O governo provincial da Zambézia está a mobilizar recursos financeiros para resolver, de modo definitivo, a crise de água potável que afecta cerca de cento e vinte mil munícipes da cidade de Mocuba, há mais de 20 anos.

Ao longo deste tempo, foram feitas pequenas intervenções no sistema, em termos de reabilitação, contudo a situação não melhorou.

Sobre o assunto, o governador Abdul Razak afirmou que o governo provincial já concebeu um projecto para reabilitação da rede de abastecimento de água da cidade de Mocuba, estando em curso o processo de mobilização de recursos financeiros.

O governante explicou que quando há escassez de chuvas, o caudal do rio Licungo baixa e nessa altura a capacidade de provisão de água reduz consideravelmente, apresentando sinais de ser turva, o que, na sua opinião, não é bom para a saúde.

Segundo ele, o problema da crise de água na cidade de Mocuba tem como soluções imediatas a criação de mecanismos para a conservação daquele líquido na zona de captação no rio Lugela e a substituição da tubagem de canalização para os consumidores.

O sistema de conservação de água na zona de captação ficou destruído pelos desastres naturais de 2015 e “o governo pretende mobilizar fundos para restaurar a infra-estrutura o mais rápido possível”, disse o governador.

Conforme apurámos, a empresa “Águas de Mocuba” mostrou-se incapaz investir e gerir melhor o sistema. Actualmente, o mesmo está adjudicado à gestão privada, a ser feita pela empresa COLLINS Construções.

O proprietário e gestor desta empresa, Pedro do Rosário, disse que tem vindo a propor melhorias na rede distribuição e o governo está a responder favoravelmente. O nosso entrevistado afirmou também que os filtros para a purificação, comprados pelo governo provincial, podem produzir 300 metros cúbicos de água potável por dia, mas o grande problema está na distribuição, uma vez que a rede está obsoleta.

 

O problema de água em Mocuba

 Cerca de cento e vinte mil munícipes da cidade de Mocuba, na província da Zambézia, estão há vinte anos a enfrentar uma crise sem precedente de água potável e as medidas pontuais e de emergência, que têm sido tomadas, estão longe de resolver o problema no seu todo.

O G-20, uma plataforma da sociedade civil, diz que o governo não se pode “esquivar” de resolver o problema, encontrando uma solução duradoura e consistente para o mesmo, sob pena de perpetuar o ciclo de pobreza e de doenças de origem hídrica, responsável por internamento de pessoas no hospital rural local.

Amade Naleia, representante do G-20, afirmou, há dias, em Quelimane, durante o encontro do “Observatório de Desenvolvimento”, que Mocuba está mal, e que medidas consistentes devem ser tomadas para reabilitar e ampliar a rede obsoleta.

Há três semanas, dezasseis doentes estavam internados no Hospital Rural de Mocuba, vítima de diarreias agudas, situação que levou o G-20 a endurecer a sua exigência ao executivo dirigido por Abdul Razak.

Carlos Joaquim, membro da sociedade civil, afirmou, durante o debate, que muito pouco tem sido feito em relação ao sistema de abastecimento de água para a cidade de Mocuba, apesar de ser uma Zona Económica e Especial e também Zona Franca e Industrial.

Na sua opinião, não se pode desenvolver uma região daquela natureza no meio de problemas gravíssimos de água para os munícipes.

Um outro participante, José Arijama, entende que a situação de Mocuba precisa de uma intervenção séria e um outro nível de investimento. Segundo ele, os munícipes estão à espera do cumprimento de promessas eleitorais de que teriam água em quantidade e qualidade suficientes para suprir as suas necessidades diárias.

 

Situação com “barba branca”

O director provincial das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Artur Graciano, disse na ocasião que o governo contratou um consultor para rever o sistema de água de Mocuba, de modo a alterar o anterior desenho, feito pela Millennium Account, que há oito anos propôs um investimento para reabilitá-lo. Segundo Graciano, dois rios abastecem o furo de captação em Mocuba, nomeadamente, Lugela e Licungo. Nesta altura, há uma rocha que impede a entrada de água para a urbe. Por isso, equaciona-se a possibilidade de detona-la. “Há uma rocha que impede a água de entrar no poço para bombear para o centro de captação e bombagem. Para dizer que há várias propostas na mesa”, justificou-se. 

 A rede de distribuição de água está obsoleta e não se vislumbram perspectivas, pelo menos a curto prazo, para a reabilitação, modernização e ampliação, de modo que mais gente tenha água a jorrar nas suas torneiras. As intervenções pontuais e de emergência, apesar de terem consumido muito dinheiro, não resolveram o problema. Por isso, os caudais de Licungo e Lugela, dois rios que atravessam a urbe, têm sido a alternativa, apesar do risco de contaminação por doenças de origem hídrica.

