A CAPULANA sempre teve um grande valor. Nos tempos idos, as mulheres nunca dispensavam esta peça de vestuário onde quer que fossem. E a prática mantém-se, porém, hoje o seu uso não se limita às mulheres, os homens também a vestem, quebrando assim os estereótipos que dominavam a sociedade moçambicana.

É assim que actualmente vemos mulheres e homens, não somente no simples convívio familiar, mas também noutras ocasiões trajadas das mais variadas peças de vestuários confeccionados na base da capulana.

Busca-se nela o culto aos progenitores da noiva, nas cerimónias de lobolo (casamento tradicional), para além de ser uma vestimenta usada nas danças ao ritmo da marrabenta.

E mais, no tradicional acto de xiguiana (cerimónia de acompanhamento da noiva à casa do esposo depois do matrimónio), a capulana é que faz jus a esta festa, com os participantes a escolher as peças mais garridas para produzirem uma infinidade de modelitos. Uns diferentes dos outros ou mais belos.

Os noivos também apostam num vestuário feito com capulanas do mesmo feitio, como símbolo de juras de amor, fidelidade e eterno compromisso com o enlace.

Nas empresas públicas e privadas, a capulana é um charme porque não só se produzem peças de vestuário, como também está na moda fazer “apliques”, que é colocar retalhos de capulana em camisas e/ou casacos.

O tecido de cores simples não sempre acompanhou gerações. A capulana é, entre outras formas, usada para dar boas vindas a um recém-nascido. As mães não resistem à emoção quando recebem um presente dos “mucumes” (duas capulanas ou mais ligadas por uma renda).

A cada dia raiam novas formas de confeccionar peças de roupa com capulana. É comum ver pessoas trajadas de fatos e calçados ostentando o colorido deste tecido. Gradualmente, a moda prevalece.

Em todo lado vão surgindo pessoas dedicadas à confecção de artigos na base da capulana. A demanda também vai aumentando na medida que tal se transmite de pessoa em pessoa.

Surgem não só nos espaços físicos, mas também nas redes sociais, grupos que se especializam em consultoria sobre boas maneiras de uso da capulana, uma dinâmica que também vai emprestando um novo ímpeto ao pano.

Em conversas entre colegas, amigos e parceiros vinga a capulana como objecto de admiração e de tamanha importância. De esquina em esquina, perfila a beleza do tecido que chama atenção dos apreciadores.

Esta peça deixou de ser um objecto de uma nostalgia cultural, cujo significado encontrava-se apenas na tradição. Hoje em dia, o tecido tornou-se um traje não só de eleição em cerimónias tradicionais, mas também em casamentos, aniversários, entre outros momentos marcantes. Se no passado a capulana era uma peça de vestuário apenas para mulheres, hoje é de todos.

Gabriel Mavota, 42 anos de idade, é apaixonado pela capulana, mas confessa que cresceu acreditando que o pano era apenas para o uso feminino. Hoje, nem acredita que os preconceitos sobre a capulana caíram por terra.

“A minha avó tinha uma mala de capulanas, que só saiam quando fosse para uma cerimónia religiosa ou a um outro evento social muito importante. Foi isso que fui transmitido durante o meu crescimento”, contou Gabriel.

Ele não estranha o novo ímpeto que a capulana ganhou. Afirmou que se trata apenas do resgate dos valores culturais, a lembrar-se de um certo período que mesmo as mulheres, principalmente as dos centros urbanos, não usavam o tecido no seu dia-a-dia.

“Houve um momento em que as mulheres detestavam a capulana. Algumas meninas alegavam que o tecido era para ser usado por mulheres do campo, ou seja, aquelas ‘atrasadas’ e domésticas”, diz, entre sorrisos.

A ideia do uso da capulana como resgate da identidade cultural é também partilhada por Janina Domingos, também apaixonada por esta peça.

Para Janina, o tecido veio não só para resgatar os valores da tradição africana, mas também a dignidade da mulher que, aos poucos, ia se deteriorando. “Há variedade de tecidos que conferem beleza à mulher e hoje também aos homens. Mas, mais do que isso, a capulana é sinónimo de dignidade para qualquer mulher”, vincou.

Peças que atravessam fronteiras

MAIS do que um simples traje de preferência em Moçambique e em África, a capulana está a ganhar espaço além-continente. Este tecido tornou-se num dos artigos mais apreciados e solicitados na Europa e na América.

Ao mesmo tempo, o pano alimenta o dia-a-dia de “designers” de moda e estilistas. Por exemplo, Pedro Macua partilhou a sua experiência. Quando começou não tinha escolha pelos tecidos, mas foi confrontado com a dinâmica do mercado, vendo-se por isso obrigado a dedicar-se à capulana. E assim nascia a paixão por este tecido.

