de presença, mas o facto de se saber que as áreas das engenharias, matemáticas, ciências são socialmente mais valorizadas que as letras e se as mulheres são pouco formadas nestas áreas, a nível do mercado de trabalho estão pouco representadas”, disse Rafael, citando autores franceses que defendem que “os países onde as mulheres se dirigem para as áreas  de engenharias, na sua maioria, e os homens para área das letras, também na sua maioria, são países por inventar”.

No seu entender, hoje fala-se do desenvolvimento da indústria mineira no país, da era do desenvolvimento tecnológico, e as pessoas não estão formadas, por isso dificilmente vão estar presentes no mercado de trabalho e beneficiar dos ganhos que este mercado apetecível oferece.

“Os grandes desafios consistem em fazer reformas profundas, reflectir-se profundamente sobre o que é que, no nosso caso, está por detrás de uma orientação diferente entre homens e mulheres, primeiro a nível da formação e depois no mercado de trabalho, o que se pode fazer para que os que têm especialização nesta área das ciências tenham o devido enquadramento”, acrescentou.

Outro problema que se coloca ainda tem a ver com a discriminação da mulher em áreas consideradas masculinas, o que acaba retraindo a sua integração, facto que exige um trabalho de base para que elas se sintam mais à vontade e possam contribuir, de forma efectiva, para o desenvolvimento do país.

ANA RITA TENE

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