O número de habitantes tem vindo a crescer significativamente, o que se traduz em novas necessidades em termos de água e o futuro coloca ainda mais desafios com a transformação da urbe em Zona Económica Especial e Franca Industrial, uma vez que mais projectos serão implantados e a necessitar de água para a sua execução.

Ao longo de vinte anos, a situação não melhorou, apesar de terem sido feitas pequenas intervenções no sistema em termos de reabilitação. O governo e vários parceiros já prometeram a mobilização de recursos financeiros para resolução do problema. Por exemplo, o governo tinha prometido, há oito anos, desenhar o plano-director e a Millennium Challenger Account desembolsar dois milhões de dólares para obras de intervenção pontual no sistema.  

Ainda este ano, o governo investiu 15 milhões de meticais para colocar filtros de purificação de água e depois adjudicou a gestão do sistema à empresa COLLINS, mas a crise de água ainda prevalece.

 

População recorre ao rio

A nossa Reportagem esteve há dias na cidade de Mocuba e testemunhou este drama de falta de água em quase todos os bairros da urbe. Como alternativa, os munícipes recorrem directamente aos rios Licungo e Lugela, que cortam e abraçam a cidade, para buscar água e suprir as suas necessidades diárias.

No bairro Posto Agrícola, por exemplo, mulheres e raparigas fazem-se ao rio Licungo às 4 horas, com recipientes para tirar água, antes de as pessoas começarem a tomar banho, lavar a loiça e roupa no local, poluindo a água.

Angelina Miguel, uma das mulheres que conversou com a nossa Reportagem, disse que elas acordam muito cedo, porque pretendem tirar água antes de ser agitada pelos banhistas, que chegam com o nascer do sol. Todavia, parece um esforço inglório, pois a essa hora, a montante, há pessoas que tomam banho, lavam a loiça e roupa, enquanto, a jusante, outras tiram água para beber.

Doenças

Lígia Alfredo é moradora do bairro Posto Agrícola II e diz que muitas famílias não fervem a água depois de a cartar no rio, situação que concorre para a eclosão de doenças diarreicas. “No mesmo local, enquanto uns tomam banho e lavam loiça, outros cartam água para beber”, disse a nossa entrevistada, para quem o grande problema é a falta de concretização das promessas feitas pelos dirigentes a vários níveis.

O mais grave ainda é que sempre que chove, todo o lixo, incluindo fezes depositadas nas margens, é arrastado para o rio, constituindo um forte potencial de contaminação da água, que é retirada do rio pelos munícipes. A cidade de Mocuba é vulnerável à cólera. Quase todos os anos há cólera.

As autoridades sanitárias confirmam a ocorrência de casos de diarreias e apontam como uma das causas o consumo de água imprópria. Sem avançar dados, o director dos Serviços Distritais da Mulher, Género e Accão Social, Dionísio Maior, afirmou que nos meses de Agosto e Setembro últimos, as autoridades sanitárias diagnosticaram vários casos de diarreias.

 

Privados envolvem-se no abastecimento

Na zona norte da cidade de Mocuba, depois da ponte sobre o rio Licungo, há uma zona onde alguns empresários abriram furos. A região tem muita água, mas faltam tecnologias para extrair esse precioso líquido e dá-lo às pessoas. Muzafar Azize é um dos empresários que construiu uma fonte com tanque elevado. Investiu na construção de um pequeno sistema, puxando água do subsolo para o tanque. Logo pela manhã, uma multidão perfila-se para se abastecer, enquanto do outro lado, viaturas com cisternas fazem o mesmo para conseguir o precioso líquido, de modo a abastecer outras zonas da urbe.

Muzafar Azize afirma que quando construiu o pequeno sistema de abastecimento de água era para resolver necessidades próprias. Mas, quando muitas pessoas começaram a solicitar os serviços, ele passou a vendê-la a preços simbólicos. O nosso entrevistado disse ainda que as empresas que fornecem água cobram valores acima do que arrecada, de modo a rentabilizar os pequenos sistemas.

“Ao Hospital Rural forneço água gratuitamente, porque não é possível um hospital funcionar sem água. Uma mulher que sai do serviço de parto precisa de água para si e para o bebé”, disse Muzafar, acrescentando que há várias empresas em Mocuba a prestar serviços de fornecimento de água.

Os munícipes de Mocuba consideram os rios Licungo e Lugela que atravessam a cidade como “uma dádiva de Deus”. Não fossem aqueles rios, o drama seria pior, pois não saberiam onde e como ter água para suprir as necessidades diárias.

Ana Maria Zé, residente no bairro “Toma de Água”, afirmou que o governo deve construir reservatórios ao longo das margens, porque com as mudanças climáticas, um dia os dois rios podem ficar sem água por longo tempo.

Josefina Marques, outra munícipe, diz que o rio Lugela tem desempenhado um papel muito importante ao longo dos últimos três anos, depois que o sistema de água ficou totalmente obstruído. “Sem Lugela nem Licungo não iríamos sobreviver”,disse.

 

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