“Mais do que um imperativo do mercado, apaixonei-me pela capulana. Por isso faço o trabalho com muito gosto. E é isto que procuro transmitir aos meus clientes”, disse.

Aliás, recentemente Macua participou na oitava edição da exposição bienal de jovens criadores da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Cerejeira, Portugal, tendo representado o país na categoria de estilista.

O evento, que juntou mais de 12 expositores, serviu, segundo disse, como uma oportunidade de partilha de experiências com os outros colegas de vários países, mas partilhando uma coisa comum: capulana.

“Foi incrível ver diversas formas de confeccionar a capulana. A iniciativa espelhou o valor que a sua textura representa cada pessoa, independentemente da cor da pele”, disse, sublinhando o grande interesse que as pessoas tinham neste tecido.

Para além de solicitarem-lhe peças de roupa feitas com este tecido, Pedro Macua conta que a maior parte dos participantes trajava indumentária feita com base na capulana, como se este artigo fosse da tradição cultural portuguesa.

“Foi impressionante ver o sentimento que as pessoas têm com a capulana. Se não vendi alguns artigos é porque a missão era apenas de expor”, disse Pedro Macua.

Júlio Felisberto é estilista há quatro anos. E não foi ao acaso que entrou no mundo da moda e o tricotar da linha, tecidos e alfinete que, trancado no quarto, dava forma às imaginações que construía com a capulana. Era apenas o começo.

Actualmente, Júlio Felisberto, profissional firmado, aponta a criatividade e paixão artísticas como condimentos essenciais que um estilista deve ter para dar qualidade às suas peças. Aliás, assume, “estes são dotes que uso no meu dia-a-dia de trabalho à capulana e recomendo”.

Feiras impulsionam negócio

ESTE tecido dá cor não só nas alfaiatarias, passarelas de desfile de moda, mas também nas prateleiras de lojas, feiras, mercados e vendas de mão em mão.

A Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo (FEIMA) é um dos pontos atraentes da capital do país pela venda da capulana e artigos por ela confeccionados. A qualidade e beleza são os cartões-de-visita para turistas nacionais e estrangeiros, bem como visitantes de ocasião.

Revai Chivura, zimbabueana, encontrou em Maputo uma oportunidade de fazer negócio de objectos adornados pela capulana. A sua banca, na FEIMA, é uma das mais visitadas por clientes que apreciam o aspecto convidativo das suas peças.

“Os expositores são muitos, mas não compromete o negócio, pois as vendas aumentam a cada dia”, disse, feliz com o sucesso do negócio.

Calçados, cestos de palha expostos em todos os cantos daquele lugar de artes impressionam a todos os visitantes. Alguns compram os objectos para uso pessoal, enquanto outros é mesmo para oferecer a outrem.

Orlando Luís, “designer”, prefere dedicar maior parte do seu tempo na venda de capulanas e seus derivados. Isto por uma certa razão. É que as vendas vão muito bem.

A sua banca está repleta não só de vários tipos de capulana, mas também de diferentes artigos, um mais atractivo que o outro.

“É um prazer contribuir para a valorização da cultura, vendendo capulana, incluindo outros artigos diversos. Durante muito tempo os homens acreditavam que a capulana era apenas um vestuário para mulheres. Felizmente estamos num estágio em que estamos a pensar diferente”, disse.

Modernizar sem perder os valores

TRAZIDA da Ásia, antes da colonização portuguesa, a capulana era usada como moeda pelos comerciantes árabes nas trocas comerciais da costa oriental do Oceano Índico. A partir daí o tecido tornou-se um dos principais vestuários no império de Mwenemutapa, atravessando vários períodos, até que se constituiu costume na sociedade moçambicana.

Segundo Paulo Mahumane, antropólogo e docente universitário, a modernização da capulana é resultado do dinamismo da sociedade moçambicana, pois esta não é estática.

“Há sempre mudanças decorrentes em cada período”, anotou Paulo Mahumane, chamando atenção para o facto de não se “matar” a tradição, justificação de dinamismo.

“Lembremo-nos, sempre, que a capulana é um símbolo de respeito e dignidade, cujo valor transmite-se entre gerações”, indicou.

Para o nosso interlocutor, modernizar o tecido não pode significar colocar em causa a cultura identitária. E chama atenção para os riscos que a globalização representa, particularmente no que ao cruzamento de culturas diz respeito.

“A globalização coloca em causa os costumes culturais. A capulana, como outros artigos, sofrem algumas transformações para responder a imperativos do mercado. Por isso, a própria sociedade deve, no meio desta dinâmica, salvaguardar a sua própria identidade”, vincou.

 

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